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terça-feira, junho 02, 2009

... de Regresso


É curioso como se processa a vida, as maneiras como se manifesta, interrompendo os nossos cálculos bem elaborados, os planos traçados acerca da sua forma, extensão e términus.

No ambulatório era um dia como outro qualquer. Saúde de adultos, sorrir para as caras costumeiras, orientar umas consultas de cardiovascular ou diabéticos, realizar alguma que outra marcação de consulta em planeamento familiar...

O Homem entrara célere, rosto algo assustado, mão meio encharcada em sangue. Pensei que se tinha enganado e em vez de recorrer ao serviço de urgência, tinha entrado pelo corredor, perdido no meio das pessoas que aguardavam vez.

O pedido de ajuda esclarecia tudo. A sua mulher estava lá fora no carro e, com sete meses de gravidez, esperava a saída do rebento para um mundo em bulição.

Resulta complicado o adivinhar a razão de ser para um ser humano abandonar a paz e tranquilidade do espaço uterino e enveredar pelos caminhos deste lado do espelho. A saída forçada traz a consciência para um Universo que a não acolhe com boas maneiras; o caminhante precoce, em seus primeiros passos entres dias e noites, terá de sofrer antes de ser afagado pelo abraço terno dos braços maternos.

A esposa, jovem como ele, encontrava-se no carro. Respirando com alguma rapidez, pés apoiados no “tablier”, pernas afastadas em posição habitual para quem passa numa qualquer maternidade.
A menina, que depois se chamaria Teresa, decidira furar os cálculos dos pais em férias, arribando mais cedo às praias populadas de gente neste mundo bizarro.

Todas as semanas passam recém nascidos pelo nosso serviço. É sempre bom pegar neles ao colo e sentir a paz e serenidade que irradiam. Depois vem a inocência de se contemplar um mundo novo e mágico, em constante mudança e a alegria contagiante que as crianças, nos seus primeiros anos de vida, vão lembrando aos que por cá andamos à algumas Primaveras. Por isso penso, que a consciência vem de algum lugar mágico e sereno, onde a alegria é ubíqua e a paz impera. Quando voltamos a esse lugar mágico, vamos ficando novamente crianças, depois bebés de colo. A consciência mergulha novamente no sono subtil de onde viera e a serpente morde a sua cauda num novo devir.

O pai conduzira com uma mão, a outra apoiada na cabeça da filha enquanto esta procurava entrar, ao som das ondas uterinas, num mundo cheio de luz.

Apenas houve tempo. O Centro de Saúde em peso viera cá fora contemplar o milagre, como pastores num qualquer presépio de Natal. Alguns de nós trouxeram lençóis e, como se de uma peça de teatro se tratasse, cobrimos com um biombo a sala de partos improvisada. Duas médicas e mais uma enfermeira ficaram dentro do carro, ajudando o parto. O pai, do outro lado da cortina, andava de um lado para o outro enquanto o povo expectava a chegada da nova vida... O berro não se fez tardar, a Teresa veio à Luz de forma plácida, sua mãe oferecendo com calma o fruto do seu ventre.

O parto não é um momento lá muito belo. Nele se confundem sangue, secreções, força e dor. Uns e outros empurrando a nova vida para fora do sepulcro vivente. O grito de triunfo da vida sobre o silêncio apenas é eclipsado pelo silêncio do primeiro olhar entre mãe e recém nascido.

Silêncio cúmplice numa relação íntima como não há outra, vida com uma vida no seu interior. Magia e embelezamento do primeiro olhar da Teresa para a mãe envolvendo tudo e todos neste momento auge.

A Teresa foi depois até Viana, onde os exames demonstravam que tudo correra pelo melhor. Um mês depois, fora o pai que a trouxera novamente em braços, para nos mostrar o linda que a cachopa era e o quanto estavam os pais agradecidos à equipa do Centro.

Fora um parto bizarro, dentro de um carro e à porta do centro de saúde. Fora um momento belo, no que a vida nos dera mais uma lição acerca do quanto ainda desconhecemos sobre a sua forma de ser e do quanto temos que aprender enquanto caminhamos nos dias e noites deste mundo.

Entretanto, a Teresa já deve ter nove anos, já deve falar e gracejar com a história do seu nascimento. E é que a sucessão de uns pelos outros é lei e nós apenas podemos olhar e sorrir; as folhas vão sendo substituídas por outras, na árvore de uma vida que não revelou ainda todos os seus mistérios.

segunda-feira, junho 01, 2009

Passagem

Era início de tarde, um início de tarde como qualquer outro. Logo depois do almoço estávamos a fazer visita de Enfermagem no domicílio. Uma utente que se tinha mostrado alerta e activa tinha definhado, até ser alguém semi-consciente num mundo que gira depressa demais para se acompanhar.

A história de vida desta senhora girava em volta do filho. Desde sempre levantara obstáculos à relação com a nora. Protectora, fizera esforço para que a relação não funcionasse e ele estivesse mais perto; no fundo o amor de mãe é complexo...

Agora, acamada e só, havia caído nas mãos do destino e a sorte ditara que fosse cuidada pela mesma mulher que outrora rejeitara... e parece que aquilo que se ama, tal como aquilo que se odeia, é atraído para a nossa existência com igual intensidade... talvez por isso seja mesmo melhor o amar.

Quando chegamos nesse dia, a família estava presente. Ele e ela estavam ali, sem saber o que fazer. Enquanto falávamos e nos explicavam que ela estava fraca, o inesperado aconteceu e a idosa começou a esvair-se no seu leito.

A minha colega, que havia aprendido sobre a dureza da vida da forma mais dura, desenvolvera uma sensibilidade e à vontade que surpreendiam. Uns anos mais tarde, também ela partiria, derrubada pelo cancro.

Nesses momentos ela foi senhora das circunstancias. Convocou o filho para junto do leito. Enquanto havia dificuldade em se conter as lágrimas, ela lá foi dizendo ao filho para agarrar a mão da sua mãe, falando-lhe suavemente.

Nesse momento, um quadro de traços bizarros ficou gravado na minha mente – era a primeira vez que eu via alguém partir.

A nora chorava, já para lá do ressentimento. O drama humano revelava o seu sentido baixo a máscara das lágrimas não contidas.

O filho agarrava docemente a mão da mãe, como se os papéis vitais tivessem sido invertidos e agora fosse um quem protegia e acolhia e a outra quem era cuidada com carinho e ternura.

O corpo da mãe entrou em convulsão, enquanto a vitalidade se esvaia no sono da inconsciência. Ela partia nos braços de quem tanto amara e, no último instante, era revelado o sentido de uma vida de desencontros.

Eu assistia, ainda recém formado, na estranheza de um cenário para o qual ninguém me tivera preparado anteriormente. Há coisas na vida que apenas se aprendem com a vida – e a morte é uma delas.

A partida, o momento de se despojar da existência e ir, o deixar-se levar pelo desconhecido, era um momento de viragem para o qual ninguém parecia preparado. Apenas a minha colega, no centro dos quatro caminhos que se cruzaram por momentos num só, agia como maestro de uma orquestra de sons esbatidos, ela sim ouvinte de uma voz secreta, no interior do ser(se)humano que lhe segredava de forma inaudível como levar esta situação a bom fim.

Assim ficamos, até que o corpo deixou de se desdobrar baixo o peso da consciência que o abandonava. Assim, em silêncio, até que o tempo voltou ao seu vagar costumeiro e o resto do processo foi consumado.

Sempre lembrarei esse momento no que se assiste a família ao passar de um ser querido. Ai sim, verdadeiros Enfermeiros, cuidadores da pessoa e família como um todo.

sexta-feira, maio 29, 2009

Histórias

Histórias...

... de vida, que ninguém ouve, mas que permanecem.

O marido tinha sido invisual, dez anos atrás tinha-o visitado a ele por ocasião de uns tratamentos numa ulcera na perna – coisa corriqueira. Já na altura apoiávamos a filha do casal que, com paralisia cerebral, la ia estando exposta - como santa de veneração doméstica, no altar do hall de entrada da casa bem cuidada... tudo era bem cuidado naquela habitação... os móveis pulcros, o chão asseado, as couves, batatas e árvores de fruto do jardim... o marido e a filha... tudo bem cuidado e arranjado, tudo como deve ser.

O tempo tinha vindo e o marido não resistiu à sua passagem. Ela, no entanto, resistira à tempestade como uma rocha se ergue sobre o mar em fúria: impávida.
Lá começamos a tratar-lhe a ela uma ulcera venosa, na mesma perna e no mesmo local que outrora o marido exibira: brincadeiras da vida.

Com o passar do tempo começara a ficar vergada, seu corpo curvo como haste de arco que já não disparava flechas para o futuro incerto. Mas a vontade inquebrável seguia, e o seu tom austero mantinha as distancias, como ela mantinha as distâncias dos vizinhos e outras gentes da freguesia.

Chegou a vez da filha. Tal “como uma santinha” ela se tinha esvaído e como uma santa a queria ela enterrar.
Encomendou umas vestes brancas, véus para uma cerimónia de bodas com o criador.
Ela mantivera a altivez oculta, na forma dobrada do seu corpo cansado. Como uma vela sem cera ou pavio, assim se tinha esvaído a rapariga mulher de mais de cinquenta anos.

Umas Lágrimas e o luto mantido haviam sido os rastos que deixara a passagem da filha na areia da sua vida.

Nas manhãs de inverno, por vezes demorava-se mais de um quarto de hora até nos abrir a porta. Desta vez tinha uma vizinha amiga, ou uma amiga vizinha, que lá lhe trazia a bacia de água baixo as ordens imperiosas de quem está habituada a mandar. Enquanto lhe desapertávamos as ligaduras ela lá mergulhava a perna na água e – com ou sem indicação clínica – ela lá ia fazendo o que queria e achava necessário, enquanto olhávamos impotentes para a sua exibição de rainha sem reino ou súbditos...

Cada vez mais dobrada e só, lá vinha no nevoeiro da manhã abrir a porta do portão trancada à chave, pois os tempos não estavam para as confianças do passado – com as suas portas e portões abertos.

Agora vai já na terceira família à que tenta deixar como herança - pendente da sua própria vida - a casa e o terreninho onde viu a vida passar.

É a terceira vez que a abandonam e que tem de refazer o testamento para ver se alguém fica e dela toma conta...mas ninguém se deixa ficar e todos passam sem olhar.

Um AVC?! A dona Clotilde teve um AVC?
Sim, lá vai dizendo a colega que a visita numa Unidade dos novos cuidados de saúde Integrados. “Quando fui fazer visita com as voluntárias da paróquia encontrei-a lá. Segue fina e rija como costume”.

Depois do primeiro AVC, a coisa repetiu. A Clotilde de corpo vergado como um arco sem flechas para o futuro, ficou com a memória e a vontade vergadas de igual forma.

Agora visitamo-la – já não há úlceras no seu corpo cansado – mas a vontade e a força de outrora não conseguem vergar a vontade do tempo. Como uma menina desvalida nos olha, enquanto a Enfermeira de reabilitação procura verificar os estímulos que percebe no lado do corpo afectado. Hemiparética e hemiplégica parece ser o veredicto.

Ela lá vai olhando, olhar espantado, enquanto lhe falamos para ver se nos recorda. Lentamente, passo a passo, lá vai balbuciando uma lengalenga pouco estendível...

Talvez seja a música dos seus dias e noites, agora relatados pelo olhar de uma criança que nunca deixou de o ser – apenas esquecera as músicas que cantava enquanto saltava à corda em dias de outrora. No fundo, no fim, voltamos a lembrar o início de onde viemos. Ficamos frágeis como sempre fomos, nos braços que nunca deixaram de nos cuidar...

(Por questões de sigilo profissional, o nome da utente foi alterado. De resto, a história é bem real)

quinta-feira, maio 28, 2009

Campeões



Chegamos ao estádio do Cerveirense porque um dia pensei mostrar aos miúdos como era um estádio relvado. Encontramos gente fantástica que nos convidou a jogar – e jogámos!

Alguém se ofereceu para jogar connosco e lá começou a haver um treinador.

Depois arranjaram chuteiras para os miúdos – e eles deliraram!

Contamos com a ajuda do Armando, um veterano incansável dando tempo e fôlego para que os miúdos corram e se sintam heróis das quatro linhas…

Hoje fiquei no banco dos suplentes. Estava calor e armei em “finório”; habitualmente eles lá conseguem que eu calce umas chuteiras e que corra o campo de lés a lés… o que aqueles rapazes não nos fazem com o seu entusiasmo…

Enquanto via como se desfaziam pela bola, comentei que agora o tempo era mais difícil de gerir, cada vez dando-se mais para o trabalho que se fez competição.

O Eduardo, que é o contínuo do estádio do cerveirense, estava ao meu lado no banco dos suplentes. Lá nos riamos das caneladas do Tiago, da vontade de ir a todas do Rui ou das fintas do Luís. Ele comentou, como se não houvesse margem para dúvidas “Mas compensa, ver a alegria deles compensa bem o esforço”.

Fiquei em silêncio. Ás vezes as observações mais simples são as que trazem mais verdade; às vezes as pessoas simples, em gestos simples, trazem mais verdade ao mundo do que todas as elaborações mentais dos eruditos… eu, pelo menos sinto assim, e nesse momento senti-me pequeno perante um olhar tão profundo da realidade dos nossos pequenos grandes heróis.

Um abraço para a gente do Cerveirense, que cede o seu espaço, o seu tempo e suor para que os meninos do projecto possam sentir a alegria dos grandes jogadores num estádio de verdade. Hoje, o dia sorriu e teve rostos vários à volta do futebol.

Eles foram o Ronaldo, o Liedson bem aqui ao lado... o sonho das crianças alimenta a realidade dos adultos.

sexta-feira, maio 22, 2009

Os palhaços da vida



Hoje enfileirei por mais uma sessão de rastreios em prol de uma associação humanitária. Quem dá o seu tempo a troco de nada, quem se oferece para dar assistência mesmo quando a sua própria vida corre perigo, merece tudo o que se possa dar – chapéu para os soldados da paz. Estes são os meus “5 cent. de euro” para a vossa causa…

Calhou de ir parar a uma freguesia pequena. Num café, lá se ia atendendo como se pode. A um dado momento, vem uma senhora de negro, dos seus quarenta e poucos anos.

“Toma alguma medicação para o colesterol, tensão ou diabetes?” – pois o rastreio é mesmo nestas temáticas. Ela lá olha, olhos de vermelho, esclera injectada em sangue; pesar no seu olhar… está a tomar comprimidos para a depressão… que bem te conheço mulher!!

E, tensa, lá vai confessando que, se os valores da tensão, do “açúcar” e do colesterol não estiverem bem, ela não sabe que mais fazer. Cumpriu tudo o que mandou o médico. Cumpriu bem.

Há um olhar de reconhecimento partilhado enquanto o elemento da mesa aponta os valores num cartão. Sai uma piada fácil; ela sorri… eu também. O rosto pesado e macilento dá lugar a algo que irradia. Consigo ver a sua face pela primeira vez; talvez ela veja a minha. Ela já não de preto e eu já não de bata branca.

Rimos; nossa voz é gargalhada, ainda que na alma haja pranto.

O meu mais sincero obrigado aos bombeiros, por tudo o que fazem no dia a dia. E obrigado também a todos os palhaços que vão enjeitando horas difíceis; como um Benigni numa vida que muitas vezes não é bela.

quinta-feira, maio 14, 2009

Saudades...

Ainda anteontem estava a ver uma médica a trabalhar, enquanto esperava no gabinete por um qualquer papel que facilitasse a vida de algum utente meio perdido entre horas e obrigações.

Conheço esta profissional faz alguns anos; sei que é humana e muito carinhosa com os seus pacientes. O tom de voz era o mesmo, a tentativa de entrar em contacto com o utente era a mesma… usando o mesmo timbre maternal lá ia teclando, conferindo no monitor se a informação estava correcta…

“Agora vai levar estes dona Emengarda, sim?” e lá ia fazendo um monolooongo, falando para o seu ecrã de computador; impressora vomitando papéis com códigos de barras, enquanto a senhora idosa olhava com cara meio estranhada para a profissional que escrevia e escrevia no seu teclado, caçando de vez em quando ícones na tela iluminada com o rato de mesa…

Será necessário pensar que talvez seja imperativo o ser licenciado em dactilografia, doutorado em funcionamento de impressoras e manutenção de “hardware” ou mestre em programas de suporte à prática dos cuidados para ser bom profissional...

Saudades…

Do tempo no que a consulta era simples… duas pessoas – ou mais – cara a cara, duas realidades que se entrecruzam, dois mundos que se entremeiam e dos quais nasce um mundo novo… era o "relacionamento empático" que promovem os cuidados de saúde primários; tempo para ver, ser e ouvir sem mais delongas ou impedimentos do que aqueles pautados pelo senso comum. Ouvíamos histórias de vida e família, pegava-se em bebés ao colo ou conversava-se com crianças que vimos crescer desde o momento no que entraram na vontade de seus pais.

Crescíamos nós como profissionais e expandíamos o ser como pessoas…

Chegaram os cálculos de materiais, os cálculos de rácios, as estatísticas médias em termos de tempo de atendimento, tipo de cuidados prestados… enfim, o relacionamento terapêutico começou a obedecer mais aos números do que às humanas condições e a pessoa ficou obstruída pelos cifrões…

É dado assumido que estamos em época de crise (de valores talvez?!?) e que impera a lei do “vale tudo” para os funcionários: que o “carcanhol” é contado ao cêntimo, os lugares de trabalho calculados por rácio e os atendimentos pautados ao minuto.

Mas, no meio da guerra de trincheiras de lutas de classe, de lutas entre classes, de guerras sem classe… serão os utentes beneficiados com tudo isto?

segunda-feira, maio 04, 2009

Só o Amor




O Homem sofria; podia-se dizer que agonizava...

Naquele lar, ainda que todos estivessem lá nos seus últimos dias – às vezes anos – alguns sofriam mais do que outros... este era dos últimos que são primeiros.

Estava abandonado – mais um caso da segurança social... nenhuma visita, nenhum sorriso que trouxesse algum calor à sua rua deserta e fria, o lugar por onde caminhava desde há meses nas esferas mais exteriores da existência.
Fora maltratado pela família – um olho sempre rasgado, o mesmo que agora sangrava lágrimas de sangue em cada grito de dor física e não só...

Com uma sonda nasogástrica no nariz – aquele tubo que trazia, à rebelia, pedaços de alimentos deglutidos na máquina e directamente para o seu estômago cansado; mãos cobertas com meias para não arrancar o tubo que o obrigava à vida; para não desfazer as fraldas e pintar o quadro negro da sua existência; para retirar os pensos que mantinham as suas carnes flácidas ainda “com alguma dignidade” nesta vida...

Joaquim, com os seus 57 anos, partilhava o quarto com Manuel; juntos perfaziam mais ou menos as mesmas primaveras.

Um berrava sempre que se entrava no quarto e se destapavam os lençóis... talvez recordando a soma das dores já tidas ou berrando desde dentro do túnel negro onde naufragava a consciência da sua existência.
O outro, dizem-me, que chorava com ele no início... agora apenas nos perscruta, olhos arregalados, enquanto se faz o que se tem de fazer...

“É alguma coisa da cabeça”, dizem umas - as auxiliares, enquanto a cara permanece coberta por um lenço e as compressas amparam o sangue que escorre do olho... “Óh Cristo, não derramaste tu também lágrimas de sangue por nós?”…

Supõe-se que está terminal: “O Joaquim hoje tem cor de morto”, diz uma ao seu lado... mas, logo que me achego – mesmo com palavras de conforto – e destapo os cobertores, começa a berrar... não há terminais que berrem assim.
Este homem ainda tem vida a vingar dentro de si…

As úlceras são a coisa de costume – peles e tecidos que já se negam a fazer a sua função... mortos desde dentro abrem em chaga e morrem – ou “necrosam”, como dizemos nós – e deve-se cortar, promover a “autólise”... eu seu lá bem mais o quê, enquanto o homem berra a sua dor muda...

A Jacinta chegou lá no final do penso.
Está de férias no lar, mas eu tinha dito que hoje - e durante mais um par de dias - ia passar por lá para “fazer uns pensos” e “dar umas injecções”, enquanto a minha colega está fora.

A Jacinta nunca ocultou a sua simpatia para comigo; hoje, por acaso, estava lá...

O tal Manuel - que perdera o juízo mas ainda se lembrava dos nomes das filhas - saudou-me com um “Hoje parece um artista!”... vá-se lá saber o saber que um ser destes conserva no seu interior... só a vida do Manuel já dava um filme... por isso é melhor vê-lo a “duas dimensões” para não mergulhar na sua vida e ficar preso nas teias da emoção…

A ela – a Jacinta - o Manuel saudou-a com simpatia, falou três ou quatro frases complexas, numa conversa normal... os loucos, no fim, só falam para quem os ama... ou para quem sabe amar; digo eu.

O Joaquim abriu o olho são para ela mal ouviu a sua voz... “Ele disse-me «olá» no outro dia” vai ela discorrendo (mas o homem não estava “terminal”, com uma patologia oncológica degenerativa e terminal a nível cerebral?!?). “Foi quando o sentei e lhe cortei o cabelo, ai não!”...

E fiquei assim, sem poder articular mais palavras do que “pois é”; no fundo, quem ama, sabe e os seres humanos respondem mais ao amor do que a técnicas... as últimas são prás máquinas – nós inventamo-las!

O primeiro é para nós – e foi esse quem nos inventou...


(Os nomes dos pacientes e da auxiliar foram alterados, a instituição não é referida pelo nome, de resto a história é real)

O Dom de "Ouvir"


Ouvindo as ondas, vejo o Oceano; Ouvindo o mar sinto a vida;

Contemplo a tela vivente que se depara em frente, sinto o que nela se passa; precato-me de estar vivo!

Concentro a minha atenção num sorriso de criança, numa vaga que esbarra na rocha, numa gaivota que paira sobre as ondas... e sinto a sua vida! Um caleidoscópio mágico onde a tela se desdobra consoante a atenção nela depositada...

Negar a sua existência é negar a vida; amar a sua essência e aprender das suas múltiplas leis é um trabalho delicado que, na prossecução, exige força de vontade e perseverança.

Delicadeza ao ouvir e força de vontade ao avançar; subtileza ao escutar e perseverança ao realizar; definição ao perscrutar e coragem ao concretizar; inspiração ao ouvir e compreender enquanto que sistematização e plano ao empreender…

Só o Amor Salva



Só o amor liberta, apenas o amor remove as cadeias que agrilhoam o ser.
No abismo da loucura, apenas a luz do amor penetra; na mente caótica, apenas a inspiração nos transforma em mais do que simples seres animados;

Só o amor é verdade, pois entre as sombras a que chamamos “mundo” apenas o corpo vivo do amor deixa rasto nas areias do tempo... tudo o resto é pó;

Se a inspiração desce sobre ti, eleva-te por força e vontade e ajuda a que o sonho que te foi dado se faça realidade;

Sê livre... compromete-te!

segunda-feira, abril 27, 2009

O "Dom"


Cada um de nós é um “Dom”… milhares de milhões de anos para que o Universo tomasse forma auto-consciente e se precatasse de ser um “eu”...

Cada um de nós já foi uma estrela: brilhando e consumindo seu ser até se transformar em carne; de Hidrogénio e Hélio a coisas de Carbono… o caminho que já percorremos!

Cada um de nós tem um “dom”… alguns são “perseverança”, outros “entusiasmo”, alguns são “jovialidade” outros “criatividade”. Alguns são “compromisso” outros são “variedade”…

Alguns caminham em linha recta enquanto outros ondulam nas páginas do real.

Alguns iluminam os tons cinza enquanto outros amansam a tela em tons azuis ou verdes; alguns outros brilham com luz própria em tons encarnados ou amarelos…

Na pintura da vida diária - na partitura do ser - somos tons, somos sons, somos pequenos pontos no quadro da existência onde o “maestro” nos vai tocando ou o “artista” nos vai pintando sem que nenhum saiba ao certo o seu lugar… mas somos parte da “grande obra”, somos gotas no grande Mar…

É certo! Já fomos a luz de uma estrela e somos um dom ao iluminar este Universo com milhões de olhares que o vêem, que se revêem em prismas cada vez mais complexos e coloridos – faces de um diamante vivente que projectam novas realidades na estrutura do real…

És um “Dom”, tens um “dom"… nunca te esqueças disto!...

terça-feira, abril 21, 2009

Os Sons da Vida

O sorriso de uma criança, a chuva numa tarde de Outono, a brisa por entre os galhos num ocaso silencioso…

Sons que ecoam na alma e que todos levamos já dentro de nós. São estes e muitos outros sons que nos motivam a sonhar, que se fazem sonho e que nos elevam ao caminhar. Agora, mais do que nunca, presos entre rotinas – devemos sonhar!

Talvez tocar aquele instrumento que nunca tocamos, pintar aquele quadro que nunca nos atrevemos a pintar, escrever aquele poema de amor que ficou no tinteiro desde a juventude… necessitamos sonhar, pois é assim que se combatem os pesadelos da vida.

Um abraço de esperança por entre as linhas do real – reescrever realidades e fazê-las virar sonho, reencontrar sonhos e fazê-los reais. Com a delicadeza do voo de uma ave, com a força de um furacão; uma vez encontres um sonho, não o deixas da mão – agarra-o com toda a força e faz deste mundo um lugar melhor!

Sonha a realidade e ajuda a que esta esteja mais perto do coração. É um pedido de amigo, é uma mensagem de remissão.

The Soloist

quinta-feira, março 12, 2009

Difícil de compreender… como Amar





Era um dia para acompanhar os jovens do projecto, durante um tempo que lhes permita divertir-se, sonhar e estar para além das fronteiras que a vida diária lhes impõe.




Por motivos vários, cada um dos meninos do "Projecto" está longe das suas famílias e o "Projecto" procura dar-lhes um lar com tudo aquilo que lhes falta.



Estávamos a jogar futebol ao ar livre, chegou um pai com o seu filho de uns quatro ou cinco anos. Jogámos todos juntos. Outro pai e outro filho se nos juntaram e assim já éramos oito a gerar a ilusão de estar juntos, de cooperar para um mesmo fim e de nos divertirmos a tentar...



Tudo correu bem até que dois dos jovens se pegaram.



As crianças do projecto estão longe da sua família biológica. Os mais crescidos têm algum grau de atraso no desenvolvimento.



O Sebastião é bem emotivo e revela, em certas ocasiões, uma maturidade emocional que tira o fôlego. Desta vez procurava leccionar o André e fez o seguinte comentário:
“Lá na escola, quando os outros rapazes me chamam «deficiente» eu também não lhes bato, faço de conta que não oiço e sigo”. Fiquei com estas palavras gravadas.



Andamos nós a brincar a ser adultos, quando crianças num projecto que lhes dá acolhimento, com algum grau de atraso de desenvolvimento, afastados das famílias por motivos vários, podem ter este grau de consciência e agir com tal grandeza perante um mundo hostil, que julga e se julga melhor do que elas…



São estes pequenos detalhes que fazem acreditar, que fazem não desistir quando as ondas são muito altas e parecem querer afundar o barquinho da existência.
Suponho que é difícil compreender como o meter os pés na água do mar pela primeira vez ou jogar futebol durante meia hora num campo relvado, podem trazer tanta felicidade a gente que é tão pequena por fora mas já tão grande por dentro.



Como tudo, é difícil de compreender, mas – no entanto – do mais verdadeiro que há.



Bem haja
*(o Nome do Projecto em questão assim como das crianças foram omitidos ou alterados para proteger ora a instituição ora as próprias crianças que nele se abrigam)

domingo, março 01, 2009

Voar nas Asas do Vento




Voa nas asas do vento, chora um bocadinho, por tudo aquilo que vai passando; ri também por tudo o que cá dentro vai ficando – guardadinho a sete chaves, no cofre do coração.


Perde-te para encontrar tudo o que tens amealhado ao caminhar, demonstra quem és!


Caminha, constante, seguro; caminha…


Os amigos no caminho são muitos e as dificuldades são os montes e vales que ajudam a saber quem és – não és fraco nem forte; simplesmente és…


Deixas de querer provar o teu valor, reduzes o frenesim de querer correr; começas a confiar, a caminhar, a apreciar uma certa árvore, o contorno dos vales, a companhia de quem caminha… amigos de caminhada todos eles.


Vais andando, lentamente deixando as guias e livros que orientaram o teu caminho ao começar – vais aprendendo que tudo o que precisas saber já existe nas pessoas com quem caminhas – assim pões ouvido fino e falas por ventura se alguém te perguntar;


E chega o dia no que todos correm mas tu já não tens hora para chegar; confias então no rumo que te leva, no tempo que ainda tens para caminhar;


Tantas vidas, tantas histórias que merecem alguém para as contar! Todas elas um encontro, todas elas um começar;


Caminhante não há caminho, faz-se caminho ao andar!

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Os percalços de (sobre)viver

Pegue numa rã, coloque em água a ferver e veja como salta cá para fora sem mais demora…

Coloquemos um ser humano perante a dor, o sofrimento, a atrocidade e vejamos como este reage, como foge ou enfrenta essas mesmas atrocidades, conforme a sua capacidade e valores.

Pegue na mesma rã, coloque em água a temperatura ambiente e aqueça lentamente… muito lentamente; a rã termina por cozer sem se precatar. Não foge, não reage…

Coloquemos um ser humano - exposto todos os dias a guerras, massacres, roubos, corrupção nos meios políticos e nas esferas da direcção social… enfim – o triste prognóstico de todos os dias quando se liga o telejornal, se vê os programas sensacionalistas e afins ou se massacra anos a fio com a teoria da crise.
Vejamos como se colocam notícias de catástrofes junto aos resultados de jogos de futebol, ou como as últimas massacres de Gaza são equiparadas pelas notas de rodapé aos acontecimentos políticos do dia no contexto local…

Notas de atenção consciente para os percalços encapotados de se ter de (sobre)viver nos dias de hoje.

Quem espera combates épicos com os maus da fita sendo verdadeiramente maus e os bons sempre bons, embate neste mundo de lusco-fusco, nesta neblina que se faz mais e mais densa e que ofusca o Sol de iluminar o caminho com sua luz.

No fundo, o importante são as pessoas que se ama, os valores que se cultivam e as acções que os fazem valer. Mas é sempre bom estar desperto para a forma como – subtilmente – podemos estar a ser levados para rumos que nunca desejamos.

Um abraço, até breve!

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Taiji também...



Arte, porque inspirada; marcial por ser disciplinada...




(P.S - para variar, não te esqueças de "clicar" na foto)

sábado, janeiro 03, 2009

Tai-Chi

Quando se procura a harmonia na vida, uma imagem – uma melodia – valem mais do que mil palavras.


Arte, porque criativa e jorrando do coração; Marcial, porque requer perseverança e trabalho a sério.


Fica aqui um vídeo que vale mais do que mil palavras.






Artes marciais servem mesmo para colocar o indivíduo em harmonia consigo mesmo e com o que o rodeia…

(P.S - não te esqueças de clicar a imagem, ok?)

quinta-feira, novembro 27, 2008

Idades

Quando se navega no mundo das realidades, cedo se precata o navegante, da falta dos sonhos concretizados em tais imagens.

No mundo, a justiça é um ideal, o amor uma quimera, o sentido da viagem irreal e a sensação de certeza uma ideia.

No mundo real o poder reina mas não impera, pois é oco e baço e não traz verdade ao ser que anela.

Assim, louco num mundo de sãos ou são num mundo de loucos, procura-se uma veste cinzenta, que passe por entre o branco e negro sem muito chamar a atenção; até que um certo dia… se desperte numa qualquer casa alheia, cheia de gente alheia que corre ao ritmo das agulhas do relógio alheio; gente que nos trate como parte do seu trabalho e nos diga como fazer as coisas…

E nós ficamos a ver a esfera dos dias passados, rodopiando como que se deleitando com o vazio de cada inspiração do agora, presos na intensidade dos dias de outrora; partilhando alguma que outra conversa mais banal, dando toda a intensidade em cada passo ou em cada colherada de sopa que nos vão metendo à frente dos olhos…

E é que a vida corre e nós temos de ser rápidos nas escolhas de cada entroncamento que se nos depara, rápidos e certeiros, para não ir perdendo o tempo que nos é dado malbaratando-o em devaneios enfatuados ou entre fantasias idiotas.

O real são as pessoas e os laços que com elas estabelecemos… e lembrar que a primeira pessoa que (dês)conhecemos, desperta todos os dias connosco ao espelho.

Abraço e até breve.

segunda-feira, julho 28, 2008

Escrever




A escrita relaxa… inspira e deixa a mente fluir - como se de um regato bravio se tratasse - entre colinas correndo.


A escrita retira o homem do ruído comum e o eleva ao silêncio das palavras, seus ecos mudos ribombando na mente.


Deixar as letras se entrelaçar e delas fazer arte é tão maravilhoso como transformar números em catedrais.


Enfim, um bálsamo para a pressão dos dias que correm, num correr devagarinho entre o que habita cá dentro; um soletrar ao de leve as coisas que se sente, vistas desde o pensamento e esboçadas em símbolo na folha que se lê.


Até breve.

quarta-feira, março 26, 2008

The Shadow of the Day


Estava a ver e ouvir uma nova música de um grupo estrangeiro de actualidade – os “Linking Park” – intitulada “The Shadow of the Day”.

Onde nos esquecemos que o mundo não é como é - mas como nós o vemos - devo lembrar que não vou deixar um tema musical, uma notícia, uma telenovela de guerras encadeadas roubar-me a esperança.

Se a sombra do dia envolve o mundo em tons de cinzento, então eu devo procurar um Sol que brilhe para mim, mais do que sentar e ver como o Sol se põe para mim (tal como sugere a letra da música).

Que o Sol da esperança, que os valores que aninham no nosso peito, brilhem sobre a sombra do dia sempre que este pareça encoberto em tons de cinza.

Abraço
P.S - fica um link, não para um park mas para um artigo que me enviaram e que achei interessante:

sábado, março 01, 2008

Escrever

Escrever…. Para deixar fluir a inspiração que levo dentro, para dar azo aos horizontes longínquos, para voar onde posso e devo….
Escrever.

Entrelaçar ideias nas linhas, paços na miragem, encadeando pensamentos em catadupa que jorram como cristal de mil imagens.

Escrever porque sei, escrever porque gosto, escrever porque libertando a mente liberto o meu ser dos grilhões de ideais já trilhados, de momentos já vividos, de invenções que se ficaram e que passam agora no canal dos dias perdidos.

Neste tumulto de becos sem saída, este vibrar que não cessa nem medra; ficar-se nas ondas suaves de ideias amigas, ecos distantes que nesta cabeça aninham.

Uma a uma palavras passando, como ondas num mar de veludos esbatidos; uma a uma as saboreando, como mel de jardins outrora perdidos.

Fico no sopé da colina, na margem do mar, no limite da ravina – olhando ao de longe como o meu verso se vai fazendo cantar… cantar que corre, cantar que quebra as linhas nas que se confina e vai para além do pensar.

Emoções aos milhares, séculos de pensamentos arrumados em gavetas de sonhos podem assim voar… Vão! Não se deixem ficar, vão!

Não soçobrem perante o vento da ira nos dias de hoje, não fraquejem perante os medos que nos farejam como animais, não se deixem ficar… vão!