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quinta-feira, novembro 18, 2010

Futilidades







Nos tempos actuais, tudo aparece fácil e sou condicionado para dar prioridade à edificação como pessoa egoica ou profissionalizada; maiores investimentos ou compromisso do que “pelo menos tentei” - no aspecto emocional - são lendas do passado ou tiranias do presente; parece emergentemente necessário repensar o sentido de prioridade da minha existência como entidade.

Que o ser humano em mim não seja predado por um sistema de capital e uma nova organização social, privilegiando a funcionalidade sobre todo e qualquer valor que me permita ter sentido de estabilidade, raízes profundas ou capacidade de afirmar a negativa perante o interesse dos grupos económicos organizados.

Algo cancerígeno tomou controle das estruturas das nações, - desenvolvidas para servir o Homem - tal como todos os métodos e meios tecnológicos por este engendrados: promove-se a desagregação dos valores ou de um sentido profundo de “ser” e “estar” que pudessem barrar o crescimento desenfreado de capital.

Como um polvo de tentáculos vários, esta força nociva vai esmagando a estrutura humana desde o seu centro mais elementar - o sentido de pertença.

Outrora – no tempo dos "Afonsinhos" - pessoas e organizações possibilitaram dar equilíbrio e existência ao ser humano: como consciência tendente ao social, como ser emocional ; não apenas como instrumento mental de aplicação laboral multifacetada, de uso reciclável, de utilização intensa e limitada no tempo - como uma qualquer embalagem que se estoura na sua intensidade e depois se estaciona num qualquer contentor para que outros mais aptos tomem o seu lugar... raio de consciência humanista, raio de estrutura de estabilidade entre todas as outras da natureza que tão gravemente se critica.

Arriscar a vida por um ideal – como a família, o amor ou a estabilidade – pode ser uma boa resposta à crise de valores que ameaça com desenraizar a humanidade de todo sentido de “Norte”: que me permite opor resistência aos caprichos de consumismos e utilitarismos completamente descabidos, saídos de fantasias orgíacas em mentes fora do comum sentido de pertença ou vínculo ao valor fundamental de amar o próximo E a sí mesmo?



Erguer-se para dizer “não” nunca foi tão complexo e subtilmente velado do que na actualidade...
No domínio do complexo, a sucessão de tarefas e a pressão crónica a que nos encontramos sujeitos: debaixo da desculpa descomposta de crises económicas veladas, ameaças biológicas e naturais constantes, hostilidade perante um factor humano desconhecido a título permanente, preços de combustíveis e bens base desorbitados, sistemas de segurança social destruídos, peso de seres humanos ditos “idosos” incapazes de ser suportados por padrões de consumo e bem estar divulgados por média demasiado ambiciosos para as capacidades padrão da extrema maioria do mundo… fazem com que a resistência e resiliência perante a invasão das diversas possibilidades de compra/ venda de tempo, interesses, objectivos, compromissos profundos e até dedicação ao humano se tenha tornado insidiosamente impossível de suportar.



No domínio subtil, a humanidade se encontra progressivamente aprisionada numa jaula de cristal – com barrotes frios mas invisíveis:

- Posso comprar via “net” um telemóvel última geração e ter cinquenta affairs em simultâneo. - É possível divulgar às massas a vitória do Porto sobre o Benfica no mesmo rodapé do que um massacre qualquer numa qualquer zona da África.
- É aparentemente fácil dizer "não" a uma relação através de uma mensagem de e-mail ou sms e a agenda electrónica prediz o tempo que posso dedicar ao ser humano que – assim – se enquadra nos tempos pautados por uma rotina cada vez mais precisa e impiedosa.


E – se tudo é assim tão bom, desenvolvido e desejável - não entendo o porquê da crescente ambivalência, do cepticismo e da incapacidade para o compromisso; não entendo o paralelismo da subida do desespero (taxas de suicídio, patologias mentais várias, dependências, criminalidade)…

Se estou numa sociedade na que, cada vez mais, publicitamos a capacidade de opção, a felicidade e a liberdade como mais valias adquiridas à custa do nosso próprio esforço e sacrifício: que raio se está a passar?

 

Quem lucra com tudo isto?
De certo, o tempo desperdiçado com o IPhone poderia ter sido investido aprendendo a abraçar o ser querido.

Será que a tecnologia humana está em desaparição e teremos de pagar cursos e “workshoppings” para “aprender” a abraçar, beijar, tocar, sorrir, passear de mão dada?...

Teremos de ler em livros, revistas e terapeutas especializados, como fazer amor com a pessoa que amamos?

Que nos estão a fazer senhores dirigentes - a onde nos querem levar e que pauta marca o nosso caminhar?
Vamos terminar por “engarrafar” a vida – tal como fizemos com a água – e pagar, por re-aprender a viver com a naturalidade que sempre tivemos: pelo simples facto de existir…

"Não saberem bem o que querem e estarem à espera de algo ou alguém que vos diga melhor do que vós mesmas, para além de qualquer dúvida ou risco - sem necessidade de ir em frente para além do medo - que esse é o caminho que escolhem entre muitos outros caminhos possíveis". Cada homem é um caminho a ser descoberto e não apenas um monte de pedras empilhadas a ser pisado.

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