Música

sábado, abril 29, 2006

Cacabelos

Passou León... passou Astorga... passou a Cruz de Ferro, o Tomás Templário...

Passaram as florestas e as montanhas e estou no Bierzo... o Berço...

Caminho com um Anjo - e luto o meu trilho de vida em cada passo - o gume da sua espada é afiado e nao permite nenhuma menira - tenho de ser fiel e verdadeiro...

Agora tenho o Cebreiro em frente - um milagre de humildade que fala de um Pastor e de uma manha de neve nas montanhas...
Era Domingo - o Padre preparava-se para benzer o pao, quando a porta da pequena igreja se abriu de par em par - o vento e o frio invadiram o pequeno recinto. O pastor entrou de mansinho - com reverência - e o padre perguntou espantado: "Que fazes num dia como estes por aqui?"
O bom pastor la foi dizendo "Vim receber o Senhor". O padre pergunta atónito "E arriscas a vida na montanha por um pedaço de pao?!?!"... Nesse momento a óstia sangra... a mesma que agora se encontra encerrada em ouro num altar simples...

Caminho para um sonho, caminho para a verdade - espero que vocês também caminhem comigo.

Montanhas onde a voz de Deus ecoa tao alto que vibra e zune nos ouvidos... tanto que é impossivel nao a sentir de dentro para fora - rebentando todo o gêlo que aprisionava a Primavera da Alma.

Bem haja a quem caminha - que a vida se faça caminho.

Até Breve

quarta-feira, abril 12, 2006

Grañon

"Deus está aqui
tao certo como o ar que respiro
tao certo como a manha que se levanta
tao certo como este canto que podes ouvir..."

Foi esta a música que ouvi na minha mente ao chegar à casa de Deus...

Lembro a primeira vez que entrei neste refúgio - numa vilazinha pacata, após uma cidade de santo e tudo... havia um cartaz que rezava:

"Deixa o que puderes
ou
toma o que precisares"

Estava na parte de dentro de um pequeno cofre de madeira... era o dinheiro da doaçao que - quem quisesse - deixava naquele lugar...

A porta estava aberta - nao estava lá o hospitaleiro voluntário, que tinha ido comprar as coisas para esse dia.
O dinheiro estava exposto, na porta de baixo - depois de subir as escadas da igreja - apenas um papel: "Peregrino - esta é a tua casa... entra e fica à vontade"... escrito em vários idiomas...

Ao cimo das escadas estendia-se um salao.
Madeira, cadeiras, mobilias simples, uma lareira... silêncio, paz, familiaridade...

No mesmo chao de madeira estendiam-se umas esteiras - cama amiga de peregrino cansado.
Alguém fizera toda aquela hospitalidade com suas proprias maos... e ajuda de gente amiga.

José Ignácio - é o nome do amigo de Deus que construiu a casa.
Cozinhamos em conjunto, comemos com os hospitaleiros, fomos recolher batatas para o Inverno naquele dia de Setembro...

Naquele 2001, rezamos Sao Francisco - com todas aquelas coisas simples... que unem... como "Religio" em latim... "religar".
Onde haja guera, que eu seja paz, onde haja sofrimento, que eu seja conforto...

A missa terminara há muito, a igreja estava fechada... mas nós estavamos lá... com uma pequena chama de esperança nas maos, irmaos no sentir... gémeos ao caminhar...

Silêncio, a chama de uma vela, a luz do sentir-se em casa... em Deus... "Entheous"... entusiasmo plácido e paz...

A Kika e o Jose Luis eram quem nos servia desta vez, quem nos deliciava com a simplicidade de se entregar... suponho que isto significava realmente o de "conservar a vida e perdê-la... entregar e encontra-la" na escritura...

Gentes...
Um jovem lemao - de 20 anos - que decidiu terminar isso das "carreiras" e corridas lançando-se em voluntariado social... mandaram-no para Inglaterra - cuidar um Homem tetraplégico de 55 anos... de quem ele agora é o "Pai"... e ele foi... e segue... caminhando em busca de si mesmo...

Hoje o dia terminará em Tosantos... outro lugar da rede do Ignácio.
Ele nao está por cá - agora está numa Cidade: Logroño.
Mesmo com a massificaçao do caminho - graças às guias e afins que promovem em Grañon, Tosantos, Bercianos del Real Camino, pontos exóticos onde o peregrino moderno pode degostar algo do espírito medieval da epopeia interior no caminhar a Santiago... eles mantêm a chama viva...
Eu disse o nome dos mais de 50 peregrinos que passaram no dia anterior pelo refúgio... hoje alguém dirá o meu - na oraçao comunitária antes da ceia... e todo esse "bem haja" estará sobre mim, em mim, comigo...

Acácio - simplesmente, nao sei como me leste, como sabias que eu caminhava, como me disseste que me conheces...

Em Viloria, ocupas um espaço que tras paz e bem estar.
Trazes esse algo de espiritual, mágico e simples que caracteriza o teu povo Brasil...
Obrigado pelo olhar, pelo cumprimento sincero e pela paz do teu espaço... bem haja a ti e ao teu "caminho"...

Bem haja a todos...

Agora é sair de Belorado e caminhar até Tosantos...

A semana santa esta a chegar e - com ela - o peregrino fica com alguma dificuldade nas compras diárias...

Mas estamos sempre com algo do nosso lado...

Santiago sori no pórtico da Glória... e nós vamos descobrir porquê...

segunda-feira, abril 10, 2006

Azofra

Estou num albergue de luxo... nem sempre o peregrino anda com a penitência em cima.
Ainda que temos a semana santa à porta - hoje entrei num albergue recém inaugurado, entre terras de nenhures e - voilá!

O vento de Oeste marcou grande parte da jornada - frio e cortante.
A chuva fez-se notar e - o barro do caminho - tornou os pés como chumbo.
No fim - lá usei o material de chuva - mais como protecçao contra o frio do que própriamente contra a chuva.

De certo que - uma das liçoes do caminho - é a da Humildade.
Lembro no meu primeiro caminho Francês - lá pelo 2001 - a entrada em Lugo e uma tempestade que nos apanhou em plena floresta. Os galhos caiam sobre nós, o vento impedia avançar, a chuva era tanta e tao densa que nao se via mais além de um par de metros, o frio era cortante...
Só podia esconder-me detras de uma árvore e sentir-me pequenino...

Os campos da Rioja iniciam-se com milhentos tocos de vinha que - depois - darao origem ao famoso vinho Rioja.
Por enquanto sao apenas pequenas protuberâncias no chao, orientadas em mil direccoes diferentes.

Até Nájera, o dia foi cinza puro, glacial... foi de introspecçao, de olhar para dentro, de baixar a cabeça e estar no "aqui e agora", mais do que vagar nos sonhos levado pelas asas da paisagem anterga.

Nájera - Vila de grandes dimensoes e entrada gentil, através de ruas com alguns edifícios antigos - foi o palco da minha grande surpresa no 2001.
No dia 11 de Setembro - entrava eu pela primeira vez num café para comprar um geladinho, depois de alguns dias de ascetismo peregrino - quando a televisao (e a consequente explicaçao, entre o parcimonioso e o indiferente, do dono do bar) me introduziu num novo mundo de medo global e coisas afins... caía uma das torres mesmo ao entrar no café... impossibilidades horas antes eram possibilidades macabras naquele momento.

A saída de Nájera trouxe algo de sol.
Com ele - as montanhas coroadas de neve que rodeiam o meu horizonte revelaram parte da beleza de colinas ondulantes, mar de erva agitado por vento frio, terra e pedra vermelhos em redor...

Cheguei à pequena povoaçao que outrora tivera um refugiozinho minúsculo, com uma pedra da catedral de Colónia, trazida pelos Alemaes que tinham aberto o Albergue... mas - agora - este albergue Municipal, oferece Internet, Bebidas quentes e frias, quartos de duas camas, duches e toilettes impecáveis... enfim - a ver o que se passa na meseta...

Amanha é dia de passar onde o galo canta, depois de assado, por Milagre de Sao Domingo de la Calzada... a igreja tem um par de galináceos vivos em sua recordaçao... imagine-se!

domingo, abril 09, 2006

Navarrete

Ontem nao houve net - pelo que hoje saem mais dois "capítulos" do caminho.

Já tou lavadinho, já lavei a minha roupita (uma rotina do caminho que eu gosto de practicar todos os dias - que reforça algo a disciplina que me falta na vida diária) e agora venho sarapintar um pouco antes de voltar para os "tolinhos" que me acompanham e que eu acompanho.

Atravessamos Logroño - tal como Pamplona, é uma cidade doce, que se faz mansa para os pés peregrinos em demanda meio errante. Entra-se suavemente por sobre uma ponte antiga e logo se caminha entre casas medievais e igrejas de ordem vária.

Atrás fica um dia cinzento e algo frio - que terminou com Sol e muito calor.
Atrás ficou a casa da Doña Felisa - que estava todos os dias na sua pequena banca - oferecendo figos (na época) e bebidas, conversa e boa onda... ela já tinha morrido na ultima vez que passei cá (no 2003), mas eu conhecera-a nos dois anos anteriores.
A sua filha ocupou o lugar e - depois dela - está lá agora a neta... há loucos pelo caminho, há loucos no caminho, há loucos em todo o lado - que ainda dao coisas em troca de sorrisos, uma conversa, um algo de novo vindo de algures bem longe... como aqui.

Atrás ficou também o lugar do Marcelino - este ser simpático aparece em todos os cafés do caminho; emarcado numa foto - com a sua mula e o seu traje do caminho tradicional (sandálias de couro, boné de feltro e hábito castanho de lä pesada, bastao em mao) este sujeito trilhou o caminho tantas vezes que - depois de parar - lá se estica ao final de um parque, com a sua barba de "Gandalf" e bolachas, frutas, um livro para que escrevamos uma dedicatória ou façamos um desenho... tem imensas histórias para contar e muita vontade de meter conversa com todos...

Este ano o Marcelino nao estava lá - talvez so apareça no Verao... mas eu revivi a sua presença ao passar no seu banco ao final do jardim... tantos outros vieram a mim, tantos...

Encontrei uma colega Enfermeira - de cuidados de saúde comunitários - de Chicago.
Está para largar a profissao - dado que lhe acabaram com o serviço publico de assistência (ou seja - o dos probres - os que nao teem seguro de saúde) e anda por cá a ver que vai fazer da vida.
Falamos de Deus nas guerras quando passamos pela estátua do Santiago "Matamoros", numa Igreja de Logroño - chegamos à conclusao que, afinal, é um ideal comum o que se encontra na nota de dolar "In God We Trust", mais do que algum deus Bíblico ou Alcorânico.

Falamos da guerra actual - da sociedade movida por medo versus a movida pela esperança... das crianças que ontem corriam alegres à frente das vaquilhas em Viana e das outras que nao saem à rua com medo de serem raptadas, violadas, abusadas... dos pais de umas que as metiam a frente dos touros e sorriam e das outras que as tiravam da rua com medo de que fossem maltratadas... ambos as amam - mas vivem em dimensoes diferentes deste mesmo planeta nosso...

Agora um pouco de "arejar" aqui nesta vilazinha pacata com pouco mais do que um belo jardim no topo, uma igreja e um cafezinho para a refeiçao comum...

Bem haja

Viana

O dia foi meigo, o Sol manteve-se tímido e as nuvens cobriram o nosso avanço, até que nos encontravamos practicamente sobre as ruas de tijolo e pedra de Viana.

Nao - nao é a Viana do Castelo do nosso Minho - é a Viana de Navarra, que fica nos limites entre esta província e a Rioja (que começaria no dia seguinte - junto a Logroño).

Vilas pequenas, de gentes receptivas... ruas e casas de pedra, igrejas de arquitectura cuidada (e até octogonal - como Torres del Rio, com gentes "Templárias" guardando o seu lugar). Campos verdejantes, colinas ondulando no horizonte e as primeiras vinhas a rás do chao - que acompanharao o nosso caminho na Rioja.

O dia foi caminhar com uma Australiana - mamä de familia - que deixou as duas filhotas e o margarido para vir ate aqui, procurar algo de "stamina" para continuar o seu "mothering".
Está a tentar uma educaçao das sua filhas (de oito e sete anitos) seguindo o modelo de Rudolph Steiner - nada de filmes e tretas avançadas, muitos clássicos, muita arte e muito serem crianças (mais do que transformá-las em pequenas máquinas "mini-adultas", extra eficazes antes dos 6 anos, com equivalência a bacharelato aos dez, etc, etc...).

Todo um prazer caminhar com ela - depois de um accidente que a desfigurou e lhe deixou ambas as pernas como um monte de ossos esmigalhados, ela treinou e fez fisioterapia e tal... para vir até ca... e veio... enfim - o caminho tem gente estranha mesmo...

O caminho sao as pesoas - elas trazem a arte, a cultura, a magia... e fazem-me crer para além do aparente, e revelam a força que se esconde detras da fraqueza - tanto como o sentido entrelaçado entre a sua falta aparente...

Bem haja

sexta-feira, abril 07, 2006

Los Arcos

Ontem nao tive tempo de escrever sobre o trecho ate Estella... assim, ficam estes dois trechos referidos aqui hoje.

O dia foi de Nuvens gentis, Sol de timidez e pequenas Vilas com Igrejas antergas e gentes amáveis...
Dia de hospitaleiros voluntários que veem do mundo inteiro para se entregarem à paixao que o caminho suscita...

Passamos logo no início na Fonte de Irache - que brota Vinho e Água... nada Bíblico - um milagre das adegas cooperativas da zona e que faz a delicia dos peregrinos... imaginem que até têm "cam" para a net de forma a que vejam quem anda por la nas bebidelas...

Os vales pouco profundos e veredas verdejantes foram companhias constantes...

Um amigo espanhol andou como Lázaro ressuscitado, depois de estar com os joelhos completamente desfeitos... falamos de tudo um pouco - dos amores deixados atrás, das opçoes de vida quadradas e - no final - de história paralela e mística... todos os caminhos vao lá parar na magica rota de Sao Tiago.

Um lugar verdejante, muitas Margaridas, uma pedra fria que faz bem aos pés depois de caminhar.
Estamos um Alemao, uma Australiana, uma Norte Americana e um Irlandes (e eu) sentados a falar de tudo um pouco e de nada em concreto, enquanto descansamos do algum cansaço que do caminho se traz... chega um rebanho de ovelhas com pastor e tudo... o nome nao será Santiago, mas - e dai...
O caozinho do pastor achega-se aos meus sapatos e - pimba! - la ficam as minhas meias - que douravam ao sol - com marca de posse territorial... bem haja os caezinhos mijadeiros e tudo o que de bizarro se passa por aqui...

Agora estamos perto da missa - numa igreja que mais parece catedral e com senhora negra no altar...
Mistérios da Divina comedia olham desde o cimo do claustro...

Bem haja - e até amanha...

Estella

Com um vento frio - que trespassava nao apenas a roupa - iniciei o caminho do dia... fraco e pesaroso.
Tive de lutar contra fantasmas interiores, vencer um cansaço estranho que me separava do resto dos peregrinos...

Fui andando entre elevaçoes enlameadas e calçadas romanas antergas - vestigios da via Romana que levava a Astorga - actualmente derruidas pelo passar inxoravel do tempo.

O dia terminou bem - com uma chegada a Estella (antiga capital do Reino Navarro) e umas mensagens crípticas sobre pórticos da entrada Norte da Igreja de S. Miguel... aqui os "Chi-Rho" (os P-X) das entradas dos templos do antigo Reino Navarro, estao todas trocadas intencionalmente... é interessante ir notando as "traquinices" dos mestres pedreiros sobre os símbolos antergos que a Igreja Universal (Catholicos) foi integrando no seu repertório sagrado.

Depois foi um fim de tarde numa praça cheia de crianças (pareciam crescer debaixo das pedras - como se Jesus falasse de novo aos Saduceus - dizendo que faria crescer Abrahams de entre as pedras se quisesse), degostando uma bebida agradável com o amigo Irlandês.
Depois um jantar com uma mística espanhola, que ficou curiosa com a história do Joshua histórico e do Mithras-Átis-Bacus-Dionisus-Osíris-Iesous... conversa interessante.

Um adeus final a uma amiga Alema - que volta para casa - e uma sorninha boa para o dia seguinte (com tampoes nas orelhas anti ressonadores, como nao podia deixar de ser).

quarta-feira, abril 05, 2006

Puente de la Reina

Verde, verde almofadado, verde vivo... primavera em pleno... este foi o dia.
Com o Sol transformando em dourado o verde dos campos da Navarra, andei num dia lindo para se caminhar por entre sonhos e afins.

O Alto del Perdón - uma elevaçao que traz dificuldades quando há mau tempo (pelo vento que acostuma a varrer a subida para o topo assim como a descida abrupta) foi suave e gentil; reencontrei parte do "eu" perdido ao descer a sua encosta pronunciada e - apartir dai - andei assobiando e cantando como ave rara... talvez o nome do sitio "Perdao", nao seja por acaso.

Um pequeno desvio - e caminhei durante um par de quilómetros pelas veredas que acompanham o caminho que entra em Espanha por Aragao.
Esta desviaçao levava a Eunate, uma ermida de planta octogonal, perdida no meio de nenhures mas com uma magia que se sente no ar - entrando pelos pés descalços de quem humildemente se prostra para um "olá" intimista à senhora com os ramos de sementeira na mao e a criança no colo...

Puente de la Reina e a primeira chuvada.
Gentes de várias proveniencias... espero a chegada do Michael - um inglês com uma neo na cabeça.
Ele é terminal para os médicos, mas vital para nós... bem haja pela força e esperança que move os seres humanos.

Agora sornar um pouco - e esperar que o Benfica ganhe (tenho um amigo caminhante, germano e habitante de Barcelona, que é sócio dos Blau-Granas... a ver).

Até amanha - se houver algo ainda por aprender...

terça-feira, abril 04, 2006

Cizur Menor

Desde a encosta da Igreja de S.Miguel, antiguinha nos seus 900 anos, contemplo Pamplona... cidade boa para o peregrino - que nao agride em demasia com modernidade, predios e carros.

O dia de caminho foi agradavel - os pés nao incomodaram.
Por entre pequenas aldeias e caminhos de terra rodeado por flores Brancas e casas de pedra imensas - tipicas de Navarra, seguimos prazenteiramente até às muralhas e catedral de Pamplona.

As casas pintadas de cores mil, a tradiçao medieval na arquitectura e o eco dos Touros de S. Fermim nas ruas empedradas, vao dizendo ola ao Peregrino por entre o Sol Primaveril.
Entre as gentes que passam, uma mulher dá braçadas de violino e eu sento-me a ouvir a Primavera de Vivaldi enquanto a minha imaginaçao se perde nas cores da rua.

Beleza que se dá de graça - o Universo abençoe o artista que toca a humanidade desde dentro e nos ressuscita - como se de primavera humana se tratasse - de entre a miséria repetida do dia a dia.
Lembrei que era livre ao falar com uma senhora duma loja e ela a dizer o quanto gostava de vir nestas andanças... se nao estivesse tao presa ao trabalho... pois...

No refugio uma senhora peculiar cuida um pe com bolha - recuperada parte da magia aconchegadora do caminho - que é sempre a magia das gentes que se dao - nem noto em falta a Ordem de S. Joao de Acre (ordem de Malta), com um refugio que so vai abrir em Junho.

Amanha é o "alto del Perdón" - e, realmente, pena-se um pouco para subir (muito mais para descer) uma encosta que guarda Punte La Reina.
Com ela virao os amigos peregrinos da rota Aragonesa... e seremos mais, e teremos mais mundos para partilhar.

Até logo...

segunda-feira, abril 03, 2006

Larrasoaña

E... sim... havia... net... bolas!

Dia entre rebentos brancos, florestas de Carvalhos precoces...

Dor de pés que me fez sentir a expiaçao dos tais pecados a vir lentamente ao de cima... seja pelo santinho - va-se la saber porquê, se há de carregar dôr às costas com a dôr que já temos no mundo... enfim.

Cheguei - os refugios vao sendo tomados pelo homocherifado e pela nota... nao tarda, apenas os de paises mais ricos vao poder andar por aqui.
Os velhos - que se vocacionavam ao caminho - foram "gentilmente" afastados para dar lugar a pessoal de oficina e recibos de pagamento por lugares de dormida...

Surpresa - um Norte Americano, um Neozelandês, uma Inglesa - a dar música no bar onde uma troupe internacional descansava depois de um dia de saltinhos no monte. O "concerto" vai andar pelas cidades de Espanha e nós fomos os primeiros a ouvi-lo no caminho, aqui em "nenhurelândia". A causa é da amnistia internacional em prol de Colombia.

Ficou um gostinho bom para um dia entre o doce, o amargo e o acre.

A conclusao?

Que - talvez - nao seja o caminho que esteja a mudar, mas eu que ja nao tenho lugar no caminho.
Se todos parecem contentes - quer dizer que é altura de começar a pensar na trouxa e apanhar o bando de gaivotas que mais cedo passe pelo pedregulho estelar.

Nao sei.

Agora vou la pro quarto (que tem luzinhas apagadas e ressonadelas muitas), fazer algo de Reiki e nanar.

Amanha - Pamplona ou Cizur Menor (que tem posto da Ordem de S. Joao de Acre, Vulgo, Ordem de Malta).

Ate logo - e Bem Haja!

domingo, abril 02, 2006

Roncesvalles (Orriaga)

Ficaram atrás as montanhas pirenaicas... os vales, as brumas da manha, a neve, as florestas navarras da encosta Espanhola - pintadas de purpura e rosa, iluminando-se como prata viva com os raios de Sol que se esgueiram por entre as abertas nas nuvens.

Os Franceses sao estranhos... algo virados para dentro nisto das aventuras em galope por entre montes de gente de lugares distantes...

Caminhei com o Prandy (nao sei o nome real dele - é irlandês e o nome também, por isso, lá fica para algum Gaélico depois me esclarecer). Um senhor de idade, extremamente simpático a quem fiz de anjo da guarda e tal...

Aqui em Roncesvalles agora têm internet... e custa 8 Euros comer, mais 8 Euros dormir, e as luzes da "Colegiata" é mais 1 Euro pa acender.
Afinal a Crise nao é so pa nós malta - e a Santa Sé parece estar a espremer os ultimos trocos desta coisa dos peregrinos.

Cero que é o governo de Navarra que lhes aluga o antigo mosteiro, mas - 240.000 euros em média, por ano, só aqui em Roncesvalhes - à custa de mulas de carga (certo que ha de tudo entre peregrinos... mas)... rende... e bem.

Terminou a missa de peregrinos agora (catolicos e nem tanto juntamo-nos para uns canticos em latim... uma encenaçao de "la féria" para "inglês ver" - mas assim poupa-se 1 Euro porque as luzes ficam acesas durante a missa).

Algo revoltadinho com esta "comercializaçao" de coisas nao comercializáveis (O senhor Fraga pretendia duplicar a frequência dos Jacobeus - que acontecem quando o dia 25 de Julho, dia do Apostolo, calha num Domingo... já entenderam os cifroes por detras de tal vontadinha do senhor).

Bem - agora é conhecer mais gente, comer quelquer coisinha e preparar-se para a sessao de ressonadelas nocturnas. Amanha, pelas 4-5 da matina, uma centena de tolinhos lança-se na corrida com medo de nao ter lugar nos locais mais pequenos ao longo da rota (eu devo ficar em Zubiri - como exista internet la... eu violo um poste!).

Um abraço (menos peregrino hoje), e até breve.

Bem Haja!

sábado, abril 01, 2006

St. Jean Pied de Port

Sem imagens (nunca senti que o tempo passado nas fotos compensara o tempo perdido no sentir), depois de um dia de comboios e algumas tribulacoes... ola desde uma das vilas mais belas do pirineu basco-frances.

Parece sina escrever desde teclados estrangeiros, mas sinto de novo sangue nas veias ao estar em movimento, ao falar em outras linguas (a ver se o meu "francais" ganha algum esmero desta vez), ao sentir de novo que sou livre e humano... coisas que - na ditadura da rotina diaria - resultam tao complexas...

Tenho pouquinho tempo (os amigos do caminho emprestaram o seu acesso para que me entretenha a dar-vos noticias), por isso nao vos vou poder falar da noite com o amigo Lain em Espanha (que quase me abafa com a sua tosse e a sessao de psicoterapia a dois, sobre vidas inadaptadas, e que durou all night long), nem da jovem russa que fez os meus deleites entre Leon e o Pais Basco, ou da rapariga Francesa que me ofereceu chicletes e que era filologa, acabando por chorar ao lhe falar de Timor e da nossa ditadura sobre os povos livres... ficarao estas historias de viagem no tinteiro dos contos nunca terminados... mas ficam na alma deste que escreve.

Assim - um caminho que vai passando (e que nos faz ao passar por nos) - fica este vida de palavras em espacos virtuais.

Bem Haja... e ate o nosso proximo encontro.