Música

quinta-feira, novembro 25, 2010

CHECK



O Zé jogava as suas lindas peças… gostava dos engraçados peões, tão pikininos e tão alinhadinhos: passo a passo – como caracóis entre as casas negras e brancas, arrastando-se pelo tabuleiro, indefesos – meras formalidades para abrir caminho aos “canhões” que se mexiam com rapidez e “matavam” onde queriam e quando lhes apetecia…

Adorava a torre – era sólida e segura – e queria "tirá-la" logo que podia. Era “fixe” arrasar as casas em linha recta e entrar pelo meio dos peões do adversário sem pedir licença, nem haver agravo.

O cavalo era um espectáculo! Era giro, tinha estilo, saltava e era "muita nice": dar dois ou três pulos e furar no meio dos peões – saltava pelas defesas – e matava até a Dama, ainda antes d’ela sair…

Os bispos – não os curtia. No fundo – se tinha as torres – que eram tão potentes – p’ra que raio queria aqueles peões grandes, de “racha” na testa, que andavam sempre na mesma cor e só cruzavam o tabuleiro p’ra se exibir?

O que o Zé gostava mesmo era de "sacar" a Dama. Mal tirava a “altona” como lhe chamava – dava cabo de tudo o que mexia. Às vezes lá perdia a peça mas – pá – dava cá um show… e – até ganhava às vezes mesmo sem a “altona”…



O Rei – esse nunca entendeu para que servia… ficava ali – parado.

Só andava como um peão – passo a passo.

Passava o jogo “metido na gaveta”, não matava nada e ainda fugia como covarde ,cada vez que era atacado… peça tão “cricas” pensava – era a mais alta, andava de cruz às costas – e só fazia “merda”.



Um dia sentou-se um velho na mesa do parque onde o Zé dava “coça” nos pequenotes,. O Zé falava-lhes amiúde da regra da saída dupla de peão, mostrando como podia comer até duas peças na mesma jogada se eles se distraíssem…



O velhote viu, sentou, pediu para jogar… e disse que começava sem Dama, sem bispos, torres ou cavalos – apenas peões e o tal rei caquético que o Zé tanto detestava.



Lol! O velho era curtido. Quase não se mexia, as mãos tremiam, devia-lhe faltar a dentadura e parecia meio cegueta detrás dumas lentes que já deviam ter visto duas guerras mundiais…
Enfim – que se pode fazer – há que aceitar os trunfos que a vida coloca nas mãos ,sempre que estes aparecem!


O Zé viu os peões do adversário ficarem unidos em cadeia – não compreendeu.

Quando chegaram perto das suas linhas e o velho anunciou “en passant”, o Zé ficou a ver navios.

Quando as suas peças foram sendo tomadas com uma lógica inexorável, o tal Zé começou a suar.

Quando o peão entrou na linha de fundo e coroou para se transforma num cavalo, dar um cheque duplo e tomar a sua “grandona” ele não acreditava no que via.



Ficou - no final - um rei contra rei e peão… e ele tinha vantagem!

Agora nada podia correr mal.
O rapaz avançou com o peão à frente – protegendo o seu “rei caquético”.

O rei do adversário tinha batalhado todo o meio-fim da partida – tomando peça após peça de entre o seu mermado exército de peões. Agora barrava o avanço da sua peça ,com irritante celeridade.

Já estava mesmo a perder a paciência! 
Bolas… que raio – estava tão perto e não conseguia sacar outra vez a “grandona” para dar uma sova no raio do velho?



Perto da linha final – o velho meteu-se a um canto… era agora!

O raio do pedaço de madeira, com cruzinha às costas,  não tinha mais por onde se enfiar…

Avançou o seu peão atingindo a tão almejada penúltima linha – já estava tudo nas mãos!

Era TUDO dele! Tinha custado, mas – bolas – ia ganhar esta partida…




O velho não era o que parecia, tinha dado luta… A sorte tinha dado ao velho peças, tinha-o levado a tomar as peças mais importantes e tinha despido a defesa até deixar  o Zé com apenas um peão.

Neste processo, o Zé prendera o valor das “pequeninas”.

Aprendera a não confiar apenas na força das grandes, fortes e mais luzidias do tabuleiro… bem – agora já estava… sim senhor!

Como no "Karate Kid" – tinha aprendido a controlar o tabuleiro e as peças.

Tinha saído vencedor! E isso era o único que importava…

Este Zé crescera! Como era bom agora, como era sábio, brilhante e espectacular!


Ia retar o velho a uma nova partida – desta vez com todas as peças, claro!

E – porque era bom, justo, modesto e sensato – ia deixar o velho ganhar.

Para depois esclarecer os admiradores mais novos que o tinha feito por respeito ao coitado…

O velho olhou-o serenamente: como que penetrando lentamente – fibra a fibra – na vida velada do Zé.

Incutindo nas suas fábulas de Play-Station e Gormittys algo de conteúdo de vida – compreensão, paciência, fé e esperança.

 
Retirou uma folha de dentro do bolso - esburacado por qualquer parasita dos tecidos.

Colocou  o papel por debaixo do Rei. 

Levantou lentamente. 

Olhou com serenidade a plateia de crianças que se encontrava em derredor da mesa.

Pareceu ao Zé que fez algo parecido a um saúdo de reconhecimento: por detrás das lentes riscadas – mas aqueles olhos cansados podiam estar a dizer qualquer coisa – o Zé não conseguia perscrutar a verdadeira profundidade da pessoa que tinha em frente...

Lentamente, aquela personagem deslizava parque afora – com o seu andar zorumbático - retirando-se tão silenciosamente como tinha aparecido…

O Zé estava como que magnetizado por aquela saída – lenta – mas inesperada.

Nem um nome, nem uma palavra, nem um repto… nada – apenas o lugar onde estivera o tal velho - agora vazio. 

O rei a um canto e o papel por debaixo – meio enrugado…

O resto dos putos olhava, apardalado de igual maneira.

O Zé levantou-se.

Foi até ao outro lado da mesa; pegou no pedaço de madeira entre as mãos … como que sentindo ainda o calor de quem o sustivera - ao longo de uma partida que parecera eterna.


O papel levantou um pouco com a brisa… na sua brancura ondulada apareciam umas linhas , entre os vincos amarrotados. 

As linhas – numa caligrafia fina ainda que ondulada – como tremida – tinha escritas 7 letras…

“AFOGADO”…


O Zé fixava a letra do centro enquanto o seu olhar se perdia em todas e cada uma das jogadas que o velho desenvolvera ao longo do jogo…

Cada passo, cada aparente distracção, cada movimento vacilante, cada perda despreocupada, cada momento de impasse e cada olhar perdido no vazio tinham formado parte de uma partida cujo final estivera no bolso do velho desde o início… um empate calculado ao pormenor desde um princípio.

Zé ficou absorto, enquanto o resto da canalha pululava à volta do seu líder, procurando descobrir o motivo da anodia total na que ele se encontrava – sem compreender de forma alguma – o que é que a água poderia ter a ver com o Xadrez…

Bem haja…

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