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quinta-feira, setembro 07, 2006

Os Três Desejos

O génio olhava com seu ar altivo, desde o cimo da nuvem evanescente, enquanto o pobre Aladino cogitava sobre os desejos de que gostaria ver cumpridos…

Sentiu – sentiu bem fundo – e viu a sua solidão… sozinho lá na cova dos quarenta ladrões…
Sentiu – sentiu bem à flor da pele – a dor fina que se entranhava nos tecidos como agulha entre feridas laminadas curadas a álcool 97% - a necessidade de ser tocado, de ter calor, de se perder em outros braços que não aqueles que o abraçavam em noites frias até descobrir que eram os seus próprios braços que lutavam o gêlo…

“Quero uma mulher”– disse ao génio…

O tal ente riu para os seus meandros – e questionou:

“Queres realmente o que me pedes?”

Aladino disse tremendo: “-S-sim”…

“Abracadabra!”… o génio fez o seu passe de magia e desvaneceu no ar.

Em seu lugar – entre a névoa que se esvaia – foi surgindo uma imagem. Aladino olhava… entre o ansioso e o agitado – enquanto surgia… um tornezelo escanzelado, uma anca emagrecida, um ventre mirrado, um peito seco e desgastado, um cabelo fino e frágil, um olhar gasto pelo sol…

“Por Alá! Que feitiçaria é esta?”
Olhando em redor – a mulher logo reparou em Aladino – que não terminava de crer naquilo que via perante os seus olhos… como se fosse uma triste jogada do destino:

“Fome… tu ser bom para comer?...”

“B-bem… eu… s-sou… Ninguém!”

E – sentindo-se completamente perdido, Aladino desatou a correr pelas areias do deserto, até deixar atrás a entrada da sua cova e a companhia solitária dos seus quarenta Ladrões.

Procurou algo de conforto numa aldeia próxima.
Como era alguém inteligente e algo simpático, logo conseguiu emprego numa das lojas de especiarias que serviam as caravanas na sua passagem rumo a Medina.
Mas – cedo se cansou da rotina – as horas eram iguais aos dias, os dias parecidos aos meses, as gentes iguais aos anos… sempre as mesmas.

Um dia, ao entrar no seu quarto (como era parecida aquela mesma entrada à entrada que lá estava ontem, como era igual o que nela passava…), só e cansado da rotina – frustrado com a sua vida rodando em círculos - deu um pontapé num baú à beira da sua porta. Tombando no chão - suas magras pertenças expondo - esparramadas pelo chão do quarto. Entre elas, o brilho do bronze velho despertou o seu interesse…
Lá estava a lâmpada mágica, lá estava a porta para que o seu mundo mudasse…

É claro que Aladino – desde a sua última experiência com o génio – ficara descrente dos poderes da lâmpada para lhe oferecer algo que ele realmente pudesse sentir como magnífico.

Mas – nesta pasmaceira, neste túmulo de rotinas diárias que levavam ao mesmo balcão, às mesmas pessoas que levantavam às mesmas horas, faziam as mesmas coisas todos os dias e deitavam às mesmas horas, que nunca viajavam como as gentes das caravanas ou faziam algo que fosse diferente, Aladino já não se importava se o Génio lhe oferecia algo que o assustasse como o fizera outrora.

Esfregou a lâmpada e – o génio – devagarinho, lá se foi materializando.
Parecia algo contrafeito desta vez, como se desperto de um sono prazenteiro por um oportunista indesejado, mas – cumprindo o seu dever – lá se prontificou para realizar o desejo do necessitado.

“Quero uma mulher que seja interessante.”

O génio – com olhar compadecido – olhou para Aladino com um certo ar de “Oh céus – por favor – outra vez?!?!”…

“Tens a certeza que é isso que desejas?”

Aladino, tremeu e disse “Sim”…

“Seja”

O génio desmaterializou-se e – enquanto o fumo se esvaia – logo ao longe aparecia uma caravana trazendo uma carroça coberta de tecidos finos e cores garridas.

Aladino – com a “mosca atrás da orelha”, lá se ficou – braços em jarra – esperando pela comitiva.
Todos na companhia falavam em altas vozes (coisa que inquietou o nosso herói).
A que mais alto falava era uma mulher – em vestes de seda e ouros por toda a parte.

Aladino não lhe achou muito interesse de início (não fosse pelas altas gargalhadas e pelo aparente à vontade que desprendia a insólita senhora).

Ela logo se abeirou, puxando conversa. Aladino ficou sabendo dos seus múltiplos périplos por terras de aquém e além mar. Ficou extasiado com os seus romances e aventuras mil.
Xerazade (este era o nome da nossa jóia) era casada com um Sultão que – outrora – a quisera matar (sabe-se lá por que despropósito).
Agora – Xerazade viajava para ganhar experiências novas com as que entreter o seu Sultão (ainda que Aladino começava a sentir que - o que o Sultão fazia agora - era pagar para ter a tal Xerazade bem longe).

Aladino contou acerca da sua vida na cova – Xerazade achou o máximo – tão “chique” e fantástico.
Disse que era “inovador” e “ousado” (Aladino pensou que seriam termos novos para “fome” e “necessidade”, mas não a quês interromper – ainda que, mesmo que tentasse, não me parece que tivesse tido sorte).


Ela mesma conhecera um “Guru” (Aladino já se começava a perder entre tanto estrangeirismo) que habitava um “Ashram” algures nas montanhas e que fazia não sei quê Yoga e que era “Tan-“ qualquer coisa e que… (neste momento Aladino já desligara o gravador, de tanta diarreia mental que vinha a despropósito da incombustível Xerazade).

Como se a coisa não fosse a nenhures (e Aladino já começasse com o típico “Ah… bem… sim… p-parece hora de v-voltar para casa… hum… ahm… hora dos morangos com a-açúcar – s-sabes?”), Xerazade disse que um ser tão espiritual como Aladino deveria conhecer as artes “Tântricas” para melhor fluir a sua “Kundalini” e assim ouvir, sentir e ser “Nirvana” (Aladino ainda esteve para lhe perguntar se o tal Nirvana não era alguma música estranha estilo “Dervixe” – mas como era a única palavra esquisita que conhecia decidiu não arriscar, não fosse fazer figura de parvo frente a tal espavento colorido de emoções acavaladas em pensamentos).

Deitado na cama, com as pernas no lugar dos braços, e os braços no lugar das pernas, com a língua no nariz e Xerazade esparramada sobre ele – Aladino decididamente sentiu-se como o último rebuçado na vitrina da única pastelaria da aldeia das crianças…

Quando ela se levantou para ir à casa de banho – anunciando que tinha sido uma vigésima tentativa interessante e que poderiam manter os próximos meses de prática até que a “Energia” “Fluísse” sem “Miasmas”, Aladino – conforme o seu motto (esta foi do tradutor) de vida “Quanto mais rápido mais longe, quanto mais força mais rápido”, esfumou-se imitando o nosso génio da lâmpada.

Correu, correu, correu… até já não mais sentir vida no seu corpo inerte.

Quando despertou estava sobre uma rocha. O dia findava, o Sol punha-se sobre as palmeiras, havia apenas o som da brisa nas suas folhas e uma expectação contida no ar - ao mesmo tempo que o sol se aproximava do seu ocaso, da sua linha final, do seu entregar à terra para renascer outro, num outro dia diferente.

Aladino sentiu as costas aquecer na pedra, sentiu a dor dissolver no ar soprando suavemente, sentiu o seu pensamento escoar na brisa que passava, sentiu seu coração embalado no doce e morno sentir do sol que se esvaia…

Envolto – como de novo no ventre materno – por toda esta natureza foi deslizando, esquecendo ser ele, esquecendo as suas necessidades e desejos, esquecendo sequer pensar, sentir…

O Sol esvaía-se enquanto ele era felicidade.

“Isto é mais do que eu poderia desejar… isto é tudo o que eu quero” – escapou-lhe em voz calma e serena, deitado sobre a rocha morna, sentindo-se parte de tudo, tudo o que sempre sentira em falta nesse momento era nada…

“Concedido” – ouviu-se uma voz dizer.
Enquanto Aladino se virava – assustado pela voz – sua veias gelaram, sua pele endureceu, seus olhos se apagaram ao mesmo tempo que o Sol desaparecia no horizonte.

Ficou apenas uma rocha – que parecia a forma de um homem contemplando o Sol pôr…

Sempre que passam turistas, os guias explicam a história de Aladino e a sua lâmpada dos desejos.

Eu vi o génio um dia – vi o seu olhar de ironia - enquanto esculpia, na pedra fria, uma frase que lá perdura:

“Os desejos dos homens são loucuras, o fim das loucuras é sono eterno”

Vi como se levantava, como se esticava – como que remexendo uma enorme preguiça de dentro de sí.
Vi como se esvaia em névoa – sua gargalhada ecoando na pedra.

Primeiro transformado em mulher de vestes ostentosas e sedas de cores garridas, depois numa outra mirrada e seca, finalmente num espelho de prata que se ficou flutuando sobre a bruma da manhã até ser poça de água no solo árido do deserto.


Eu – que já conhecia a história – fiquei-me entre os arbustos, esperando que a próxima caravana de turistas passa-se para ver a inédita pedra de Aladino. Hoje teriam uma surpresa se olhassem de perto… ou mais, se olhassem no espelho cobiçando a água entre o deserto da vida….

quarta-feira, setembro 06, 2006

Letras de Criança

Redondas, estilizadas, com esmero, rodopiando as curvas, grandes, abertas, com tempo e deleite na sua elaboração, ecos de passado com lufadas de ar já respirado enquanto as tecia e entretecia nos postais…

Hoje – e ontem – como o serviço demandava a convocatória de crianças com vacinas em atraso – decidi parar a resistência (é uma tarefa chata e repetitiva) e procurar um ponto de originalidade que torna-se o peso em virtude, o custo em ganho.

Dei por mim a lembrar o quanto as assinaturas revelam a personalidade de quem escreve.

Olhei para a minha letra… quando era pequenote (não que tenha crescido muito – ainda estou na média) diziam as meninas (e se elas dizem – relativamente a letras – isso tem valor pois elas mantêm-na redondinha e ajeitada… regra geral) que a minha letra era muito gira.

Olhei para os gatafunhos que se estendiam nos registos de enfermagem em redor – stressados, tensos, indistintos, feitos à pressa, sem muita atenção, com palavras bem ocas, repetindo coisas já escritas, sem pinga de personalidade, sem alma… e reparei na minha dormência…

Juntando o útil ao agradável – sentei.
Puxei as resmas de postais, as listas de crianças a convocar e – desta vez sem sentir tanta dor só de pensar no tempo, paciência e outras coisas e tais que exigiria a situação… escrevi a primeira letra.

Foi um “E” maiúsculo.
Ao princípio custou.
Só faltava esticar a língua cá para fora, ladear a cabeça e sentir como no pulso faltava a destreza e leveza para traçar a letra com o seu habitual floreado, com as curvas elegantes e artísticas com as que adorava decorar cada tracinho daqueles que – unidos num papel – criavam uma mensagem, um algo que havia vindo de algures, que havia passado por mim, e que tornava nova forma na resma de papel em branco – com linhas ou quadradinhos – que se transformava em poema de re-criação.

Era assim como me sentia em criança – co-criador (esta palavra não a sabia na altura, mas como já li muitos livros - opa! - aproveito e dou uma de “erudito” pelo não dito) - perante o caderno de “deveres” pautado com linhas para enquadrar as minhas letras.
Enooormes de início – bem que levaram uma catrefada de trabalho para se “enquadrar” nos cânones (régua em latim, como as reguadas que – de quando em vez - lá caiam por assuntos disciplinares diversos).

Lentamente – um prazer enorme foi crescendo da actividade tão diáfana em aparência.



Senti que compreendia a mensagem oculta mostrada no filme “Hero”.
A cena corresponde a uma das três histórias contadas pelo protagonista.

Um ataque armado avassalador contra uma escola de letras - mestres chineses tipografam os seus caracteres em formas únicas, como uma arte ancestral, tudo em tons de vermelho contra negro, uma chuva de flechas alienadoras (do império unificador) caem matando aqui e além alunos de vermelho.
Na mesma sala – entre as flechas que furam o telhado de palha e telha - o mestre traça impassível seus caracteres. Um a um os alunos vão morrendo, enquanto o velho mantém a sua mesma atenção e devoção.
Um dos heróis do filme traça – com arte de pena que parece espada - um carácter em vermelho vivo – que será símbolo do filme… A mensagem que o imperador não compreendera: “tudo baixo um mesmo céu”, escrita em tons de sangue e devoção sem força ou imposição.

A minha mente toca as cenas enquanto comungo dos segredos mostrando o profundo em cada coisa que se faz com amor, tempo e desprendimento. Foi esta a magia das letras hoje.

Cada nova reviravolta do “A”, cada tracinho do “X”, cada traço de personalidade erguendo-se do “N” e do “R”, cada bolachuda calma do “B” e do “D”…
Cada uma que reencontrava o seu lugar antigo mostrava-me quem eu fora ao mesmo tempo que se entrevia o tal processo de “cimentação” de velocidades endiabradas, de desprendimentos bruscos, de aluimento da devoção com que traçava a minha personalidade nas linhas. Vi esse tal processo que eregeu cidades betonadas e avenidas rectilíneas nas minhas folhas brancas – sobrepondo-se ao suave declive das colinas ou ao doce fluir de rios mansos entre as palavras ondulantes…

Gostei de distinguir o tal “progresso” que se havia dado em mim. Gostei de me “revisitar” – de olhar para a criança e ver como ela julgava o adulto que aparentemente se fez baixo as linhas de fundo do caderno da vida.

Acho que ela não gostou da minha letra – e eu, sinceramente – prefiro a sua.

Talvez algum dia – pequeno Daniel – volte a traçar letras, palavras e frases com o mesmo carinho e dedicação, com o mesmo deleite e atenção, com o mesmo sentido despreocupado e generoso sobre o tempo e o espaço a preencher no caderno da vida.

Agora – tenho de escrever depressa – as agulhas dos relógios parecem mandar e os números contam mais que a vida nas letras do dia.

Mas – talvez – volte a escrever com essa mesma parcimónia que apenas uma criança sabe dar ao simples que é viver…

Bem haja pequeno Daniel – por me teres tocado na distância. Bem haja.

domingo, setembro 03, 2006

Pedra

Uma adúltera… o povo preparava-se para a apedrejar… como se, descarregando as pedras ( Cefas – ouves-me?) sobre outrem, se redimissem da sua própria falta de sentido…

Alguém se entremeia… escreve na areia… palavras que passarão… como o pó…

“Quem não tiver pecado – atire a primeira pedra”…

E assim ficou – até se ficar só…

Dois – sós…

Ela foi – se pecou ou não – nunca saberemos… são palavras no pó (pecar é latino – significa “falhar o centro” - não o livro).

O que me chamou a atenção foi – ele não atirou pedra alguma (ouviste Cefas?).

Ele não atirou pedra alguma…

Solidão

Neste mundo, o humano trouxe algo que nunca existira até então… com ele nasceu a solidão.

Ser humano – é estar só.

Faz-se barulho para calar a voz do silêncio, o coração que clama pelo regresso a casa.

sábado, setembro 02, 2006

O Coran e as Estrelas










“O Amor que damos é sempre nosso… aquele que mantemos dentro perde-se…”


Esta é uma história que entremeia exclusão, afectos desencontrados, regras e imposições sobre humanidades simples…

É uma história que fala de afectos, de partilhas, de confiança e intimidade…

É um tempo de celulóide que entretece a essência e a forma e questiona a razão pela qual a última se sobrepôs à primeira…

É um momento subtil de análise à intolerância, é um mundo que fala dos medos que se sobrepõe à presença verdadeira do humano – é ver como as fachadas podem danificar o lar que era suposto protegerem e convidarem a se visitar…

Por detrás do Judaísmo e do Islão, entre as aparências, as normas e a essência humana, com a história de uma criança que pretende conhecer o mundo para além do seu balcão, além das paredes da sua casa, sobre as regras de um pai que se destrói a si mesmo e de uma mãe ausente.

É uma exploração do sensual e afectivo nos braços de prostitutas que – com experiência de fachada e emoção no íntimo – guiam Momo (não o de Michael Ende) para o mundo da afirmatividade além das restrições, enquanto um velho vendedor de mercearia – Ibrahim – com um Al-Coran interpretado na forma Sufí, abraça o nosso rapaz ao longo de minutos frente a um ecrã que se transforma em espelho de um qualquer anseio interior de paz e encontro…

“Tell me why, tell me why, tell me why
Hum… why can’t we live together?
Everybody wants to live together – why can’t we live together?
No more wars, no more wars, no more wars – just a little peace in this world
…”

Assim reza a música do DVD enquanto escrevo estas linhas depois de ver o filme.

Agora – após falar com uma amiga no Messenger (no “Anjo” para quem gosta destas “traquinices” das coisas) – sobre as Estrelas e o Amor…

Sentindo a frase de cima penso em estrelas e buracos negros. Sei que é algo de Astronomia e Física – mas que não são as ciências dos homens senão esboços do ser do Cosmos?


Estrelas – que quanta maior massa – maior probabilidade de gerar buracos negros. Massa – que é energia… Amor que se dá – nunca se perde, enquanto aquele que se prende nos devora… buracos negros… gravidade humana que descamba sobre si mesma… cancro civilizacional… amor que se limita… opções que se deixam passar… luz que se retém e devora… estrela que morre… escuridão ao se não entregar.

O mistério está em como uns se entregam e outros não, como uns parecem fluir com o Cosmos enquanto outros se trancam nos miasmas mentais… como uns dançam nas fogueiras de Belthane enquanto outros morrem trancados em Palácios de Pedra…

Não tenho respostas… apenas perguntas e algum sentir.

Hoje as flores do Corão levaram às estrelas… sempre ao amor – não há palavra que o não contenha, pois a palavra embeveceu-se na sua substância para ser gerada.

sexta-feira, setembro 01, 2006

The Prince and the Fox



Depois da tempestade… vem a calma.
Depois da força e convulsão da Obra - baixo o serrim, uma vez soprado - encontra-se o belo trabalho que o carpinteiro deixou em nós.

Evoco a beleza que se partilha, os sonhos que se entrevêem no íntimo. Evoco o que de melhor se dão os humanos – na sua limitação tão bela… por alguma razão o Universo nos “tolera”, mesmo quando parecemos tão atrapalhados, sem jeito ou até nocivos.
É porque – como dizia alguém muito sábio com pele de raposa… "apenas com o coração se vê verdadeiramente, o que é essencial é invisível ao olhar"…

Sorrindo para a dádiva que os caminhos da vida colocam no meu deambular, agradeço a partilha do que havia a partilhar.

Aqui fica a leitura do dia, a de uma raposa extremamente “matreira” que ensina um Principezinho - perdido e triste por ter visto cinco mil rosas iguais a aquela que ele pensava única – umas lições lindas.

Agora – para mim – sempre que passo pelos Salgueiros, há um sorriso por ver o verde de um olhar grato lá reflectido. Seja assim com as ondas que cruzam ondas neste lago de vida – que as essências se alimentem e reforcem.

Eu guardo um abraço e um sorriso bem cá dentro - ao soprar o serrim reconheço a obra do mestre Carpinteiro em mim.

Obrigada pela força e carinho que tenho recebido nestes dias – vocês sabem quem são e como o Amor que deixaram passar através dos vossos corações tocou o meu
Bem haja…
P.S - para quem gostou dos livros http://www.apple.com/trailers/independent/conversationswithgod/trailer/



It was then that the fox appeared.
"Good morning," said the fox.
"Good morning," the little prince responded politely, although when he turned around he saw nothing.
"I am right here," the voice said, "under the apple tree."




"Who are you?" asked the little prince, and added, "You are very pretty to look at."
"I am a fox," the fox said.
"Come and play with me," proposed the little prince. "I am so unhappy."
"I cannot play with you," the fox said. "I am not tamed."
"Ah! Please excuse me," said the little prince.
But, after some thought, he added:
"What does that mean--'tame'?"
"You do not live here," said the fox. "What is it that you are looking for?"
"I am looking for men," said the little prince. "What does that mean--'tame'?"
"Men," said the fox. "They have guns, and they hunt. It is very disturbing. They also raise chickens. These are their only interests. Are you looking for chickens?"
"No," said the little prince. "I am looking for friends. What does that mean--'tame'?"
"It is an act too often neglected," said the fox. It means to establish ties."
"'To establish ties'?"
"Just that," said the fox. "To me, you are still nothing more than a little boy who is just like a hundred thousand other little boys. And I have no need of you. And you, on your part, have no need of me. To you, I am nothing more than a fox like a hundred thousand other foxes. But if you tame me, then we shall need each other. To me, you will be unique in all the world. To you, I shall be unique in all the world . . ."
"I am beginning to understand," said the little prince. "There is a flower . . . I think that she has tamed me . . ."
"It is possible," said the fox. "On the Earth one sees all sorts of things."
"Oh, but this is not on the Earth!" said the little prince.
The fox seemed perplexed, and very curious.
"On another planet?"
"Yes."
"Are there hunters on that planet?"
"No."
"Ah, that is interesting! Are there chickens?"
"No."
"Nothing is perfect," sighed the fox.
But he came back to his idea.
"My life is very monotonous," the fox said. "I hunt chickens; men hunt me. All the chickens are just alike, and all the men are just alike. And, in consequence, I am a little bored. But if you tame me, it will be as if the sun came to shine on my life. I shall know the sound of a step that will be different from all the others. Other steps send me hurrying back underneath the ground. Yours will call me, like music, out of my burrow. And then look: you see the grain-fields down yonder? I do not eat bread. Wheat is of no use to me. The wheat fields have nothing to say to me. And that is sad. But you have hair that is the color of gold. Think how wonderful that will be when you have tamed me! The grain, which is also golden, will bring me back the thought of you. And I shall love to listen to the wind in the wheat . . ."
The fox gazed at the little prince, for a long time.

"Please--tame me!" he said.
"I want to, very much," the little prince replied. "But I have not much time. I have friends to discover, and a great many things to understand."
"One only understands the things that one tames," said the fox. "Men have no more time to understand anything. They buy things all ready made at the shops. But there is no shop anywhere where one can buy friendship, and so men have no friends any more. If you want a friend, tame me . . ."
"What must I do, to tame you?" asked the little prince.
"You must be very patient," replied the fox. "First you will sit down at a little distance from me--like that--in the grass. I shall look at you out of the corner of my eye, and you will say nothing. Words are the source of misunderstandings. But you will sit a little closer to me, every day . . ."
The next day the little prince came back.
"It would have been better to come back at the same hour," said the fox. "If, for example, you come at four o'clock in the afternoon, then at three o'clock I shall begin to be happy. I shall feel happier and happier as the hour advances. At four o'clock, I shall already be worrying and jumping about. I shall show you how happy I am! But if you come at just any time, I shall never know at what hour my heart is to be ready to greet you . . . One must observe the proper rites . . ."
"What is a rite?" asked the little prince.
"Those also are actions too often neglected," said the fox. "They are what make one day different from other days, one hour from other hours. There is a rite, for example, among my hunters. Every Thursday they dance with the village girls. So Thursday is a wonderful day for me! I can take a walk as far as the vineyards. But if the hunters danced at just any time, every day would be like every other day, and I should never have any vacation at all."
So the little prince tamed the fox. And when the hour of his departure drew near--
"Ah," said the fox, "I shall cry."
"It is your own fault," said the little prince. "I never wished you any sort of harm; but you wanted me to tame you . . ."
"Yes, that is so," said the fox.
"But now you are going to cry!" said the little prince.
"Yes, that is so," said the fox.
"Then it has done you no good at all!"
"It has done me good," said the fox, "because of the color of the wheat fields." And then he added:
"Go and look again at the roses. You will understand now that yours is unique in all the world. Then come back to say goodbye to me, and I will make you a present of a secret."
The little prince went away, to look again at the roses.
"You are not at all like my rose," he said. "As yet you are nothing. No one has tamed you, and you have tamed no one. You are like my fox when I first knew him. He was only a fox like a hundred thousand other foxes. But I have made him my friend, and now he is unique in all the world."
And the roses were very much embarassed.
"You are beautiful, but you are empty," he went on. "One could not die for you. To be sure, an ordinary passerby would think that my rose looked just like you--the rose that belongs to me. But in herself alone she is more important than all the hundreds of you other roses: because it is she that I have watered; because it is she that I have put under the glass globe; because it is she that I have sheltered behind the screen; because it is for her that I have killed the caterpillars (except the two or three that we saved to become butterflies); because it is she that I have listened to, when she grumbled, or boasted, or ever sometimes when she said nothing. Because she is my rose.
And he went back to meet the fox.
"Goodbye," he said.
"Goodbye," said the fox. "And now here is my secret, a very simple secret: It is only with the heart that one can see rightly; what is essential is invisible to the eye."
"What is essential is invisible to the eye," the little prince repeated, so that he would be sure to remember.
"It is the time you have wasted for your rose that makes your rose so important."
"It is the time I have wasted for my rose--" said the little prince, so that he would be sure to remember.
"Men have forgotten this truth," said the fox. "But you must not forget it. You become responsible, forever, for what you have tamed. You are responsible for your rose . . ."
"I am responsible for my rose," the little prince repeated, so that he would be sure to remember.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Do Prazer

O dia - a sua pequena faixa luminescente prévia ao regresso de sempre - foi junto ao mar. Ao regressar - abri "O Profeta" de Kahlil Gibran, lá rezava assim:

"Então um eremita que visitava a cidade uma vez por ano, avançou e
disse, Fala-nos do Prazer.
E ele respondeu, dizendo:
O prazer é uma canção de liberdade, mas não é a liberdade.
É o desabrochar dos vossos desejos, mas não é os seus frutos.
É um chamamento profundo para as alturas, mas não é profundo nem alto.
É o encarcerado a ganhar asas, mas não é o espaço que o circunda.
Sim, na verdade, o prazer é uma canção de liberdade.
E bem gostaria que a cantásseis com todo o vosso coração;
No entanto, não percais os vossos corações nos cânticos.
Alguma da vossa juventude procura o prazer como se isso fosse tudo, e esses
são julgados e punidos.
Eu não os julgaria nem puniria.
Gostaria que empreendessem a busca.
Pois eles encontrarão prazer, mas não só.
Sete são as suas irmãs, e a mais insignificante delas é mais bela que o prazer.
Nunca ouviram a história do homem que cavava a terra para encontrar raízes
e descobriu um tesouro?
E alguns de vós, mais velhos, recordam os prazeres com remorsos.
Como erros cometidos quando estavam bêbedos.
Mas o remorso só obscurece o espírito e não o castiga.
Deveriam lembrar-se dos prazeres com gratidão, tal como fariam após uma
colheita no verão.
No entanto, se os conforta sentir o remorso, deixai-os confortarem-se.
E há entre vós aqueles que não são nem suficientemente jovens para
empreender a busca, nem suficientemente velhos para se lembrarem;
E no medo deles de procurarem e se lembrarem, conseguem afastar todos os
prazeres, a menos que negligenciem o espírito.
Mas até na antecipação reside o seu prazer.
E assim também eles encontram um tesouro, embora procurem as raízes com
mãos trémulas.
Mas dizei-me, quem pode ofender o espírito?
Será que o rouxinol consegue ofender a quietude da noite ou o brilho das
estrelas?
E as vossas chamas ou fumo conseguem carregar o vento?
Pensais que o espírito é um lago imóvel que podeis perturbar?
Muitas vezes ao negardes a vós mesmos o prazer, estais a ocultar o desejo
nos recônditos do vosso ser.
Quem sabe que o que parece ser omitido hoje espera por amanhã?
Até o vosso corpo conhece a sua herança e as suas necessidades e não sairá
desiludido.
E o vosso corpo é a harpa da vossa alma, e é a vós que compete extrair dela
uma doce melodia ou sons confusos.
E no vosso coração, perguntais,
"Como distinguiremos o que é bom no prazer do que não é?"
Ide para os vossos campos e jardins e aprendereis que o prazer da abelha
consiste em retirar o mel da flor.
Mas também a flor tem prazer em dar o seu mel à abelha.
Pois para a abelha a flor é uma fonte de vida.
E para a flor a abelha é mensageira de amor.
E, para ambas, abelha e flor, o dar e o receber de prazer é uma necessidade e
um êxtase.
Povo de Orfalés, olhai para os vossos prazeres como as abelhas e as flores."


É a leitura do dia...

Lost

Afinal não dormi… e fiquei…
E fico – assim – sem ser nem querer…

Sou uma página em branco – à espera de se preencher

Fico um risco nas marés
E – não, não vou mexer os pés

Vou ficar – à espera – desse tal deus criador
Cria – dor

Que me diga – no meio de flor de lótus
E rebentos de betão
Que faço neste mundo – que pinto nesta confusão

Estou perdido… rumo sem me ver

Estou só – por vogar sem conhecer

Que local submisso, que caverna de degredo

Que sítio mais confuso onde ser é parecê-lo

Assim não dá… assim custa e não dá

Estou farto, só no escuro… e não há mais estrelas neste céu

Não sei para onde vou – não sei por onde vou – e tampouco sei ir por ai

domingo, agosto 27, 2006

Apegos

(consegues amar a criança que há em mim?)

Apegos… tantos.

Há tanto tempo que me sinto para além da máscara… a máscara tomou conta de mim, não sai e me drena – lenta e inexoravelmente – usurpando toda a vida e força desta alma até não sobrar nada mais do que pedra e pó…

Há dias… nos que os que assistimos nos assistem com intensidade tal que quebram a vitrine reforçada contra balas, atrás da qual nos escondemos para ver a vida passar sem que esta nos fira, nos toque… nos liberte.

A Sexta foi um desses dias.

Há já algum tempo que deixei de estrebuchar relativamente aos cuidados de saúde, à anedota que os valores de Enfermagem se tornaram, ao mercantilismo das instituições actuais – tudo isto é um processo disfarçado de incapacidade que visa o fundir este ilhéu de gentes paradas no grande continente de feira de “tudo a 300” no que nos enfiaram… agora é só deixar-se ir e fazer o melhor para conservar alguma humanidade.

Digo que deixei de lutar por ver a mentira da minha própria luta – eu nunca escolhi ser Enfermeiro – vim por deixar-me ir.
Todos os argumentos que possa usar caem pela falta de uma vocação ou um amor verdadeiro à causa… apenas a humanidade me fere – e essa está até nos que recolhem o lixo nas ruas, por isso – nada de nobrezas nas profissões, de profissões nobres – é a forma como vivemos a nossa vida que marca a diferença…

Mas – voltando ao tema.
Há já uns dias longos para cá que estrebucho entre faíscas de humanidade, presença e longos ermos de vazio, medo e dor.
Nos últimos mal consigo erguer o olhar para quem pelo gabinete passa, e todo o esforço para fazer algo se transforma numa sessão de tortura chinesa (com unhas arrancadas após pauzinhos de bambu queimando)… suponho que estou em depressão crónica à uns 30 anos com alguns períodos de remissão esporádica devidos a um adensamento da ilusão de ser, estar… e afins.

Há uma área que – às segundas, quartas e sextas – me dá um especial gozo e dor. Explico: tenho de fazer uns domicílios (nome genérico para as nossas actividades nas casas de utentes que requisitam este serviço).
São – regra geral - pessoas idosas, acamadas, com queixas várias e algumas escaras (feridas de pressão) para tratar.

Eu adoro sair – porque posso respirar algo de ar “puro”, olhar os montes por segundos e, de certa forma, sentir algo de “liberdade”.
Tenho de caminhar até às casas das pessoas, e isso é fantástico.

Ora, a outra parte é lidar com a dor… estou numa fase em que me dói uma injecção, uma vacina num bebé é uma tortura, um penso que não termina de curar é um calvário (sobretudo pelo desespero de não ter material para colocar lá… bem haja os economistas que nos prendem as mãos)… estou como um vidrinho… tudo me parte…

Ora – no meio disto – está a dona Rosalina.
Ela mora com o filho, não fala, tem umas escaras e – sobretudo… sorri!
Sorri tanto… e entende as coisas.. não as palavras meias… mas as que vêem de dentro. Olha para o filho (que mora na mesma casa agora e que toma conta dela) com um olhar de “saudade” misturada cm uma doce contemplação, um amor cândido e uma espera por algo mais que palavras de “crosta” que dêem coração e intensidade mais do que os circunstanciais “velhota” ou gestos meios de carinho que não se finalizam pelo medo, pelas aparências… sei lá mais porquê – merdices sociais imagino.

Os sorrisos daquela mulher – nas manhãs (que é o que mais custa) de dias sobrecarregados (falta de pessoal, falta de materiais, falta de organização, falta de paciência e excesso de doentes por época balnear) são bálsamo.
Aprendi a beija-la sempre que lá vou, a me sentar um pouco – com a minha alma de rasto sem ocultar que estou feito um farrapo – e, desde o sofá, trocar algumas palavras com ela… mesmo que ela não responda.
Às vezes canto – porque já não há mais nada a fazer a não ser pedir para desligar o raio do rádio nas notícias (fui eu quem pediu para o pôr lá para que ela tivesse algo de presenças: à falta de humanidades sempre se podem colocar lá umas vozes de caixa – como fazemos nós os “iluminados” da vida diária, com as televisões nos quartos). Suponho que o filho me acha piada…

Pelo menos, sempre que me vou, agarro-lhe a mão.
Ela não larga nada – está como um bebé (suponho que prestes a entrar no tal “reino”, se as palavras do mestre estiverem correctas) – e eu lá tenho de fazer umas palhaçadas para poder sair… o que é bom, porque já se pode deixar lá a mão do filho em vez da minha e assim ficam na conversa forçada durante um minuto, com a desculpa do enfermeiro esquesito, ela tem as mãos dele nas dela e ele não precisa fugir, porque a culpa sempre é minha…

Não sei quem dá mais – acho que ela.
Entre os peidinhos e trolhitos bem dados (que esticam até ao extremo a pouca paciência que se traz nos primeiros momentos da manha e acendem a “Hum(us)ildade” nos outros) e os sorrisos, e o silêncio que sabe e sente… fica-se entre duas terras, mas há uma sensação de ter sido esticado que é verdadeira e – de certa forma – boa.

Dói… dói a dor que sei que ela sente, dói a degenerescência do corpo… mas o que dói mais é a solidão.


A solidão de se ter filhos tão perto e se estar tão longe que nenhum toque ou palavra verdadeira surge nos anos que nos são dados para treinar isso mesmo – o abrir o coração.
O mostrar a nossa fragilidade e sentir que é amada e plenamente abraçada… até que a vida tem de vir - como um carro de lixo que recolhe as tristezas do chão para reciclagem – e nos manda para uma cama. Ai, toda a orgulhosa fachada, todo o frontispício ao qual se dedicou tanto do nosso tempo e energia – estão feitos em escaras, genitais macerados, corpos de carnes descaídas, necessidade que nos lavem as fezes e nos limpem a baba… eles existem para que nos rebaixemos ao ponto de não mais precisar de manter aparências.
Por muito que os escondamos – eles vão estar lá… o “tu” e o “eu” que serão. O quanto nos mentimos na gestão do tempo e daquilo que é verdadeiramente importante. Esta sociedade de sucedâneos e aparências, de anúncios de televisão e passatempos (como se o tempo não fosse uma medida de qualidade, mais do que um algo para se “passar” ou “matar”), de guerras e problemas e causas tão longe que até se fica com a ideia de que os mapas devem estar esquesitos – pois não sabemos sequer onde foi o tal terremoto, o tal acidente, o tal desastre de avião, o tal massacre… tudo isto é lavado.

Eles estão ali – uma estátua à nossa própria pequenez e inconsciência – para que notemos o quanto é difícil dar o essencial – amor, abertura, tempo – o quanto estabelecemos o culto das aparências – da fortaleza, da actividade, da auto-suficiência – quando somos esse ser que necessita que o agarrem da mão e o guiem em amor, carinho e compreensão – nas duas etapas da sua vida nas quais não se prende às ilusões…

Depois veio um domicílio novo, em pleno dia de caos… e eu já a ver o desastre total. Entre o meu atraso, os doentes infinitos, as faltas de material, a energia drenada…

Lá fui. Bati à porta e entrei nesta casa linda – bem arranjada, com cheiro a fresco e plena de presenças!

É algo que mata – são as casas cheias de pó de passado, de fotografias a preto e branco, de cheiros a mofo ou abafados, de limpeza “sui generis” garantida pelas assistentes pagas para o efeito.
Casas sem vida, altares à morte com culto de sombras e erradicação de esperança. Não há crianças nestas casas, não há luz, não há gentes que sintam lar ali… e são tantas… muitas das realidades dos “domicílios” actuais… doença que alastra cada vez mais.

Pois aqui havia crianças, havia três gerações de seres humanos no mesmo espaço.
Quem estava a camada era a “visa” – não o cartão de crédito (quem dera que esse fosse acamado e arrumado de vez), mas a bisavó.

Tinha sido internada por uma das irmãs da família, mas foi levada para casa por uma outra e agora estava a ser cuidada – realmente cuidada.
E – relembro, por muito que custe ouvir – cuidar, para ser holístico (isto é para as escolas de Enfermagem, que adoram a porra da palavra), tem de ser humano, emocional, afectivo e familiar também.

Estavam duas filhas, estavam três crianças, estava uma neta grávida.
As filhas como borboletas à volta da luz – preocupadas com qualquer detalhe, ávidas de querer saber mais, de comprar o que quer que fosse que trouxesse alívio ao ser amado.

As crianças a brincar com um puzzle, uma outra – de três anos – fez um belo chichi ali mesmo – no corredor.
Eu que tratava de uma escara, almoço a cozinhar, risos entre a dor… família.

Eu que queria chorar… mas tive de manter a compostura.
Chorar porque era assim que as coisas deveriam ser, porque – quem não quereria sentir aquilo?
Ninguém nos atirou para um canto da casa – num quarto qualquer longe das vistas de todos… Não! Aquela mulher estava na sala – em pleno centro da casa, e as crianças brincavam enquanto eu trabalhava. E – sabem que mais – nem se importavam, tão normal aquilo parecia que nem vieram olhar enquanto retirava pele morta de tecido desvitalizado. E ninguém as retirou – como fazem muitos – para que não vissem ou não estivessem lá. E ninguém se retirou. Toda aquela força, todo aquele sentimento estavam lá com aquela mulher… abençoada seja ela pelo amor.

Eu vim embora – sem palavras. Com algo trancado na garganta, com essa tal vontade de chorar que não sai – mas quem me dera que saísse.
Pela felicidade de ter encontrado aquele amor – aquela incondicionalidade, aquele dar tudo sem perguntar o custo - por um ser humano.
Tão anti civilizacional, tão destrutor de fachadas de tempos modernos, tão anti “auto suficiência” de “self-service” e hipermercado, tão anti culto de Homem endeusado – tão simples e tão ousado – como se precisar uns dos outros, de se estabelecer pontes de amor e incondicionalidade, tão simples como que – ao fim e ao cabo – os tais valores ainda existem.
E não estão em cursos nem em livros, picoterapeutas, médicos, enfermeiros, clínicas, lares de 5* ou merdices afins – estão naquilo que não pode ser pago ou comprado, estão nas vidas das pessoas e na sua capacidade de se entregar… pena que eu seja apenas um observador… pena.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Words as a Sword


Palavras… dizes… palavras já há demais… palavras tenho por ti e por mim…

Tristeza… é uma palavra… que te diz?
Solidão – é uma palavra… de que fala?
Que são as palavras senão ecos de uma voz mais profunda que a mente não iguala?

Como vês – só perguntas…
Certezas nenhumas, como se navegasse – num barco sem leme nem velas, nem carta de marear… ao som das marés, à espera, da mensagem deste amplo mar…

E fico-me – nos socalcos das maresias, recantos com paredes de coral
Até que a maré venha e me reviva, e me leve para não mais voltar
E de novo vogo – sem leme, sem vela e sem rumo… de novo me deixo levar
Pelas ondas – não sou eu onda da vida? – até onde elas me queiram deixar

Só palavras… insulto nefasto.
Pois sim – se nem as palavras valem, que resta?
Imagina – se lhe contasses ao artesão – que suas mãos, não…
Que lhe dissesses ao pássaro que – asas não eram
Que lhe atirasses à cara – à Primavera – que suas flores são pouco, são nada, não chegam…

Tu queres verão e frutos… espera então e contempla
Baixo as sombras das árvores
E espera, e espera e desespera…

Sem flores – espera…

Que frutos comes – pergunto eu?
Quê de tão grande te serve, para desprezares as minhas flores humildes?

Nunca engalanei as minhas paredes com troféus de guerras ganhas… muito pelo contrário – os meus dias contam-se em batalhas perdidas…

Palavras não têm poder, têm o dom que - quem quer que as ler - lhes puder entregar
O meu poder é este – o de não poder nada… mas com orgulho.

Os meus feitos são linhas numa areia que muda, num mar com meu nome escrito
E assim me sinto humilde, pois palavras são sons que passam e que apenas revivem
Nos lábios que os descobrem, que neles reparam e com eles respiram

Não queria lavrar muito mais, muita mais vida por aqui deixar – que já chega a confusão deste sítio – cheio daqueles com ganas de mandar

E assim me esvaio de mansinho – meu sangue esfria, ficam só as ditas palavras
Nelas todo o calor doentio, nelas todo o fulgor que se espalha
Enquanto eu me esvaio como um rio, que numa planície desagua
Sem mar, sem destino – veias num chão a sangrar… mais nada, nada mais…

Sê feliz com mais que palavras – mas lembra o quanto são as palavras que te arrebatam da tua pasmaceira diária
Lembra quanto as palavras te inflamaram em sonhos de vidas a percorrer
Sente o quanto as palavras acendem a tua volúpia e o desejo por tudo o que tens dentro que nunca será tocado por mãos, pele ou feito
E – quando insultares a palavra com tua própria
Sente o quanto cospes no espelho, e depois lamenta… lamenta

Um abraço – e, Adeus
A um que só tu – e eu – veremos chegar

As Coisas Simples


Como se esquece – nas esquinas do medo – o quanto as voltas e laços da vida são femininas… generosas, ternas, embevecidas… simples…

Nos claustros da mente reina um velho triste, cinzento e só…
Rei dos seus nadas, espalha a dor do seu reino, expande o Inverno do seu coração encerrado.

Nos labirintos de retóricas vãs se diverte e encanta – e assim deixa minguar os seus dias – por detrás das grades que o protegem é prisioneiro do seu próprio drama…

E – lá fora – vão e vêm fadas sem nome.
Criaturas de pés descalços em clareiras de luar, jovens de risos claros ecoando como águas de regato – cristalinas – entre as vertentes de montanhas altas como tronos.
Livres dançam nos postes de Maio, flores novas nos cabelos soltos, olhares de luz encantados pelos rostos também jovens de jovens que se cortejam – vermelhas maçãs nos rostos da vida que se sente e se vive… não se imagina nem se define.

E o velho olha desde a sua janela – gotas das chuvas de outroras já idos, pendentes num eterno aceno – sem nunca se estatelar no chão. Gelo no seu vitral, gelo…

E o tom ríspido dos seus modos apenas encontra os risos sinceros do outro lado dos seus muros pétreos, dos seus corredores obscuros e apertados, do peso opulento de mofo e pó das suas maneiras, as suas rotinas, os seus modos sempre mesmos.

E fica-se – olhando… como se houvera uma vontade sem forma – lá muito dentro. Uma luzinha remota perdida nos tempos – que ele mastiga como um pedaço de bife mastigado pelos anos, sem nunca o ter engolido ou cuspido… e mastiga e mastiga, sem lhe dar destino… e ali fica…

Até que o desdém – vem – e o arrebata.
E as portas de Inverno se abrem de par em par – sopradas por uma fúria de dor contida; e os ginetes de sombra se esvaem entre as ladeiras, procurando aqueles que sorriem com vozes claras cantando, com braços abertos se abraçando – ignorantes da vastidão de sombras que sobre eles se abate, inocentes do juízo que sobre eles ditou a condena perpétua – oblívio pelos tempos e as histórias dos copistas, ódio pelos misóginos e esdrúxulos amantes de deuses encadeados, horror pelas fogueiras de Belthane transformadas em inquisição – de purificadoras de espíritos e unificadores da paixão, se fizeram sentenças de celeumas contra a própria força da criação.

E os costumes simples se fizeram direito romano e canónico. E as vestes folgadas e os seios descobertos foram vestidos em soutanas, hábitos e aspaventos…

E perdemos… perdemos… tudo, menos este momento. No que evocamos de novo o passado longínquo no qual fomos livres – e livres seremos.

Não tarda que Roma caia. Não tarda…

quarta-feira, agosto 23, 2006

Os ermos distantes

Entre linhas rectas e becos ocos de existência mundana,

É artista aquele que dá a sua cor ao momento, às gentes, ao encontro…

É artista sublime o que dobra a esquina da rotina e se encontra com um monumento à ousadia…

É vivo o que se desliga, e vive - como quem andasse despido

É brilhante o que se enamora - da sede, da sequia, do estio

É sincero o que sente - essa tela velha e vazia do antigamente

Tudo tons e coragens – entre vida diária espartana
Gritando sem pausa a viragem
De uma época diáfana
Para um mundo novo – com virtude, inteireza e mensagem:
Libertos das cadeias – livres dos grilhões
De escravos presos no seu mundo interno
Unidos e vivos – mente e razão

Nunca mais sós…
Nunca mais pedindo aos deuses sua esmola
Sempre vivos – nunca ausentes
Em cada passo desta escola
E – para além dos sonhos e anseios
Encontrar casa, sentir voragem
Na imensidão de um momento

E viver…
Mais do que ser parte de algo –
Ser algo em toda a parte


http://www.portnoygalleries.com/gregallen/ga3708.html

Sucedâneos


De certo que reconheces isto...

"Recordo um alguém que passeava só e viu uma mulher à beira de um poço.

Ele pediu àgua e ela perguntou se estava tudo bem com ele - pois era suposto homens não intimarem com mulheres assim - daquela maneira liberta e serena... muito menos sendo ela Samaritana e ele Judeu (Galileu para todos os efeitos).

E ele falou-lhe dos cinco homens que ela tinha e da água que ele trazia para oferecer.

Uma água que calmaria de tal forma toda a sede, que nunca mais teria necessidade de beber e beber e beber...


Talvez seja essa a fonte que se procura – “underground ou at the surfice”...

Talvez..."

Agora o poema sobre o tema:

Chocolates refinados, em caixas estilizadas, anuncio fervoroso prometendo paixão…

Brisa fresca, seara sempre viva, sombra baixo árvore de fruto em pleno Verão…

Embalagens de seda, cetim e veludo - prendas que prendem em cadeias de desejo os amantes de ocasião…

Olhares simples de sorriso tímido e nobreza de lírio embalado em majestade, sentir irmão da razão…

Peles duras de sentires rijos e pulsações derretidas no caramelo sedutor… a mosca apanhada, pela fina flor engolida, sua vida sugada, sobrando a armação…

Um gesto – por um gesto – estilhaçam fronteiras,
derretem-se angústias, se desfazem barreiras,
o gelo cede ao rebentar vida nova,
olhares se encontram entre luz cristalina,
peitos se mesclam no abraço da aurora –
o amor liberta – o desejo não…

Olhares gastos, ensaio das falas, o ditador e tirano subjugando o coração…

Gestos simples de faces coradas ao se gaguejar sem palavras… ondas que extravasam o mar… e voar… nudez viva de sentir profundo, vertigem sentida na devoção…

Ecos da inocência perdida nas feridas que sangram passados ingratos, culto do sangue e da dor… punição…

Vivência sentida na entrega em asas do sonho, dançar com pés de fada entre anjos cantando no fundo dos olhos, anunciando libertação…

Por uma lágrima – da inocência perdida à remissão…

Por uma mágoa – da vivência sentida à perdição…

domingo, agosto 20, 2006

Exile

Away from green pastures of existence, we plight amongst sorrow and dust,
Roaming towards home - broken feet, shattered heart… still, we walk.

When all around seemed as echoes – distant – from that past within,
We roamed and still endured… and fighting, from lamb to lion we came to be.

Should pointing arrows hide themselves - under vanity and despair…
Then we stretch further, thin and humble, we wondered free…

Keeping burning fire alive inside, lighting candles in our eyes,
As lit stars in heavens, is hope enduring in our hearts…

When we wonder, we stray …

Tired soul dragging,
Tired eyes looking to see,
A star of light, the golden city
Amongst shades, light on me…

When we wandered, we passed away…

As the old man – sick and tired – we walked in shades,
And with shades we struggled… now we believe…

Beyond death and torment, beyond howling screams,
There’s a voice - a silent whisper – saying you don’t belong here…

Lost as we walked - may light guide tired body and broken will,
When nothing else seems there to hold us, and everything seems pale and still;

One day we stop – bloodless and cold.
Stony eyes and wasted breath as we stare…

All the rainbows of creation, all the winds of the past
Become an echo of this moment - on it a future that will last
And all shadows that once tortured, all torments we have passed
Turn to nothing in that moment, when everything is in the heart

We were slaves

Now we are free!

sábado, agosto 19, 2006

Pegadas na Areia

Não há respostas,
Apenas as perguntas
E peugadas na areia
Com rasto de linha ondulante
Que são apagadas pelas marés

sexta-feira, agosto 18, 2006

ave W eva

I am the wave,
as the wave I belong to the sea;
I have no will of my own to be given
Giving myself I roam free…

quinta-feira, agosto 17, 2006

Water fall light

A alguém que clamou por "amigo colorido", tendo em casa carcereiro:

Tens vida…

Gostaria que as vidas jorrassem livres
Como águas de montanhas vivas
E que, juntas e livres cantassem
A verdade pura que o seu mar convida…
Assim a vida – como tua voz disse –
Seria verdadeiramente colorida

Nós desatados


“Um poeta é o ser menos poético que existe, porque não possui nenhuma identidade. Encontra-se constantemente na eminência de se tornar ou ser uma outra personalidade. O sol, a lua, o mar, os homens e as mulheres, todos estes seres submetidos aos seus próprios impulsos, são poéticos e mantêm um atributo qualquer imutável; o poeta não tem nenhum, permanece sem identidade.”

Keats

Quem fará o seu próprio prato? Quem deixará as sobras do que já não pretende? Quantos comem o que está tal como é? Quantos reinventam realidade para que seja ela a ceder a sua dimensão ausente… em vez de serem eles a enfiar seus sonhos num pedaço de forno sem lume que mantém a massa tal como era – à espera – de um algo que nunca se encena, de uma peça sem drama, de um actor sem arte, de uma máscara sem olhar?

Que o cisne caia, que uma mole de asas cortadas e penas e sangue nos abafe quando éramos antes a ave que voava…

Um cisne sem mar próprio com limites nossos – o tal lago onde se passeia com majestosa altivez…

Formas…

Veladas… nadas…

“Sweet dreams are made of Tears… who am I to disagree
I’ve travelled the world and the seven seas – everybody is looking for something
Some of them want to use you… some of them want to get used by you
Some of them want to abuse you, some of them want to be abused
”

Oiço estas linhas na mente… e vagueio…

Os que temem prendem, a mente define…

As estações não existem – o homem inventa-as na sua vã glória de mandar, na sua inconsciência… pois não há tal coisa – apenas o olhar da terra sobre si mesma, ao se mutar…

Como obedece a razão ao fragmento? Como se deixa o eterno matar
Num tal cisma, numa tal forma, num tal esquecer - num tal desejar?

Quem sou?

Os que não temem amam… amam tudo – amam todos, por todos se deixam amar…



Quem sou?
Quem queres que eu seja?
Queres que te satisfaça?

O poeta é solitário – todos vêem a vidraça – nunca ninguém entra no salão…
Todos reparam na casa, todos invejam as cores garridas, todos passam… a vida não…

Ser Apolo, ser um raio fugaz…

Mas – para além da parede caiada – haverá alguém que, para além da entrada – se arrisque a mergulhar mais fundo que o salão?

Querem espelhos, querem miragens
Querem poetas de altas paragens…
Querem almas nobres para se ver e rever – querem Narcisos em flores de água
Querem… mas a minha vida não…

E temem – oh tanto! – ficar nus, sem nada
Que de vento – uma rajada – lhes leve o sombreiro de penas e então…
Ficar nus, despidos: sem forças,
Ao se ver - olhos nos olhos - na força da vida,
E se notarem presos do medo, presos - mão em mão…

Para além da miragem… queres ver… consegues ver?

Mentiras são as que mantêm esse mundo a rodar
Mentiras são as que tornam possível andar
Mentiras a meias, mentiras plenas, mentiras veladas, mentiras de ocasião…

Mulheres que amam homens do altar para fora – que alimentam desejos e paixão…
Homens que se convencem de ser mais do que pensam, de ter sentido no trabalho dos dias, de ser grandes por que alguém lhes dá razão…

Passam – todos passam…

Em dois ou três tempos a verdade te apanha – pó és… ao pó voltarás…

Talvez – talvez haja mais…

Mas - o poeta vem e liberta – das cisões, das obrigações, das imposições… das razões…

“Polvo seremos… pero polvo enamorado” – rezava uma frase, graffiti num muro branco e triste, verdade escondida num recanto – mas verdade “nontheless”…

O poeta ama hoje, desespera amanhã…
O poeta não deseja o seguro do lar;
O poeta salta abismos inexplorados
O poeta ousa vender a alma ao diabo – para vos mostrar como sente o pobre coitado
O poeta dói, o poeta morre e renasce para que vocês saibam a miragem
De se sentirem aqui e agora – mais nada,
Para além do que possam pensar…

O poeta morre e renasce – para que - além do povo que parte
Se recorde o eco do coração




O poeta chora e treme:
Palhaço bizarro que geme,
Para logo subir e cantar
Entre as alturas de pasto, rebanhos de flocos algodoados
Onde apenas a brisa sopra sem pressa
Onde o mundo passa sem relógio
Onde tudo é nada e nada importa
Onde tudo é tudo - sem mais causa ou razão

E – para além das esferas cinzentas
Dos medos ocos, dos ecos sombrios
Passa o tempo a fazer que dorme
Passa o sono a sonhar devagar
Para despertar como semente no estio
Como brasa que soprada se inflama
Como ave renascida de entre o pó e a lama
Onde se vendem asas por vestes douradas
Onde pintamos a cara para não berrar
Com a beleza sagrada que se assoma e se esmaga
Do pequeno ser vivo que pensa e não dá…

segunda-feira, agosto 14, 2006

The Children of Light

When the world was young, as the grass shimmered with gold; when the light of silver tree and golden leaf made the warmth existence become full, before Sun and Moon where set apart… we were joy, we were pure, we were free… we were… just you, just me.

Hand in hand, over shaded grove and silent tree… delight and joy and naked feet…
Praised the Earth as you came to be… drop of space dressed in flesh… cup of the soul which I drink eagerly…

Smile opened mouths, as the warm crystal life flown from above - filling body, mind and soul – wet peace made within over shaded valley and peak of light… and we danced… and we danced;

Gold and silver as the light filled my eyes… blessed sparks… prayers of pure delight… rising to the expectant sky as the mirror of your eyes made light become alive…

Eyes fully opened to glance… garden’s gates opened wide… moment present is supreme - no past nor future to redeem… no bowed shoulders, no burdens… nothing heavier than a whisper to be carried…

Laughter echoed amongst the planes as hands glided over the new born wheat… and we danced… together… we danced…

Doors burst opened - spheres above, fire within…nowhere here… moment of honey and gold, tasted over smiling lips, lightning eyes fill this sky, grasping hands over waving tides – as wind upon the field of Spring, dancing inside you… and me… the Sea; tides of pleasure… simply being alive, endless joy without “why”… boundless space within and without… out of borders, beyond fiery chasms to hold the running deer as it pounces over the horizon… just you… just me… and the seed of all life in the palm of two hands becoming as one… as two trees interlaced… wisdom of ages brought back to life…

As a Star falling from the Sky I saw the light crashing upon the Earth’s womb…



Outcast, restrained…

The golden light fades, the silver vanes as we look back to the golden glade where embraced and pure – two human beings melt beyond all guilt… now we walk – together, but not as one - as we find our sight clutched to the floor, as shame covered joy, as torment subdued life, as punishment became the rule, as you became other than me…

And we wandered… stranded from the centre of life… thousands, billions… dark entities… so close – never as far.

And we suffered… away of true belonging… smile mocking of others burden – other’s burden as heavy as mine…
And we ignored… upon thrones of self righteousness our cold ass sited, blind Men guiding blind…

Purple and red we fashioned our kingly skin, of cold golden metal and stone we covered the gold within… tombs of white garment upon darkened heart – closed inside walls of fear, with chains of doubt, over locks of punishment…

One thing the Serpent did better – she explained extremely well, why the taste of the fruit was of advantage…

The Sin of God was to be alone for so long.
Used to command the day and night and all, he forgot his own spirit within clay would need more than commands to obey…

domingo, agosto 13, 2006

The path of excess leads to the Palace of Wisdom…



Revendo excertos… parts of shattered mirrors… souls espelhando the symphony of creation… o prazer de ser children enamoured by the bodily image of the living goddess… Hobbits threatened by the Dark Lord, risos e vulgaridades, prazeres de vida diária sujeitos to smothering under the narrow path of the imposing mind… one ring to rule them all…

De “O Evangelho Segundo a Serpente” – de Faíza Hayat:

“A minha Mãe era um ser livre. Uma ave à solta num alto céu de verão. Costumava dizer que os homens são como as chuvas, imprescindíveis à vida, revigorantes, mas quando chegam, e em se demorando um pouco mais, logo sentimos saudades dos dias de sol!”
«Reparem», dizia, «a palavra solidão está cheia de sol!»

Gostava de citar Marguerite Duras: «Não se encontra a solidão. Somos nós que a construímos». (…) Citava Tchekov « Se tens medo da solidão não te cases.» Citava Fernando Pessoa, aliás Bernardo Soares: «As malcasadas são todas as mulheres casadas e algumas solteiras.»”

“(…)assim como há sol na palavra solidão, há mel na palavra melancolia”

“Fascina-me a beleza das frutas. Frutas são formas orgânicas de luz. A luz em estado vivo. (…) Os pajés, sacerdotes ou xamãs nas sociedades tribais ameríndias, acreditam que ao beberem o ayahuasca, bebida alucinogénea preparada com o caule do caapi (Benisteriopsis caapi) e folhas de chacrona (Psychotria viridis), entram em comunicação directa com estas plantas. Acreditam que as plantas os conduzem, através das sombras, pelo mundo tormentoso dos espíritos, numa viagem iniciática.
O que significa o velho mito cristão – Eva oferecendo a Adão o fruto do conhecimento?”



“Talvez a esta serena e vaga melancolia, a esta vaga e doce tristeza, se possa também chamar de felicidade. (…) Ninguém que se beija à despedida parte verdadeiramente.”

“Invejo a tua tranquilidade espelho. Tudo vês, nada recordas.
Peço-te um retrato e devolves-me um olhar. (…) Suponho que as gémeas não precisem de espelhos. Um espelho é o retrato órfão de um gémeo.”

“Eram versos de Caeiro:
«Passei toda a noite, sem dormir, vendo sem espaço a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
(…) Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
(…) Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter de a deixar depois»

Mas porque nos apaixonamos por aquilo que nunca poderemos ter? Eu, pelo menos, tenho tendência para me interessar por tudo o que não posso agarrar: as nuvens, os arco-íris, o rápido fluxo de tempo. Um dia pensei que seria bom coleccionar arco íris. Pensei que seria bom guardá-los em pequenos frascos de cristal para que brilhassem à noite, enquanto durmo, ou alegrassem o meu dia nas manhãs de Inverno. A verdade, porém, é que se os conseguisse guardar em frascos já não gostaria deles.”



“Picasso: «Olvida usted que soy español y adoro la tristeza». Mas penso que era também o grande Pablo que valorizava a obra incompleta, porque «… sin acabar, una obra permanece viva, peligrosa. Una obra acabada és una obra muerta, asesinada.» Nunca conheci um homem acabado.”

“ (…)O que o genial arquitecto (Gaudí) dizia sobre como o sol cinzela os homens:
«As raças do Norte afogam o sentimento e com a falta de luz produzem fantasmas. Já as raças do sul, põe excesso de luz, descuidam a racionalidade e produzem monstros.»”

“Não quero surpresas. É fácil amar estrelas. Difícil é amar o próximo. E a nós mesmos”

“«Os textos são histórias», insistiu Alfonso,«um bom método é começar por perguntar por que motivo foi contada a história.»

“«Em Israel só o passado justifica o presente»”

“Sei que ela tem razão: perder a fé é perder protecção. Por onde se percorre a verdade: nas perguntas ou nas respostas?
Os Gnósticos, repetia Marcelo, procuravam Deus dentro de si, na Sabedoria, uma transcendência intuitiva:
«A salvação não é a redenção do pecado, mas da ignorância. Cristo salvou-nos pelo seu ensinamento e pela sua vida. Não pela sua carne e, menos ainda, pela sua morte.»”

“… eu sempre achei que não devemos conhecer os homens. Para não deixarmos de gostar deles.”

“Sibongile vigia os meus sonhos. «Foi a serpente», lembrou-me, «quem ofereceu aos homens o fruto da árvore do conhecimento e por causa disso eles foram expulsos do Paraíso.. Conclusão – o Paraíso pertence aos néscios».



“Sofro deste vício – leiam-me o soneto perfeito e logo tropeçarei na cacofonia escondida. Mostrem-me o paraíso e os meus olhos verão, muito para além do verde das ramagens, o fumo venenoso de uma fábrica de papel”

“FIM
(Ou melhor, o fim que se pôde arranjar. Todos os finais são provisórios)”

And now from William Blake “The Marriage of Heaven and Hell”:

“Let the Priests of the Raven of dawn, no longer in deadly black, with hoarse note curse the sons of joy. Nor his accepted brethren, whom, tyrant, he calls free, lay bound or build roof. Nor pale religious letchery call that virginity that wishes but acts not!

FOR EVERY THING THAT LIVES IS HOLY.”

segunda-feira, agosto 07, 2006

When the Lamb opened the Seventh Seal...

E o som do tambor faz tremer a terra… e o som da terra faz vibrar o tambor…

É tempo antergo em terra Cerveira… espíritos passados se tornam presentes entre bombos, folia, Zés pereiras… entre festa e algazarra…

Na praça dez homens se ajuntam – de cores próprias… tambores e bombos estremecem quem passa, ate que passa a vontade de passar e apetece ficar, ouvir, olhar, pertencer…

À roda – gregos e troianos – se deixam levar pelo rio ancestro, pelo ecoar eterno de sons mágicos… dançam connosco as tribos do passado e do presente longínquo… dançam corações que se vão perdendo das bridas… dança o desejo que se faz raiz ao escavar na terra seu ventre mãe…

E se contorcem os corpos enquanto o frémito esvoaça… esgares de prazer no poderio másculo que se elevam de faces outrora banais – régias agora, reais – enquanto o malho das eras cai e recai e descarrega sua ânsia com força na pele curtida…

E a pele vibra e revive baixo o tombo incessante de martelo patriarca, o esgar se eleva em êxtase como Zénon nunca saberia destrinçar – força irresistível contra muro inabalável, terra contra o mar…

O suor são lágrimas de corpo encarcerado em afazeres diáfanos, que do Olimpo dos comuns se eleva baixo o arquejar de tarde tórrida – e os presentes, ausentes de si, se movem já inconscientes, corações largados em torrente – bravio - ao som dos tempos ancestros… os bombos são sangue fervente… que corre, que inunda os ouvidos, o corpo, a mente… tudo.

Uma rapariga de tambor esbraceja - boneca de farrapos movida e repuxada em cordas de prazer engolindo-a em estertores irreflectidos; a multidão olha e se deleita… o fôlego prende enquanto o impossível do furor ainda se transcende… o povo grita como arvores vivas de volta ao seu chão sagrado depois de eras de desterro entre mansões frias – escuras - de prisão e verbo de forma bizarra…

E o tambor não para – coito em cúpula que atinge o clímax … são um só: gentes, homens, tambor e terra – tudo geme, tudo treme, tudo vibra, todo ejacula emoção incontida… olhos exorbitados, boca em esgar entre desejo, espanto - sorriso absorto… anseio… o povo clama, o tambor desgarra, o homem treme, a terra geme… e som termina… e o silêncio…



O silêncio é eterno… o mundo pára… esgotados os amantes todos… se aferram ao que resta do tempo sem ferros… enquanto a mente regressa em correria endiabrada, procurando recobrir o êxtase com seus tudos que são nada… e o som regressa – como um vácuo preenchido de coisas, e sons em redor – o som regressa, o vulgar som regressa… os aplausos começam, os assobios não tardam… o que sobra… é uma peugada do êxtase na nossa areia requintada… o que sobra é uma memória marcada… um algo e um algures que quase tudo, quase nada – se traz na memória do ser – oh celtas! onde vossas taças – para que as encha o hidromel de outras eras, o sabor das crianças da Terra, o sentir, a pertença, o rezar sem palavras?…



A minha verde terra arde… suas cinzas me vestem… seu fôlego me abafa, ofegante … minha terra arde…

O céu é já frio, entre o calor abafante… o Sol é vermelho sem vida, dia é noite distante… minha terra arde...

E chego ao terceiro dia, depois de ver o cadáver exangue da minha Deusa queimada, para encontrar nova luz – nova vida – por entre a noite e a morte inquietante…


quinta-feira, julho 27, 2006

Régio e Libertino

After watching the movie “The Libertine”, I sing to our beloved Cyrano with the words of my land, with a poem from a man who defies the pleasant to embrace the harsh – still only possible way – truth.

José Régio (José Maria dos Reis Pereira) – Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

terça-feira, julho 25, 2006

The Spiritual Quest - Spirit Within

The spirit within…

When you abandon yourself… something inside happens. Something starts to take control, something else lives beyond the surface… something.

Magic and coincidences become your day life.
Any resistance becomes pain.
Any step out of the edge of the sword equals suffering.
No way to avoid the task, no way not to embrace it… unless oblivion.

Still… something else exists…

By logic – if this universe advances from the abstract to the defined, the ego is directly linked to free will.

Abandoning our nature as individuals would seem to abandon free will – for good or for bad, that is what makes us humans – without it we would become part of the furniture of nature or pseudo-angelic entities flying almost unaware of the world around – and maybe this is the ending result of the process when passing from the “seed” which defends from breaching it’s defining skin in to a “sprouting little tree” growing beyond the borders of what it seemed the world beneath - inside the earth… to become tree in the world above… to give fruits… which will become seeds… which will sprout…

Still, in this mid step, there’s an "in between move" that seems to be escaping our awareness of the process.

To truly exercise the free will, we should get rid from reminiscences of reaction attached to our apparent choices and emotional response, to the magnetism with which we so much attach to suffering upon ourselves and the others, to habits and routines that bind and destroy ourselves and all around… to become fully aware is this step which follows.

This changing entity, this shifting skin of our identity grows from animal like patterns to awareness and identification to the self, from basic free will subdued to reactionary response to become free from reaction in a way we may truly feel options are taken beyond the rule of fear, doubt and disbelief.
From orbiting around peripheral emanations of the center, we start to step closer to the essence which manifests in flesh, feeling, thought and energy… that complex structure we usually call “me”…

A new age has arrived.
The changes are silent, the changes are in the inner sanctum, the lessons are brand on living flesh as the flesh itself changes from quality and links to a “higher” goal, a deeper voice beyond this little voice screaming inside trying to command and rule fed by fear and doubt.

The new era has begun – and many are experiencing in silence the mutation.
The new humankind is growing and the metamorphosis is being slowly but implacably leaded by other dormant guides, those which take us as we start to show the signs of awakening and lead our steps to the road forgotten, the path guarded by mists… the realm of the invisible…

Ruach… free yourselves

quinta-feira, julho 06, 2006

The spiritual quest - part I

This is just what I think about what I think in this moment.

Take it as sharing ignorance, trying to achieve some truth and remember how stupid and vane all possible words really are… still, how much they hold the seed of need to find and be… whatever we pursue and try to become… fully human.

Concerning mystical paths and spiritual currents… hum… “Siddhartha” from Herman Hesse… it is so beautiful and so true, so on to what I may feel about finding our own way concerning that… life.

No one may tell us how to get in to the Kingdom, Nirvana, Valhalla… they may give us advice and we may walk with them while we are learning to walk by ourselves…

But – is undeniable – as much as we share the same essence, we are also shaped in the difference… there is a reason for this – a reason which, more than fought against, should be understood.

Since the first moment – when the “Ejaculation” of light filled the “Black Lady” with time and space, there started the variation.

If as in the Kabbalah, or other system - we can imagine a “big bang” theory - noticing something when the first moment starts and the energy starts to “fall” in to lower levels of “heat” and complex levels of material structure (heavier): the difference was there since the beginning or all the decay of energy in to matter would give as final result the same pattern everywhere – no fluctuations… but this is not what happens. We have differences… we have us…

In other words (sorry by theoretic explanation of mystic and modern science about the universe, god and our nature): there is a singular path that belongs to each soul.

That path may (and I guess it always is – no human being is born alone… so possibly we do not die alone unless in our heads) be shared, but will be kept unique until the last moment, until there’s no more need for difference…
Sharing means difference in the sameness.

Resistance from the soul is not the same as resistance from the ego.

The ego guards the feeling of attachment to this realm, the soul guards our essence and it’s right to be as it is until it is no more… the will can’t take over this – should accept this.

Systems of politics, religions or the new things of spiritualism they try to bend the soul in to fit on a common path supposed to work to everybody… this is the direct result of any revolution – it makes the system it raised against stronger.

While we don’t learn this lesson we will not embrace our full essence: a reaction only causes another reaction… and maintains a chain that loops upon itself.

The revolution of humanism made science a stronger dictatorship than religion.
The revolution of spiritualism threatens to purge us from the only possible way to enter the door… that is – love. Human common love!
Nothing higher than this… just theories and fairy tales invented by oligarchs to enslave people behind some leader, economical or political and religious manipulation…

Hope was purged by science as much as faith was purged by religious politics on the past.
Faith was transformed in to a hollow game while hope has become a piece of a cage made of oblivion and rational explanations.

Now spiritualism is washing away love, until humans become aseptic beings walking indifferent to their own nature, following laws of “Karma” that – more than healing – wound by distance.
Are We to become a race of machines programmed under direct stimulation and lack of other references beyond the “dome” we are trapped in.

The “working classes” are directed by fear and ignorance.
The medium high by this “washing” as well as refined and controlled codes of behavior and moral - so they simply do not care anymore about the state of things and people around if they may keep their “doses” of existential analgesics.

Some of us – even in spiritual environments – make time a prison… more than a measure of quality it becomes a measure of quantity.

People keep being the same years after years… since some groups work as an analgesic, they erase the need to face the things that bother us or the feeling of lack we have inside… analgesics for existence (a direct result of our culture).
And there is no “laboratory” way to face something unless facing the real thing (or it is as a “surgery” on allopathic medicine – it takes the affected organ or part of our life out but it doesn’t heal the cause of disease).

The only change on these groups or tendencies comes from one spiritual exercise to the other, from one spiritual experience to the other.

As drugs – we need other things, other books, other courses… we think we are being filled with “light” when – if we look in the mirror – we are doing the same mistakes (though – as we do it “spiritually”, we don’t even notice that is the “vibration” that generates the word more than the word itself that comes from our mouth the one that wounds).

In other words – we learn to erase the traces of the loss by changing the name of the things (instead of hate we say “friction”) and things seem washed… we feel the same but name it different, so we evolved… do you think?

We don’t acknowledge we keep “reacting” more than acting fully aware.

We don’t understand that – if situations keep happening in our life, that is because they keep bringing a lesson – independently we may think the lines of the book of righteousness were being followed – there is a book greater than any book… it is called life.

domingo, julho 02, 2006

The disease of love…


Before any other cancer of the wounded heart upon the suffering body, the disease was brute temper over sensitive feelings…

The first time… how long ago?

The first kiss – when all the tender and soft silk is invaded by knowledge and fashion, shaped in false security and movie kind of sentences…

When we dream with gentleness just finding heat, desire and a solid rock shaped to roll over us as a bulldozer upon a rare blossom amid the decaying walls of an old building…

When the other was not there to listen carefully to all our dreams, to all our openhearted will to give body, mind and soul…

Smashed against the wall of the time filled with emotions, under the weight of lives so wasted by repetition they became numb to their own craving hearts…

The simple gesture of a kiss becomes the top sales from a Versace shop list of desires, the ultimate devotion on making love in to a mechanic roundabout of a blind body to a deaf soul in a tragicomic act of fluids and flesh, of hollow words and empty hands holding air more than heart…

Then – we cry… in loneliness we cry.
I was not seen I was not touched, I was not held in hands which could be home…

Then again – not learning the lesson of the voice within – that cries “Not now, not this, not this one…”

Fashions, vanity of males around, female souls as numb as the male chunks of nothingness we all are so used to hear about… human beings are so strange…

One day you rebel… one day you say “No more!”…

One day you dress the first part of the armor to be… and a part of you was already lost…

Then – you go.
You try to fear no more.
The armor guards the heart – now you may step further – now you may search…

The red lights are on, the warning is all over the place… but you keep trusting that – one day, one beautiful day – you will find home…

And you keep going, and challenging – unaware the armor is becoming thicker, unaware it is full of thorns, unaware it is hurting as much as – one day - soome unaware soul hurt yours…

The intuition says something is wrong – that you are feeling more and more alone – though, fame and people are more and more around, that you attract so easily people… so lost as you…so numb…

Until you start to feel scared… you dream about a saving angel that may return to you all the innocence, all the dreams… that heart numbed by tears inside… returning in to life…

You look around, on the place you were born, around all those you knew from the past… old, used by themselves so many times they forgot what they really were searching for… armor so thick they need to be beaten so they still feel alive…

By each of these “bulldozers” another two wounded souls are born… and we only may trust… trust that – love – won’t give up on us… no matter how thick our armor may be and no matter how wounded the heart is…

Hope is the last thing we hold, the only that may keep us human, the only that may keep us truly alive…

Watching an Italian movie “Melissa P.” and remembering life as it was…

sábado, julho 01, 2006

Cyrano

Cyrano… my friend and devoted spirit, who dwells inside hearts by themselves rejected , hiding nobleness beyond doubt and love beyond the appearances of the times passing…

I want to sing thee all the admiring songs inside of me, all the beauty you could not see, all the proud you held so free, all the life you gave made poetry …

As a poet wishes to endure within all the words , may I become rhymed in what my heart knows but my mind denied…

Since language was meant to heal, the wounds of past offense done to might within, lets free the spirit – lets set it free – lets love beyond the bounds of speech…

Que el lenguaje nunca fue señor, de todo el don que mi alma lleva, de todo ardor que el viento clama, de todo este mar – profundo en pena…

Por eso me hago como brisa ajena, que sopla libre sobre tierra yerma, que desafía el tiempo y se hace bella, hasta dejar desnuda el alma amena.

Por rima y verso me entrelaza el arte, por sobre el tiempo me conduce aparte, hasta el fondo de un mar sin nombre, hasta dentro de un mundo noble…

Y poder sin duda encuentro ahora, y calor sin llama que el ser añora, y sonrisa amiga que guarda el templo, donde yace el oro de mi corazón sereno…

Ahora – a ti vuelvo desnudo y frío – sin más consuelo que pena y rima, sin más morada que el eterno castigo, de caminar errando sin hallar destino.

E se entre quinas e orbes celestes, se pudesse cantar meu sonho esquivo; se entre a bruma se esgueirara a chama - de esperança fútil, de amor beijada - seria livre para repousar meu peito, em mais do que sonhos, em pele amada…

Mas duvido e sofro por não ser visto, detrás da máscara há sempre o estranho, baixo a couraça a carne abrasada, pedindo o toque que de vida os refaça.

Rima é perversa, pois enclausura nas voltas o entrançado caminho da alma aspirante, da vontade que busca com tacteio hesitante, a porta perdida para o reino errante…

Por ventura musa de ecos velados, de sonhos perdidos nos versos, deslizando sem graça por entre as folhas bizarras de papéis que não o foram e de relações que não passam…

Foi a vida a cruel ou cruel foi o cego - que espezinhou canteiros floridos ao saltar sobre os átrios - procurando conforto nos reflexos de lua entre lagos despidos, quando estava ela Lua longe – lá no alto - no nada?…

Quanto mais perto me encontro no deambular tresloucado, mais a Lua se esconde no seu estranho fado, de mingar lentamente com véu de sereias, desde a face alba até breu que me apaga…

Por isso anseio pelo lar perdido, mas deambulo errante em duvida prendido: como um estranho lume de chama dourada, que ruma a casa mas de casa se afasta…