Música

terça-feira, março 28, 2006

What Dreams May Come...


Existimos porque alguém pensa em nós, não ao contrário

De certo foi algum homem quem – em loucura de se entronizar pela razão – achou “cogito ergo sum”… pouca sabedoria existe na mente de quem persegue fogos fátuos ou frases peremptórias sobre a sua natureza e a do mundo.

Qualquer coração de mulher – que sente e concebe vida nas entranhas – lhe poderia ter dito… que só se existe sendo amado, que temos ser se habitarmos no pensar de alguém

Que a morte não nos toma, se plantamos semente de vida em coração alheio, e fomos terra fértil para que o amor prendesse em nós


Que somos estéreis e agrestes, ao levantar barreiras ao seu chamado… ocos e diáfanos, ecoando pelas estradas de uma vida erma, se não nos abeiramos novamente do jardim de cujos frutos fomos outrora separados…

"1Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e näo tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e näo tivesse amor, nada seria.

12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas entäo veremos face a face; agora conheço em parte, mas entäo conhecerei como também sou conhecido.


13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor."

Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, Capítulo 13

Para as amigas cujos pais são agora luz para a matéria deste mundo.

Para mim – que esquecera esta mensagem – e fui desperto para uma das chaves da vida pelo teu amor… já sabes quem és.
O pequeno homem erra, mas aprende no seu deambular errático.


Bem haja

(p.s - se puderem, vejam o filme que dá título a este post... lindo, lindo, lindo)

sexta-feira, março 24, 2006

Remember...


Primeiro – um aplauso aos Wachowski – por fazerem filmes inteligentes, ousados e de carácter visual surpreendente numa época de anodia total…

Segundo – V – é um conjunto de apelos que evocam muito mais do que aparece a simples vista…

O primeiro seria uma série dos ’80 – com a mesma tinta vermelha contra uma ditadura disfarçada de conveniência aparente - a ditadura era de Lagartos Extraterrestres e a conveniência era para eles (que se alimentavam de pessoas e da água deste planeta) e para alguns cooperativistas entre os próprios humanos…

O segundo são as alusões…

Quem não vê os prédios, os massacres, os governos que provocam fachadas para encobrir os seus próprios delitos…
Não seria o humor cáustico de “Manobras na Casa Branca” que despertaria as consciências para uma realidade que o próprio filme indica na paródia:
Os artistas usam mentiras para dizer verdades e os governos usam (a língua inglesa não permite saber se – os artistas ou as mentiras) para encobri-las…

O terceiro são os valores: são as ideias, não os homens que prevalecem…

As ideias são universais – era após era, surgem como cogumelos de entre os despojos dos vencidos e afloram à superfície das aparências tão elaboradamente recalcadas nas mentes colectivas…

Mas – os Homens – são os que marcam as diferenças… uma ideia não vence um combate contra a ignorância, o medo ou a opressão – as opções dos Homens sim.

O quarto é a acusação…

Contra os governos (desde alusões claras ao governo U.S.A, passando pela igreja como defensora de mentiras, pelos média encarceradores de verdade, pelas policias guardiãs de ditaduras, por ditaduras disfarçadas de homens de negro e capuchos em prisões ilegais em paradeiro desconhecido…).

A principal acusação é feita por V – num discurso que parece uma admoestação a crianças traquinas: se quiserem ver o culpável pelo estado no que o pais, ou o mundo se encontra – vejam-se ao espelho.
Talvez uma mensagem pouco recalcada no filme, em prol do equilíbrio da consciência individual de cada um, mas uma das mais pesadas e de maior gravidade na fita para cada um dos que a vêem…

O quinto é a revolta…

Não apenas a justificação da violência como forma de gerir justiça ou dar liberdade – pois V auto-imola-se no fim - gesto de que um mundo antigo deve terminar. São os herdeiros desse mundo - que com gesto desmedido enfrentam as armas de peito aberto - assistindo à demolição do antigo edifício de tiranos disfarçados entre diplomacias, que poderão herdar um mundo realmente renovado.

A violência que os cidadãos exercem é uma violência contra os seus hábitos apáticos

A violência recai sobre uma menina que se atreve a dizer verdades onde os pais se olham estupefactos, se atreve a pintar um “V” sobre a tirania moral e ideológica de um cartaz do regime onde a protagonista tenta passar inadvertida, fugindo de si mesma e das suas convicções… não em vão alguém dizia que – o tal reino – teria como premissa que fôssemos como crianças…

Enquanto V desencadeia a sua vingança para o celulóide, enquanto nos procuramos identificar com a libertação da protagonista – do seu medo, das suas memórias, até da sua rotina inicialmente e da tentativa de se mentir a si própria – a violência real passa para o lado do governo e os homens, mulheres e crianças saltam-na indiferentes, ao passar em frente aos homens armados, às barricadas do exército em direcção às casas do parlamento que – inevitavelmente – culminam num estrondo apoteótico e anunciador de uma nova era…

Não caiba a mínima dúvida, é esta a única violência que cada um de nós terá de exercer sobre a ditadura moral, ideológica, política ou mesmo das simples rotinas que encadeiam o ser humano, de forma a estilhaçar o antigo edifício de governos, governantes, exércitos, opressão e poder encarar – finalmente – a sua própria liberdade

Como Natalie Portman – até que não estejamos finalmente livres do medo – não poderemos avançar e fazer frente ao que quer que nos oprima

V – for Verdade

(Não te via há quase um ano... à saída do cinema estavas lá outra vez; não parei, segui - e hei de seguir, porque este mundo fará chacota das minhas opções e da sua falta até que se acabe nele o ar para mim)

sexta-feira, março 17, 2006

The Way


O caminho… o caminhante… novamente… Errante… Corrigindo o erro de não caminhar...

Depois de dois anos separados (ou caminhando lado a lado em silêncio), voltamos a nos encontrar…

Encontrando-nos reunimos de novo – eu em ti, tu em mim - montanhas pirenaicas, gentes impossíveis de todas as partes e sem parte alguma que não seja sua por direito…

Encontrando-nos – nós liberdades de quem voa –caminhos que conduzem a dentro, ao conhecer do que somos, em companhia dos livres - que se atrevam a ir além da rotina de si e se entregar…

Nós ecos pirenaicos que ressaltam entre granitos mágicos, e voam por casas de pedra Navarra, e correm frente a Touros de terras panplonicas…


Nós, vilas e aldeias perdidas na meseta, com casotas de tijolo e velhos que languidecem baixo um sol eterno em cruzes templárias de templários loucos escondidos nas montanhas…


Ecos… somos ecos de pisadas que passam…suponho que cada qual terá o seu… o eco dos mistérios nas muralhas de Ponferrada, nas igrejas Joaninas de Castrojeriz…


Ecos de florestas druidicas, com sombras milenárias entre o Lugo dos carvalhos, mesclados entre névoas milagrosa de capelas do Cebreiro…

Ecos em pedras místicas de igrejas encriptadas, ecos em gentes de outros lugares através de linguagens singulares, ecos na simplicidade de se partilhar o pão… todos finalmente irmãos… apenas…Ecos… tantas vozes… em mim…


Comecei a caminhar já há algum tempo…

Determinar a ida é um passo do próprio caminho…

Lutar as férias necessárias para o trilhar por inteiro – uma outra aventura…

Escolher e mimar os materiais que serão companheiros de viagem – a mochila (quente amiga em costas gélidas de vendavais, neve e chuvas), botas (senhoras do nosso agrado ou pesar, ao se palmilhar as pedras milenares), impermeáveis e afins…
Goretex, trekking, coolmax… estrangeirices que nos vão mergulhando na multiciplicidade do que se avizinha…

Preparar a viagem, deleitar-se tocando com imaginação fértil as curvas sensuais do caminho amado… lendo e vendo fotos de lugares que cedo pisaremos com nossos próprios pés.

Divertir-se já com as peripécias dos horários – ver o quanto vamos dormir nesta ou naquela estação de comboio por forma a chegar ao lugar para iniciar um deambular rumo a Santiago… ou Finisterra… ou mais além…

Começar a caminhar – mochila às costas – por serras e vales, umas horas por dia; treinando a disciplina necessária para continuar caminho sem se desviar, reconhecendo a cruz que se faz prazer ao caminhar moldando a nossa peugada ao caminho…

Mudar horas de sono, comidas… e – sobretudo – forma de me sentir no mundo…

Sou de novo peregrino, estou de novo a caminhar, tenho novamente sentido… novo, renovado… vivo!


Deixo atrás o barrigudo burguês em rotina acamado, na Internet ancorado como num porto de fuga, perseguindo chocolates emocionais para anestesiar a dor de não pertencer a isto… de não ser daqui.

E vou…

Ontem estive com um amigo em Vigo.

Esquecera os bilhetes de comboio no balcão do “El Corte Inglês” onde comprara a guia do caminho… tive de lá voltar…

Depois de recuperar os meus bilhetes para um mundo mais à medida, lá marquei encontro com ele num pub – para conversar um pouco… ele foi deixado pela companheira à dois dias…

No meio do trânsito em hora ponta, deixei o carro no primeiro “Parking” disponível, em redor das Camélias…
Aquilo fechava à 22.30h… tinha duas horas… supus ser suficiente… hehe – já estão a ver que não foi e que fiquei sem poder regressar a casa até hoje de manhã… caminho é mesmo assim… mais do que aquilo que se esperava – desenha-se e revela-se no inesperado.
O nosso papel é ousar seguir, ir, ver o que nos mostra…

O Lain (o tal colego) nunca mais terminava de instalar um Windows no PC de alguém que – depois – soube ser o namorado de uma garota que eu conhecera no passado, lá em Vigo… mundo pikininuuuuuuuu!

Entretanto ia degustando o ambiente.
Eu já de botas de Goretex e calça-calção apreciava a bicharada citadina viguesa…
No meio de um pub de “pinta” sentia o contraste do meu “look”… e gostava do formigueiro que provocava a diferença… ousar… ser… ir… caminhar.


Estava “Entre dos tierras”… degustando uma cerveja de importação, num pub de madeira e veludo, lendo Gabriel Garcia Marquez, olhando-os a eles e elas – os seus gestos, os seus olhares – entrelaçando-me com eles sem que se precatassem, sentindo e usurpando parte daquele festival de pierrots e arlequins…

Outro eu estava já de partida – de botas e calças de caminhar - caminhando para algures que não aqui… passando pela vila mais estranha e bizarra que já pisara nos mundos do meu espírito errante - vila de vozes e sorrisos na noite, de olhares pétreos e sons baços no dia…

Ele apareceu depois de mais de uma hora… falámos.

Se algo ressalta da geração de gentes com as que ainda me dou ou com quem partilhei aventuras e outras tantas que não… é que somos inadaptados

Por muito que nos esforcemos para fazer de conta, para procurar enganar-nos (em primeiro lugar) ou de corresponder às expectativas (de quem nos ama e de quem nem por isso)… não estamos lá.


Aquilo não nos diz nada.

As nossas histórias são essas – de estar a andar por andar se andamos para onde e como outros nos dizem.
Andar em rodopios, andar errando, andar parados, andar sem jeito, sem ir a nenhum lado, só andar


De ser revoltados com algo – se calhar com tudo – porque nada parece bater certo, nada nos diz respeito… andar sem rumo, andar sem meta, só andar

Desde que despertamos para nós mesmos, quando deixamos de viver a vida por imitação, não mais pagando impostos para ser um mais do rebanho – então sentimos…


Não se quer crescer, não se quer vender a alma por tanto de nada, não se pretende manter o círculo à custa de outros que se façam iguais

Marionetas em teatro alheio… pés caminhando sem horizonte, pernas avançando sem olhar, corpo movido sem alma, cordas que puxam, membros em convulsão, peças de um lego caótico, cubismo vital, mapa vazio seguido sem cessar…


Filhos de ninguém –pais de faz de conta –gente que trilha caminhos bravios, terras de baldio… parando ocasionalmente baixo sombras agrestes – em momentos fugazes, vemos paisagens desde as colinas elevadas onde nenhum rebanho costuma pascer…

Quando vencidos pela “normalidade” dos números, rodopiamos em espirais - teatrais – de estertores lívidos; cobiçamos veladamente os finais mais bizarros para uma obra cuja partitura – para nós – não existe…

Incapazes de cair na cadência extática – formalmente disseminada pelo grande grupo – namoramos mortes simbólicas em opiáceas fugas que nos projectem para lá deste lodo de construções fictícias… passamos os dias – conscientes - em mundos de faz de conta para não permanecer – inertes – num sonho de uma noite de Verão



Caminante no hay camino… se hace camino al andar…

quarta-feira, março 15, 2006

Sal da Terra

"Vós sois o sal da terra! Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.

Vós sois a luz do mundo: Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do velador, e assim alumia a todos os que estão em casa. Brilhe a vossa luz diante dos homens…" - Sermão da Montanha segundo Mateus

Senhor Enfermeiro”… nunca lhe ganhei grande estima ao título, não me sinto apegado a ele, preferia as pessoas…

De cartão ao peito – com o meu nome cerceado – primeiro e último apenas… mas, temos tantos nomes… temos diminutivos para quem nos quer bem (Dani suponho) e temos reducionismos para os que nos querem minimizar (… zinho), temos o da tropa (Pinto, I guess), temos o das autoridades (Sr. Daniel), temos o dos que desprezam (Oh Pá! Deve ser), temos o profissional (Daniel Pinto no caso) – devemos ter mais.

Nome em último, neste cartão - “marca dos ferros” em gado socializado – primeiro aparece um cunho de propriedade: uma figura estilizada de verde e vermelho (já se esqueceriam do sangue e da liberdade que as cores implicavam?); depois um cargo (ou função neste caso – Enfermeiro); uma foto de quando ainda acreditava nesta coisa toda e – por detrás… sempre por detrás e em letra miudinha - os “deve” que o tal implica…

Um cartão de Ordem…

Uma assinatura mensal na revista das novidades baças, uma quota-parte de responsabilidade nos nadas que são tudo na vida desse colectivo.
Mereceriam Mateus, 23 – com todo o peso, justeza e medida…

Um diploma…

Que me habilitou a prestar cuidados de Enfermagem geral…

Uns anos a sofrer o processo de transformar um leigo num iniciado dos meandros do ser (se) humano em toda a sua enorme pequenez e enlevada profundidade.
Um especialista de substituição de mãos que cuidem… pois agora só há mãos que trabalhem…

O amor à “camisola” (neste caso à bata)…

Que nos leva a cerrar fileiras contra o estado, os médicos, os familiares, as condições, a não dignificação, a falta de estatuto… com um pouco de sorte também contra os administrativos, os auxiliares e os próprios doentes que são mais rezingões e exigentes do que o costumeiro cordeiro de matadouro que não dá muito de sí… se tivesse tirado outro curso lutaria no outro bando, talvez…

As competências técnicas, científicas… humanas;

Talvez… se por isto entender a capacidade de um ser humano no seu todo, de abrir espaço entre o vazio e construir bem estar…para si e para os outros…

Mais do que um operário “high tech”, uma ferramenta plena de recursos estratégicos e de conhecimentos transbordantes, com sede de saber imparável e dinamismo desenfreado – eu creio em humanidade…

Pode parecer simples de mais – mas creio ser a chave que abre a essência do que vejo… humanidade.



Cuidar…

Dar Atenção” – hoje é mais fácil de definir pela negativa, pela sua falta…

Para que isto de cuidar aconteça – quem cuida deveria, primeiro – ser capaz de cuidar de si mas...

Horários de loucos, horas extras por tabela e cifrão, cada vez mais louca a sua quantidade - abraçada por ambos: os que as cumprem e os que as exigem.
Tempo reduzido a sobras…

Desígnios de cuidar ditados por orçamentistas, cuidadores de estatísticas, operários de cadeias de montagem em série onde tudo vale para cumprir os objectivos da produção estipulados para o mês… o ano…

Seria tão simples… como ter tempo...

Tão directo como olhar nos olhos e sentir compaixão… com paixão… de se ver do outro lado do espelho e de se sentir dorido…

Tão fácil como tocar, sorrir, confortar… tão franco como ser-se igual a si mesmo…

Tão honesto como servir, tão alto como ser-se para outro tanto como para si mesmo…

Hoje lamento vender tudo isto.


Hoje choro ser maquina, dar apenas uma ou outra vez das muitíssimas vezes que podia ter dado…

Hoje lamento cada desculpa, cada contornar das falhas – de materiais, de pessoal, de paciência – com silêncios…

Hoje estou de luto por todos os momentos de vida mortos no turbilhão das estatísticas, das políticas, dos cifrões, das massas inertes que fazem - do número de consultas - uma melhoria da saúde…

Até quando… até onde?

Já vendemos o cuidar – tanto e tantas vezes – que são os próprios carentes que se viciaram em o comprar… e funciona!

Os bancos inventam seguros de saúde e nós sentimos que somos melhores, que tudo vai bem!
Alguém ganhará com isso - de certo que sim… mas nós perdemos todos.

Se necessitamos pagar para ter humanidade – vamos todos à prostituta, fora de horas, e paguemos o que não podemos ter de graça… humanidade.

Dito isto – obrigado por todos os que não permitem que haja condições, por não quererem ou não quererem saber…

Obrigado por todos os que sabem que o sistema público deve falhar para que entremos na Europa por direito – como modelo de país industrializado e moderno, a imagem dos outros tantos que conhecemos - livre comércio de tudo e de todos…

Obrigado por todas as empreitadas que permitem o crescimento empresarial com base nos despojos alheios…

Obrigado por todos os que se esqueceram da sua imagem ao espelho de tanto serem chamados Sr. Enfermeiro… terminamos mesmo crendo que somos alguém.

Obrigado… a tudo isto… para sobreviver na selva social.


Nota:

Só para lembrar o que anda esquecido…



“(1820 -1910) Florence Nightingale é considerada a fundadora da enfermagem moderna.

A sua família considerava a enfermagem algo inapropriado para uma dama de boa estirpe, por isso, começou seus estudos após os 31 anos, num curso na Alemanha.

Na Inglaterra, Florence abriu o primeiro curso de treino em Enfermagem, em 1860.

Florence não conhecia o conceito de contato por microorganismos, uma vez que este ainda não tinha sido descoberto, porém já acreditava em um meticuloso cuidado quanto à limpeza do ambiente e pessoal, ar fresco e boa iluminação, calor adequado, boa nutrição e repouso, com manutenção do vigor do paciente para a cura.

Ao longo de toda a Guerra da Criméia, Florence conseguiu reduzir as taxas de mortalidade entre os soldados britânicos, através de seus esforços como enfermeira e, provando a eficiência das enfermeiras treinadas para a recuperação da saúde.

Até o momento, só homens e mulheres religiosos podiam cuidar dos soldados no exército.

Nas suas escolas,Florence baseava sua filosofia em quatro idéias-chave:

1.O dinheiro público deveria manter o treino de enfermeiras e este, deveria ser considerado tão importante quanto qualquer outra forma de ensino.

2.Deveria existir uma estreita associação entre hospitais e escolas de treino em enfermagem, sem estas dependerem financeira e administrativamente.

3.O ensino de enfermagem deveria ser feito por enfermeiras profissionais, e não por qualquer pessoa não envolvida com a enfermagem.

4.Deveria ser oferecida às estudantes, durante todo o período de treino, residência com ambiente confortável e agradável, próximo ao local.

As primeiras escolas de treino Nightingale ministravam cursos de 1 ano, que, com o tempo, passaram a ser de 2 anos.

Florence deu origem às prescrições médicas por escrito e, também, exigia que suas enfermeiras acompanhassem os médicos em suas visitas aos pacientes "para prevenirem erros, diretivas mal compreendidas e instruções esquecidas ou ignoradas" (Palmer,1983 apud Atkinson).

A seu ver, para a melhoria do estado de saúde do país, o ensino da Enfermagem era uma grande responsabilidade das enfermeiras. Preconizava a ideia de que a saúde era não apenas estar bem, mas ser capaz de usar toda a nossa capacidade.

Florence julgava que o propósito da enfermagem era"colocar-nos na melhor condição possível para que a natureza possa restaurar ou preservar a saúde, prevenir ou curar as doenças"(Palmer,1983 apud Atkinson).
(lamparina de Florence)

segunda-feira, março 06, 2006

Una Rosa...


“Quise cortar la flor
mas tierna del rosal
pensando que de amor
no me podria pinchar
y mientras me pinchaba
me enseño una cosa
que una rosa es una rosa es una rosa...

Y cuando abri la mano
y la deje caer
rompieron a sangrar
las llagas en mi piel
y con sus petalos
me la curo mimosa
que una rosa es una rosa es una rosa...

Pero cuanto mas me cura
al ratito mas me escuece
porque amar es el empiece
de la palabra amargura

Una mentira y un credo
por cada espina del tallo
que injertandose en los dedos
una rosa es un rosário”

Mecano – “Una Rosa Es Una Rosa”- refrão – J. Cano – baseado numa frase de Gertrude Stein

Escrevo enquanto a minha orelha ainda lateja, enquanto a minha mandíbula ainda dói… foi ontem – mas dói.
Não doeu na altura, na altura nem tive tempo para racionalizar a coisa… por isso, agora quero guardar isto, para me lembrar…

Sai à noite, era Sábado.
Decidi sair do meu claustro auto-imposto e falar, ver e sentir gente em vez de estar nos meus mundos virtuais.
E fui…

Encontrei um par de colegas… e logo estabeleci pontes de conversa.
Nós os humanos produzimos endorfinas pela interacção social… o cérebro “excita-se” com os outros – sobretudo com a conversa e o riso que dela advém – e, o seu “orgasmo” são substâncias químicas que se ligam às células, nos mesmos receptores que os opiáceos… logo – somos viciados nos outros, naquilo que obtemos deles e que alquimicamente geramos em conjunto… esse é o sumo sagrado, que provém das profundezas e meandros, daquela que pensamos ser a mais complexa máquina cogitante do Universo…

Em frente.
O pub onde estava – em Valença, aquilo está tudo junto, não há muito para onde ir – estava praguejado de tabaco, pelo que vim respirar um pouco cá para fora - de forma a subsistir aos vários “rounds” contra o tabaco que ainda tinha pela frente, e obter a minha “dose” de endorfinas da semana…

Cá fora estava alguma confusão.
Todos (umas 20 pessoas) olhavam – algures entre o divertido e o desconfiado – para um pequeno grupo de gente, em barafunda aparente.
Um deles lá se contorcia, agarrado por dois colegas – prometendo partir e desfazer tudo, camisa ao penduro de tanto puxarem pelo moço.

Por mim passou um tipo miúdo (de altura, não em idade – depois vi que o conhecia dos tempos de infância, de aterrorizar as minhas aventuras solitárias pelas muralhas da Vila – sempre tive esta tendência de passear sozinho… he he; suponho que o caminho de Santiago já começou pelos meus 4-5 anos, quando deambulava maravilhado por aqueles aglomerados de pedras ecoantes de história).

Anyway – o sujeito passou – “arrebolando” comigo e mais metade da plateia.
A noite estava de gelo (eu tava de casaca no pub) mas o homem “miúdo” lá levava apenas uma T-shirt em cima.
Passou pelo grupo dos que agarravam o “descamisado”, saltou uma pequena cerca, foi até ao campo e agarrou uma pedra… depois olhou em volta – meio desorientado – e puxou rua acima – para lá da minha linha de visão – com mais três sujeitos.

Não sei o que me deu – sinceramente nunca fui de heroísmos – mas saltei e fui atrás.

Olhei pela rua acima e estava um grupo de 3 raparigas e dois rapazes lá ao fundo. Os sujeitos dirigiam-se a eles… eu atrás como uma criança perseguindo o flautista de Hamelin… tenho cada coisa…

Passou um carro da polícia – que ficou deveras entretido com o “desfraldado” (agora já estava assim), quem continuava a prometer hecatombes a tudo e a todos agarrado pelos dois amigos e com 20 pessoas a assistir.

Ninguém tentara ver o que faria o da pedra, ninguém se mexeu das bancadas…
Parece uma cena do “gladiator” – Russel Crowe gemendo: “are you entertained?”… só não havia espada para lançar ao público de forma a despejar os copos cheios e as bandejas do lugar de privilégio nas tribunas imaginárias…

Agora penso assim – na altura não pensava nada.

Ia (como a tal criança enfeitiçada), atrás da pedra e da camisa de manga curta na noite gelada.

Passei pelo carro da GNR enquanto subia – debrucei-me na janela “olhem que o problema vai ser ali em cima”… apontei… mas já começara a confusão…

Um dos GNR saiu do carro, sacou o cacete e correu comigo.
Um dos rapazes que ia com as miúdas estava com dois dos tipos que subiram.
O da T-shirt estava no campo – a dar murros, que eu sabia serem murros de pedra em mão.
O quarto dos perseguidores, olhava.
As miúdas berravam.
O polícia avançou para os três embrulhados no chão – eu saltei o muro e meti-me no campo.

Não pensava – fiquei grande parte da noite a meditar neste vazio.
Não havia banda sonora estridente, música a elevar-se gradualmente à medida que a acção atingia o seu auge… não pensava.
Sentia.
Sentia-me uma mãe (se é que poderei sentir-me assim alguma vez), sentia-me escudo, queria estender-me e amparar o que levava com a pedra e o que dava.



Medito sobre isto e sinto-me confuso.

Não queria agredir o agressor …

Não tinha pensamentos de maior – só queria proteger… os dois… estranho.

Proteger o agredido – que mal se defendia; não sei se nada fazia por estar alcoolizado; se – como vim a saber depois – era por ser estrangeiro ilegal e não querer problemas; se por estar com a cabeça aberta e a “sangrar pela pedra”.

Agarrei os dois… e era mãe de ambos…


Não queria que um agredisse a sua humanidade na pessoa de outro… isto pensei depois acerca do que sentira então… sinceramente – estava e estou ainda nublado pela situação.

Não veio ninguém.
Tentei não agarrar nenhum em particular para negar oportunidade ao outro de agredir o agarrado… distância – o da T-shirt e pedra reparou que havia polícia e afastou-se ligeiramente.
Agarrei o da cabeça a sangrar e levei-o para o seu grupo.

O polícia ainda esboçou um gesto para parar o da pedra – mas logo os amigos o rodearam, falando de forma vigorosa para o polícia, afastando o agente dali.

O tipo voltaria ao Pub depois – a resmungar qualquer coisa como “Todos me batem, eu não me meti com ninguém”… Tshirt (que tiraria a meio da rua) ensanguentada… mas voltou… voltam sempre, com uma razão para ser vítimas… e são… mas de outra maneira bem mais violenta e destrutora… são vítimas da sua predação na humanidade colectiva… vítimas todos… sem opções… de opções abortadas… abortos… humanos abortados… opções humanas sem nascer… não sei.


Um tipo urinava desde a rampa de subida para o pub, directamente para a rua por onde a gente da noite passava …

O guarda desapareceu (o outro descamisado e desfraldado ainda prometia que “partia aquela merda toda”, agarrado pelos eternos dois amigos e com a atenção de umas quantas garinas novas e moços sorridentes).

Eu voltei para o Pub.
O estrangeiro (soube então que era Brasileiro) foi para o Centro de Saúde para ser consultado… eu no meio do ambiente de barulho abafado, da música misturada no tabaco e nas vozes de mil conversas estranhas de um pub no Sábado à noite…

Fiquei a meditar no que sentira e no estranho da situação…

Não pensara em nada – branco – só fui.
Queria parar aquilo e fui…

Ninguém mais veio, ninguém mais quês saber… e o Brasileiro ilegal a levar com uma pedra na cabeça enquanto a namorada berrava e o polícia separava os outros três, um desfraldado prometia quebrar o mundo, gente ria, alguém mijava pra rua cheia inundando tudo de despropósito… e eu naufragava naquilo tudo…

Sai dali com um amigo – fomos para o pub número #2 do calvário de Sábado noite.

O polícia multava condutores que passavam… o de T-shirt branca passou por eles já de casaca da mesma cor a tapar o sangue alheio… ou seria o próprio, sem ele e mais ninguém saber?...

Eu meditava – dá-me isto amiúde.

O mundo passa a câmara lenta e eu vejo os pormenores… adoro pormenores…
Via os polícias nas multas, o da T-shir ensanguentada mas coberta de branco debaixo da casaca, o Brasileiro a caminho das urgências nos braços da namorada que antes berrava… e eu passava pelo meio…

No outro pub dancei um pouco – passeei as minhas penas abertas no meio da freguesia dos pavões e sentei novamente.


Copo ao lado, meditava no ambiente – sete ou oito gajos “velhadas”, pais de família já entrados em idade - estavam a um canto apreciando as miúdas já entradas em álcool… Contorcendo-se em gestos de cabaret para todos os que as apreciavam – eles sabiam que eram as filhas com outros rostos, elas que eram os pais com outra idade… todos entrelaçando-se naquela espiral estranha… eu e tudo… de novo o barulho surdo dos flashes, da música no tabaco, da bebida na mão, do amigo encostado à coluna a pensar nas suas pinturas que ele desenha a carvão…

Chegou alguém e – literalmente – abalroou o assento onde estava.
Contra a barra e meio acordado deste sonho de noite de verão, afastei o peso de cima de mim.

Lembro que não o fiz de forma violenta – hoje estava tudo menos violento depois de fazer a pesquisa para o texto anterior; toda a barbárie dos documentários, das testemunhas, dos textos descritivos, das fotos… tudo me roubara a vontade de estar violento… de o querer estar alguma vez…

Agarrei aquele peso, amparei-o na sua queda sobre mim, e repus o estado de verticalidade que perdera…

“A mim não me empurras – tas a ouvir?!”…

Disse-me uma cara a dois centímetros da minha com uma voz meio arrastada mas vigorosa… eu nem me apercebera do sentido agressivo – estava tão a leste disso – estava naquele barulho surdo, naquela festa de “sem sentidos”, naquela dança de juventudes entrelaçadas para os pais que olhavam ávidos de juventude perdida, naquele carnaval da alma…

Comecei a explicar que estava em cima de mim e que…

“POUMP”… soou baço, distante… suponho que, por estar habituado a pancadas nestes treze anos de Kung-Fú, nem me chateou muito.
Foi na orelha e na mandíbula – bem no ângulo – onde dói e onde é mais perigoso – como sabemos no combate.
Os K.O dão-se assim… apanhando este ponto…

Eu seguia (e ainda sigo neste estranho estado) e perguntei ao tal porque me tinha batido.

Ainda estou incrédulo – não por que me batera – compreendo que estava frustrado, bêbado, com toda aquela agressividade que se destila no ambiente da noite … que se transforma em desejo, em raiva, em fome e sede… essa ancestralidade induzida pelas luzes, pelo ritmo constante… pelas bebidas inibidoras da inibição, pela frustração diária - por tudo e por nada - contida nos hábitos sociais… isso eu compreendo…

Fiquei (e fico) incrédulo com a minha reacção.

Genuinamente eu queria compreender o porquê, queria mergulhar na razão…procurei-a no seu olhar.

Bem fundo – olhos nos olhos – sem medo, sem mãos levantadas que me defendessem do próximo golpe… procurei um porquê…


Via-me ao espelho e queria saber porque me batia, porque me agredia, porque me procurava destruir assim, porquê odiava a minha sombra, porque desejava estilhaçar a sua projecção no espelho humano… era dois… via ambos… e estava distante… procurando entender…

Alguém o agarrou por detrás… ele cara incrédula também… talvez por não receber retaliação… perdendo-se entre a tentação de destruir o que não se defende e abismado pelo que não contrarresta…

Estupidificados ambos… arrastaram-no para fora… o amigo veio ter comigo e desculpou-se… eu perguntei - “Porquê?”…

Ele não entendeu… começou a dizer “Opa, bebeu – sabes como é”… “Eu conheço-te, tenho-te visto, desculpa lá, ele não está bem”…

Eu perguntara porquê se desculpava… nada havia a desculpar…

A vítima éramos ambos…

Desfilaram pela minha consciência imagens dos documentais de guerra, das testemunhas do holocausto, do filme que vira nessa tarde “La vida secreta de las Palabras” – da produtora de almodôvar – uma obra de arte (novamente) que me tocou até ao mais profundo…


Um a um, colegas passavam… queriam saber que se passara… sempre fora o pacífico… nunca havia agredido ou sido agredido na minha vida… assim tão repentina… violenta… gratuitamente…

Chorei… sem vergonha… chorei…


Por ele, por mim… por tudo…

Sabem à quanto não chorava?
A sério que me tenho esforçado por isso… mas só chorava nos filmes da “Lassie” quando era “kinininho”… chorei…

À frente das raparigas, à frente dos mais velhos que as desejavam, à frente dos meus amigos, à frente da empregada do bar… não continha as lágrimas… chorei…

Disseram-me que ele chorava lá fora… eu chorava com ele… estranha sintonia…

Chorei por tudo… chorei por nada…



Quanto mais escrevia sobre a guerra e a sua loucura mais me enchi de dor, de piedade pela minha própria humanidade perdida… chorava por Kosovo, pelos Bósnios, pelos Muçulmanos, pelos Sérvios, pelos Alemães, pelos Judeus, pelos Americanos, pelos Palestinos, pelos terroristas e pelos aterorizados - sentia que uns já foram os outros antes e que os outros o seriam por sua vez depois… a não ser que todos chorássemos…

Chorei porque me agarrava à minha humanidade com tudo o que podia… porque ter parado aquela mão (técnicamente aquilo era um circular à cara – a coisa mais fácil de parar com bloqueio - se não for antecedido de algum golpe recto rápido e curto que desmanche uma guarda) seria ter cooperado na vertigem da canibalização própria pela destruição alheia…

Chorei… “caguei” para a minha pose de pavão, para as minhas roupas bem alinhadas e o meu ar seguro tão arduamente construído ao longo dos anos… chorei…

Tanto combate para aquilo? Pergunta uma parte de mim pragmática...

Sim… finalmente me senti – pela primeira vez – cinto negro…

Escolhi – reparem bem – escolhi levar, escolhi não reagir… agi, não reagi… naquele segundo escolhi olhar nos olhos em vez de fazer um bloqueio com murro simultâneo, um agarre rápido ao pescoço, uma luxação ao braço de ataque e uma imobilização no chão com a cara a lamber os vidros… isso era automático – nem precisava de pensar muito porque treinara tantas vezes que estava escrito em cada músculo… mas levei, levei, levei, levei… e olhei nos olhos enquanto o fazia…

Que vi? Perguntarás tu que lês…

Que vi nesses milisegundos nos que tudo era câmara lenta, nos que o mundo “freezed” e as bailarinas se contorciam num eterno esgar de prazer, olhos de luxúria as contemplando na sua inocência provocadora, na sua intenção velada manifesta, espirais do fumo se entrelaçando com a mão que avançava pelo rebordo da minha visão… vi cegueira

Vi que não me viam, porque quem eu via estava ali… era eu naqueles olhos vidrados… eu estava lá dentro… não ali – sentado – prestes a ser badalado com um sonoro “bang” de igreja adventista do juízo final… eu estava lá dentro… dele… vi-me a mim…

Se Siddharta viu o rio e as faces e o um.. eu vi a ele, a mim e tudo num só…

Vi antes, vi durante, vi depois… e - estranho – fiquei unido a aquele rapaz.

O meu pranto e o dele tornaram-se um.
Lavamos com as mesmas lágrimas salgadas do mar interior – desse mar “imanso”, profundo, sem fim – lavamos a dor da loucura desse momento, lavamos a dor das loucuras de outros momentos, lavamos a dor de outros eus por ai fora – antes, durante, depois… sempre

Um mar que desfaz a pedra das aparências, a pedra dos ódios pela nossa própria humanidade encarcerada em animal…

Agrediu o ódio pela sua prisão, pela limitação de sofrer as cadeias de estar assim – pequeno, impotente, frustrado…

Agrediu o desejo não concretizado, a incompreensão da rotina sem sentido, da injustiça diária, da falta de perspectivas para amanhã que não fossem as de ontem…

Chorou tudo – desde a criança que nasce e vai morrer, até ao “amo-te” que desejava mas nunca disse… chorou.. chorei…

Ainda dói… por isso escrevo – se não, esquecia… ou não?

O ter procurado entre tanto ódio, tantas aberrações, tanta crueldade… despertou isto… este algo que me agarrou as mãos atrás das costas, rasgou as minhas vestes e me atirou com peito aberto para os espinhos…

Uma rosa – que languidesce… uma rosa… de pétalas delicadas, de embriagante aroma… de espinhos profundos e feridas amargas… de dor e embelezamento… uma rosa…

A palavra Amar começa Amargura… mas tem o tal, o Mar… esse que vertemos os dois eus alheios, esse que derramamos para lavar tudo, para nos redimir… choremos… irmão… choremos…