Música

domingo, abril 15, 2007

Segundos de Vida


Tenho apenas uns segundos de vida… que fazer?

Cheirar o ar da noite e sentir esta serena humidade envolta num silêncio de paz…

Passear com pés descalços pela beira-rio, sentindo a areia e os pés e como ambos fazem música na caixinha mágica que me puseram sobre os ombros…

Enveredar por entre a multidão de uma noite de festa, sorrir com o cheiro de algodão doce, apaixonar-me por todas as garotas que passam, achar piada ao mar de cabeças saltitando ao som de uma orquestra local, rir com as peripécias de um gajo desajeitado ao volante de um carting…

Ouvir as duas últimas músicas da “Irmandade do Anel” - revendo a morte de Boromir, enquanto uma mãe cuida e mima uma bebé linda bem na mesa em frente num restaurante onde vou comendo descansado o bife que rompe com as minhas dietas sem carne…

Jogar uma partida de xadrez taco a taco, pedir que o meu parceiro não faça o movimento que lhe expõe a Dama, sorrir de mansinho enquanto o Porto vai ganhando o jogo e o resto do pub se divide entre dois tarados à frente de um tabuleiro e mais um golo do clube do dragão, ganhar a partida e dar um “hifive” que sabe a vitória conjunta depois de levar ambos os relógios até aos trinta segundos do fim…

Depois vir, sentar, ver a praça solitária lá fora baixo as luzes da madrugada e ir escrevendo para que possas ler e ver o quanto se pode fazer com apenas uns segundos de vida.

São sempre os últimos.

É bom quando sei que é assim.

Boas noites…

quinta-feira, abril 12, 2007

O Tempo


A quem pertence o tempo que utilizo na minha vivência diária?
De que forma oriento as minhas opções na utilização desse tempo?
Será possível “roubar” o tempo das pessoas mudando para isso o contexto das opções diárias?

Se fizer as contas do tempo que consumo a trabalhar (ou a ser “produtivo” – entendendo por isto as actividades utilizadas para corresponder às normativas sociais preestabelecidas; ex: cuidar da imagem); somar esse tempo aos períodos de sono/ repouso (cada vez mais curtos devido à expansão das horas de “ócio” pela noite dentro) e o subtrair ao tempo no que – efectivamente – decido investir em coisas que REALMENTE opto por fazer (e que não parte do “pack” de actividades obrigatórias/ condicionadas) certifico-me efectivamente do meu “saldo negativo” em termos de tempo.

A conclusão seria que fico a “dever” tempo – a algo ou alguém.

Poderá parecer uma conclusão fora de contexto e completamente fora de propósito mas, num meio cultural e social no qual a frase “não tenho tempo para…” - geralmente acompanhada de “gostava de… mas” - aparecer como uma das frases ouvidas com mais frequência (como razão ou desculpa perante o próprio e os outros), talvez seja momento para “arranjar tempo” e reflectir.

À conclusão acima referida associam-se todos os efeitos secundários do “distress”.

O di-stress é uma forma de paranóia existencial moderna, uma doença que se vai instalando e se faz crónica.
Sendo o primo mau do “eustress” - que é uma reacção fisiológica normal perante qualquer mecanismo agressor - esta “mancha de crude” no mar da vida tem vindo a alastrar, colocando em risco a fauna e flora locais (como os momentos de verdadeiro relaxamento – a tal ponto que se necessita actualmente de “aprender” a relaxar com técnicas de cariz mais ou menos oriental, toma de ansiolíticos para combater os efeitos da “maré negra”, pagar a psicólogos ou psicoterapeutas para que nos “re-eduquem” na arte de voltar a ser criança).

A invasão deste negrume tem sido tal, que em muitos arquipélagos deste continente cultural até já se acha que é este o estado natural das águas da vida, pelo que já nem se nota muito o contraste das reacções tomadas baixo o efeito do di-stresse versus as acções escolhidas baixo uma perspectiva relaxada e amena sobre a vida e o próprio.
Aqueles que não estão constantemente a correr para cá e para lá são referidos como “preguiçosos”. Os que dão prioridade à sua própria vida sobre a da empresa/ negócio são traidores, pilantras sem compromissos e os povos que não estão ainda totalmente infectados por esta maré negra são preguiçosos, indolentes, pilantras sem compromissos e safados por natureza…

Propõe-se a leitura urgente de um livrinho de Michael Ende, titulado “Momo”.
Para mais informações, contactar o Sr. Minutus Secundus Hora – que mora algures no coração de cada ser humano.

Um bom dia para vocês…

sábado, abril 07, 2007

No Calmo do Luar


Hora de ninguém e como ninguém escrevo acerca desse límpido vazio preenchendo ruas enquanto luz de luar passeia paz por entre espaços deixados nos ecos humanos que esmorecendo se esvaem…

A memória das ondas prateadas sobre a Dama do Rio vai trazendo ao de cima paz anterga desde as profundezas da evocação do lar longínquo que se fez marca indelével por entre portais de alma…

Brisa subtil envolve braços em sereno abraço o mundo cobra vida o lugar deixando de ser fachada para ser coisa de sombras se movendo ao som das cítaras de outras eras passos se fazendo dança guiada nas mãos invisíveis afagando o ser dorido canções de calma segredadas através das feridas abertas pelo ruído da vida diária entre Homens sob a luz de um sol impondo formas a um sonho colorido…

quinta-feira, abril 05, 2007

A Ditadura das Aparências - I


Quando é dor que sinto ninguém quer ouvir, partilhar, sentir… por isso aprende-se a mentir de boca cheia apresentando uma maquilhagem cuidada para ocultar a face triste de viver de fachada…

“Inside my heart is breaking, my makeup maybe flaking but my smile still stays on”…

O mais lógico é que te enviem ao Professional e que te digam para ser Profissional… como se pudesse comprar ou vender a minha humanidade e compactar a sensibilidade desta esquizofrenia diária numa caixinha de botões…

Diariamente um par de dezenas de pessoas vêm passear os seus despojos para o local centralizado onde os detritos são armazenados ou tratados. Compactados no mesmo espaço físico e confinados aos mesmos horários de atendimento, os bultos outrora humanos deslizam em silêncio imposto pelos corredores agrestes, enquanto os funcionários deverão mostrar as suas faces pétreas ou as suas técnicas de tratamento aprimorado que emulam a realidade humana outrora existente na fauna terrestre…

Como um bom cão amestrado, sinto a dor e fico no meu lugar… vaga após vaga de solidão, abandono, frustração, apatia, desespero, raiva, revolta… como um rochedo sólido, o profissional serve de consolo vendendo a imagem do ser inamovível que inventa os ícones sociais do sucesso, estabilidade, felicidade, conforto, estatuto; aumentando por sua vez a frustração, dor, raiva e afins dos do outro lado da bata por serem eles os únicos a sentirem que a sua vida está em frangalhos…

Aparências que conservamos para bem do sistema, dos outros, da sociedade, da empresa, da família, do vizinho… de algo ou alguém indeterminado… em qualquer lado… mas continuamos a representar…

É suposto que se conserve a fé num sistema que aumenta diariamente o seu número de utentes, de técnicas, intervenções, medicações quando era suposto ser ao contrário se realmente funcionasse como sector de Promoção de Saúde?...
Promoveremos por acaso a Doença e da Doença até já teremos começado a fazer negócio?...

Não creio que enfiar os doentes a molho num mesmo local e numa mesma “cadeia de montagem” seja “saudável”.
Não creio que ser profissional seja sequer humano e que ser humano tenha alguma coisa a ver com profissionalismo… se não tivéssemos idiossincrasias seríamos cibernéticos e – por enquanto – ainda não estou transformado de todo numa lata executora de leis externas…