Música

sexta-feira, julho 19, 2013

TRIGO


- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. 

Eis o meu segredo. 
É muito simples: só se vê bem com o coração. 

O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. 





Era Junho… ano de 1997… andava uma criança grande por terras de Cerveira, aprendendo com as suas grandes gentes… a conduzir, a falar, a ser…

Era andar na quatro “L” do serviço… e aprender a meter mudanças a enguiço… era O Sr. António da secretaria a dar piadas todo o dia…

e a Fátima… colega amiga… afável… que falava e fazia e ninguém via… era a Sousa Reis de humor singular… era a Hermínia que conduzia o carro e dizia para tirar os ovos dos braços ao fazer marcha atrás… era a Sofia que tudo fazia… e era eu que lá andava a empatar…



depois  era o Pinto da secretaria, o Esteves Marques que era árbitro que deixava jogar … era o Manuel, a Lídia, a Branca, o “Toninho”… tanta gente que passou e alguns que optaram por ficar… era a Constança na telefonia… e os médicos que se mantêm no lugar… Fossem eles “O Acácio”… o Dr. Luís”, a Dr. Glória”, O “Teixeira”, a mãe Fátima… tempos estranhos com números bizarros que hoje custa a lembrar…

Era a Maria José, a Fernanda, a Rosa… o das “áuguas”… tempos e gentes que passaram devagar… como se esvai no tempo quem lá estava para cuidar… como se faz transparente quem antes era presente e digno de se saudar…

Eram as quinze estrelas desta terra – todas elas e cada uma tão belas…

Desde os parques de Moutorros, à santa Luzia e a sua Zona industrial… fosse ou não a Valinha o lugar de Nascimento da terra antiga… Santo Amaro nem tinha Lar… de Cuba pouco se falava… uma terra sem igual… ninguém entendia – que havia – ao lado do “planetário” onde – a diário – havia pessoal a labutar… Ilhas e estalagens… havia lugares… onde as juntas tinham médico para ajudar… entre boegas, mangoeiros e calvários, boémias a tempo inteiro perdendo o visitante e o seu olhar até confundir o nome primeiro com “em” onde se imaginava estar… havia terras onde as gentes estavam em cooperativa… volantes e coisas garridas – fosse a capela São Julião ou Pantaleão - nomes mil para a candura que se mostra assim… havia lugares como as fronteiras que se esvaem entre coura e as terras Valencianas e outros que se escondiam para quem lá Caminha… e outros que se ficavam – tidos – como entre montes e vales… e havia as poças verdes, de nomes estranhos… covas de verde… espaços de verdades… e tinham as vistas para o Mar…. desde o alto que servia para levar… terras estranhas… “France? Aqui – neste lugar?”… tanta coisa para evocar… até havia lugares com nome de árvore… que ficavam entre os campos… nogueiras… quem sabe carvalhos… seriam os termos… estranhos… nomes… tantos… como os das pessoas que passaram – como um rio que se esvai… e se dissolveram… sem mais nada – levando em si um pouco de quem conta o que na alma cai…nomes sem nome que se perderam… entre as mãos de quem estava lá para cuidar… cenas de vida que a vida deixa nas entrelinhas… como tudo aquilo que te estive até agora a falar…

Foi o Mendes que por ali andava… já de bata arreada… era a Costa Torres que foi para outro lugar… seria o Pinto administrativo… e as histórias que te digo – tinham muito para contar… e lembrar… Tantas que nem vale a pena começar…



Eram as ambulâncias que entravam… pela janela que se abria… os lavatórios que se não tinha… não fosse Enfermeiro ser que usasse tal forma de se higienizar… (e não passou quem fala a história triste ou bizarra de estar a atender num centro de saúde de primeiro andar… essas histórias da calçada fazem parte do património da santa casa que te estou pra’qui a relembrar)…
…eram os tempos das “urgências” sem materiais nem treino nem gente suficiente para amparar… mas toda a gente as queria e as coisas eram difíceis de explicar…
…. lembrar carrinhas e autocarros de crianças acidentados e nós a correr…
…quando a coisa aquecia é que se pensa bem no que se andava a fazer…
Urgências toda a gente queria…
primeiro meios para as haver…



Lembrar o primeiro parto – à porta do Centro – a Teresa decidiu vir fora de tempo – e os pais só tiveram tempo da cabeça amparar… e viu toda a gente como a cachopa nascia – nós com lençol a servir de sala e as médicas lá dentro a trazer a vida à vida…
como os carros são lugar de improviso…
coisas estranhas que surgem sem aviso…
Foram as muitas casas visitadas… antes do rendimento mínimo e de outras coisas engraçadas… eram as carraças que ainda havia nas orelhas da criançada, eram as pulgas que connosco vinham – de tal forma estávamos pele a pele agarrada…
eis a profissão que não se separa da gente…
nem com bata, nome, uniforme, crachá…
estatuto profissional…
ordem, hierarquia ou coisa dessa que todo o mundo aprende…
e outras assim que tal…



Eram os lugares onde ninguém ia… fosse a quatro L, jipe ou carrinha:
quem levava esperança onde a electricidade se sumia…
aldeias do sopé…
gentes que ninguém quês ver…
 e nos víamos como se esvaíam…
e com elas sorríamos…
e com elas íamos…
e depois tínhamos de voltar…
vínhamos nós e eles…
 há certas peripécias impossíveis de contar…





Fosse o primeiro ser que se viu nascer…
como o primeiro que se acompanhou até ao “outro lado do mar”…

Foram os centros de dia, os apoios domiciliários, as formações e os materiais vários… tempo de fartura quando a coisa dura na que uma foi uma Câmara luzidia
– com nomes próprios que os partidos esqueciam…
as gentes – essas – não…

Foram os projectos de apoio às escolas…
promoção de sexualidades que agora se faz olhando a T.V…
antes ninguém se atrevia a falar…
agora entendo o porquê…



Foram os enganos – tantos – de quem aprende todo o dia com quem se conhece (e reconhece)… desde o chá de oliveira, as plantas, as ervas… e as terapias várias e outras tantas… aquilo que toda a gente ensina… quanta mais valia… quanto tinha este ser humano que aprender!
Agora – meio cego – olho um ecrã e espero – que me conte este tanta vida e tanto saber…
e espero….
E espero….
E espero…
e o santo trebelho mantém a boca fechada sem eu perceber…



Eram as PESSOAS…
SEMPRE AS PESSOAS…
e o tempo para as ouvir…
dia a dia…
para as visitar e conhecer…
e sentir…

Além de um número numa cama… ou de um hospital onde o humano acaba… era a sua casa, a sua família… a forma como viviam o dia a dia… assim fazíamos “promoção”… de saúde, da humana condição (que saúde é um termo, que muda de certo a incerto… que paira entre o Verão e o Inverno… e o humano sua razão ao certo… fica a “vê-las passar” sem entender):




que é diferente de uma enciclopédia internáutica que vomita de forma exacta tudo aquilo que está escrito nas mil e uma fontes válidas…
dar atenção… 
cuidar…
é o ir conhecendo… 
dando-se a conhecer…
devagar...
uma palavra amiga, um ouvir… 
um entender…
e – de vez em quando – 
um conhecimento pedido para assim fazer valer:


se for útil e o ser humano assim entenda – eis a parte que lhe dá força e poder…
ajudar seres livres a caminhar erguidos…
retirar muletas e ver a esperança renascer…
vocação linda esta de dar e assim receber…

saúde?...

aquilo que a pessoa mostra e tudo aquilo que se pode partilhar, sorrir, chorar… ser… (e entre as lágrimas de quem vem, vai, se alegra ou sofre: há tanto por ouvir e compreender);

Assim – vão os dias… foram gestões… foram planos, intenções… foram coisas diversas – nomes mudados -  que trouxeram a mesma essência…  até a essência se perder… e – quem sabe um dia – esteja ela tão fugidia – que regresse quem a traga de novo e a faça de novo valer:



Se vamos atrás do número.. .como abelha atrás do favo… perde-se a flor e o seu mel…

Se PERDEMOS O TEMPO PARA OUVIR,
PERDEMOS A POSSIBILIDADE DE CUIDAR…

Se não podemos sentir…
que humanidade podemos ajudar?...

Hoje temos aparelhos, trebelhos…
temos ecrãs LCD…

E faltam balanças para pesar…
entre o tempo de quadradinhos
marcados em mesas grandes de algum outro sítio
ficamos ocultos detrás daquela máquina que oculta o olhar

(um ecrã não é a face viva de quem se cuida…
e nunca se sabe bem quem cuida quem - 
sabemos que quem dá e recebe é como uma sintonia…
e não houver ecos vivos… 
se não houver mais valia
tempo que é qualidade na quantidade…
Seres humanos 
– lado a lado – 
que dão de si o melhor que por dentro têm… )


Fica a saudade do tempo no que havia à vontade… no que todos (os da bata branca, e os que não, os de azul, os de verde e os de roupa de rua e forma de ser igual) nos conhecíamos e sabíamos que cada um dá o que em bem sabe entregar…



Este que escreve – manteve – uma certa postura durante um par de anos:
Depois de tombar é importante QUERER, MOSTRAR… e SABER… levantar… com mérito reerguer…
um lugar, uma hora própria para cuidar, material para fazer valer as técnicas que foi ensinado a aprender…

carta registada, pedir sem receber nada… pedidos de trânsito… enganos… de gregos e troianos

Como sempre – o tempo passa, as caras mudam, ninguém nota nada…



Ninguém vê… “que faz o tipo com quinze anos de serviço a saltar de lugar em lugar”?

Respostas?
Várias – desde que estaria “passado,” (sim – esta vez significa pertencer a um tempo “pretérito”), que estava a trabalhar noutro lado… coisas que nem é bom lembrar…



Fica a saudade da terra, das gentes, do lugar…
dos “simplesmente” que estamos a deixar ir sem sequer lutar…
Do tempo, do espaço, do solo consagrado…
vendido e humilhado baixo coisas que parecem brilhar…



Como o tal monitor de outras margens…
que deveria ajudar em vez de complicar…
A humana relação implica humana condição
Cuidar – de mão em mão, olhar a olhar – coração a coração



Tecnologia:
A necessária… pois nela existe um princípio que se esquecia
Que é PROPORCIONAL a quem CUIDA – de um e outro lado do CUIDAR
Mais do que a parte que se mostra quando tudo o resto está no lugar…
Quando a técnica substitui o humano… falta a base para se poder ajudar
Eis o segredo do “PRIMÁRIO” que não se entende nos Hospitais…



Fica Cerveira gravada na pele
(as quinze freguesias digo-as de memória… não somente por ter estudado a história, mas por ter escorregado, ficado molhado, acidentado, mordido e agasalhado em cada uma delas… em cada seu lugar)…



O resto – as gentes?...
esses vimos e vamos… em cada ano.. um novo ano… fica a memória de quem escreve e da intenção que teve em se despedir e assim partilhar…

Não por mal – sim por impossibilidade de manter o rumo quando o barco não quer vogar…

Sempre que cá venha – como uma certa história de um certo “Principezinho” – em cada parte onde esteja – vou sorrir e vou chorar…



Histórias que o dourado do trigo tem anunciado…
como o tempo que se esvai…
como as vagas da brisa sobre os campos que se improvisam…
esses voltarão sempre para a verdade evocar…

OBRIGADO

Daniel Pinto (Enfermeiro)




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