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sexta-feira, março 24, 2006

Remember...


Primeiro – um aplauso aos Wachowski – por fazerem filmes inteligentes, ousados e de carácter visual surpreendente numa época de anodia total…

Segundo – V – é um conjunto de apelos que evocam muito mais do que aparece a simples vista…

O primeiro seria uma série dos ’80 – com a mesma tinta vermelha contra uma ditadura disfarçada de conveniência aparente - a ditadura era de Lagartos Extraterrestres e a conveniência era para eles (que se alimentavam de pessoas e da água deste planeta) e para alguns cooperativistas entre os próprios humanos…

O segundo são as alusões…

Quem não vê os prédios, os massacres, os governos que provocam fachadas para encobrir os seus próprios delitos…
Não seria o humor cáustico de “Manobras na Casa Branca” que despertaria as consciências para uma realidade que o próprio filme indica na paródia:
Os artistas usam mentiras para dizer verdades e os governos usam (a língua inglesa não permite saber se – os artistas ou as mentiras) para encobri-las…

O terceiro são os valores: são as ideias, não os homens que prevalecem…

As ideias são universais – era após era, surgem como cogumelos de entre os despojos dos vencidos e afloram à superfície das aparências tão elaboradamente recalcadas nas mentes colectivas…

Mas – os Homens – são os que marcam as diferenças… uma ideia não vence um combate contra a ignorância, o medo ou a opressão – as opções dos Homens sim.

O quarto é a acusação…

Contra os governos (desde alusões claras ao governo U.S.A, passando pela igreja como defensora de mentiras, pelos média encarceradores de verdade, pelas policias guardiãs de ditaduras, por ditaduras disfarçadas de homens de negro e capuchos em prisões ilegais em paradeiro desconhecido…).

A principal acusação é feita por V – num discurso que parece uma admoestação a crianças traquinas: se quiserem ver o culpável pelo estado no que o pais, ou o mundo se encontra – vejam-se ao espelho.
Talvez uma mensagem pouco recalcada no filme, em prol do equilíbrio da consciência individual de cada um, mas uma das mais pesadas e de maior gravidade na fita para cada um dos que a vêem…

O quinto é a revolta…

Não apenas a justificação da violência como forma de gerir justiça ou dar liberdade – pois V auto-imola-se no fim - gesto de que um mundo antigo deve terminar. São os herdeiros desse mundo - que com gesto desmedido enfrentam as armas de peito aberto - assistindo à demolição do antigo edifício de tiranos disfarçados entre diplomacias, que poderão herdar um mundo realmente renovado.

A violência que os cidadãos exercem é uma violência contra os seus hábitos apáticos

A violência recai sobre uma menina que se atreve a dizer verdades onde os pais se olham estupefactos, se atreve a pintar um “V” sobre a tirania moral e ideológica de um cartaz do regime onde a protagonista tenta passar inadvertida, fugindo de si mesma e das suas convicções… não em vão alguém dizia que – o tal reino – teria como premissa que fôssemos como crianças…

Enquanto V desencadeia a sua vingança para o celulóide, enquanto nos procuramos identificar com a libertação da protagonista – do seu medo, das suas memórias, até da sua rotina inicialmente e da tentativa de se mentir a si própria – a violência real passa para o lado do governo e os homens, mulheres e crianças saltam-na indiferentes, ao passar em frente aos homens armados, às barricadas do exército em direcção às casas do parlamento que – inevitavelmente – culminam num estrondo apoteótico e anunciador de uma nova era…

Não caiba a mínima dúvida, é esta a única violência que cada um de nós terá de exercer sobre a ditadura moral, ideológica, política ou mesmo das simples rotinas que encadeiam o ser humano, de forma a estilhaçar o antigo edifício de governos, governantes, exércitos, opressão e poder encarar – finalmente – a sua própria liberdade

Como Natalie Portman – até que não estejamos finalmente livres do medo – não poderemos avançar e fazer frente ao que quer que nos oprima

V – for Verdade

(Não te via há quase um ano... à saída do cinema estavas lá outra vez; não parei, segui - e hei de seguir, porque este mundo fará chacota das minhas opções e da sua falta até que se acabe nele o ar para mim)

sexta-feira, março 17, 2006

The Way


O caminho… o caminhante… novamente… Errante… Corrigindo o erro de não caminhar...

Depois de dois anos separados (ou caminhando lado a lado em silêncio), voltamos a nos encontrar…

Encontrando-nos reunimos de novo – eu em ti, tu em mim - montanhas pirenaicas, gentes impossíveis de todas as partes e sem parte alguma que não seja sua por direito…

Encontrando-nos – nós liberdades de quem voa –caminhos que conduzem a dentro, ao conhecer do que somos, em companhia dos livres - que se atrevam a ir além da rotina de si e se entregar…

Nós ecos pirenaicos que ressaltam entre granitos mágicos, e voam por casas de pedra Navarra, e correm frente a Touros de terras panplonicas…


Nós, vilas e aldeias perdidas na meseta, com casotas de tijolo e velhos que languidecem baixo um sol eterno em cruzes templárias de templários loucos escondidos nas montanhas…


Ecos… somos ecos de pisadas que passam…suponho que cada qual terá o seu… o eco dos mistérios nas muralhas de Ponferrada, nas igrejas Joaninas de Castrojeriz…


Ecos de florestas druidicas, com sombras milenárias entre o Lugo dos carvalhos, mesclados entre névoas milagrosa de capelas do Cebreiro…

Ecos em pedras místicas de igrejas encriptadas, ecos em gentes de outros lugares através de linguagens singulares, ecos na simplicidade de se partilhar o pão… todos finalmente irmãos… apenas…Ecos… tantas vozes… em mim…


Comecei a caminhar já há algum tempo…

Determinar a ida é um passo do próprio caminho…

Lutar as férias necessárias para o trilhar por inteiro – uma outra aventura…

Escolher e mimar os materiais que serão companheiros de viagem – a mochila (quente amiga em costas gélidas de vendavais, neve e chuvas), botas (senhoras do nosso agrado ou pesar, ao se palmilhar as pedras milenares), impermeáveis e afins…
Goretex, trekking, coolmax… estrangeirices que nos vão mergulhando na multiciplicidade do que se avizinha…

Preparar a viagem, deleitar-se tocando com imaginação fértil as curvas sensuais do caminho amado… lendo e vendo fotos de lugares que cedo pisaremos com nossos próprios pés.

Divertir-se já com as peripécias dos horários – ver o quanto vamos dormir nesta ou naquela estação de comboio por forma a chegar ao lugar para iniciar um deambular rumo a Santiago… ou Finisterra… ou mais além…

Começar a caminhar – mochila às costas – por serras e vales, umas horas por dia; treinando a disciplina necessária para continuar caminho sem se desviar, reconhecendo a cruz que se faz prazer ao caminhar moldando a nossa peugada ao caminho…

Mudar horas de sono, comidas… e – sobretudo – forma de me sentir no mundo…

Sou de novo peregrino, estou de novo a caminhar, tenho novamente sentido… novo, renovado… vivo!


Deixo atrás o barrigudo burguês em rotina acamado, na Internet ancorado como num porto de fuga, perseguindo chocolates emocionais para anestesiar a dor de não pertencer a isto… de não ser daqui.

E vou…

Ontem estive com um amigo em Vigo.

Esquecera os bilhetes de comboio no balcão do “El Corte Inglês” onde comprara a guia do caminho… tive de lá voltar…

Depois de recuperar os meus bilhetes para um mundo mais à medida, lá marquei encontro com ele num pub – para conversar um pouco… ele foi deixado pela companheira à dois dias…

No meio do trânsito em hora ponta, deixei o carro no primeiro “Parking” disponível, em redor das Camélias…
Aquilo fechava à 22.30h… tinha duas horas… supus ser suficiente… hehe – já estão a ver que não foi e que fiquei sem poder regressar a casa até hoje de manhã… caminho é mesmo assim… mais do que aquilo que se esperava – desenha-se e revela-se no inesperado.
O nosso papel é ousar seguir, ir, ver o que nos mostra…

O Lain (o tal colego) nunca mais terminava de instalar um Windows no PC de alguém que – depois – soube ser o namorado de uma garota que eu conhecera no passado, lá em Vigo… mundo pikininuuuuuuuu!

Entretanto ia degustando o ambiente.
Eu já de botas de Goretex e calça-calção apreciava a bicharada citadina viguesa…
No meio de um pub de “pinta” sentia o contraste do meu “look”… e gostava do formigueiro que provocava a diferença… ousar… ser… ir… caminhar.


Estava “Entre dos tierras”… degustando uma cerveja de importação, num pub de madeira e veludo, lendo Gabriel Garcia Marquez, olhando-os a eles e elas – os seus gestos, os seus olhares – entrelaçando-me com eles sem que se precatassem, sentindo e usurpando parte daquele festival de pierrots e arlequins…

Outro eu estava já de partida – de botas e calças de caminhar - caminhando para algures que não aqui… passando pela vila mais estranha e bizarra que já pisara nos mundos do meu espírito errante - vila de vozes e sorrisos na noite, de olhares pétreos e sons baços no dia…

Ele apareceu depois de mais de uma hora… falámos.

Se algo ressalta da geração de gentes com as que ainda me dou ou com quem partilhei aventuras e outras tantas que não… é que somos inadaptados

Por muito que nos esforcemos para fazer de conta, para procurar enganar-nos (em primeiro lugar) ou de corresponder às expectativas (de quem nos ama e de quem nem por isso)… não estamos lá.


Aquilo não nos diz nada.

As nossas histórias são essas – de estar a andar por andar se andamos para onde e como outros nos dizem.
Andar em rodopios, andar errando, andar parados, andar sem jeito, sem ir a nenhum lado, só andar


De ser revoltados com algo – se calhar com tudo – porque nada parece bater certo, nada nos diz respeito… andar sem rumo, andar sem meta, só andar

Desde que despertamos para nós mesmos, quando deixamos de viver a vida por imitação, não mais pagando impostos para ser um mais do rebanho – então sentimos…


Não se quer crescer, não se quer vender a alma por tanto de nada, não se pretende manter o círculo à custa de outros que se façam iguais

Marionetas em teatro alheio… pés caminhando sem horizonte, pernas avançando sem olhar, corpo movido sem alma, cordas que puxam, membros em convulsão, peças de um lego caótico, cubismo vital, mapa vazio seguido sem cessar…


Filhos de ninguém –pais de faz de conta –gente que trilha caminhos bravios, terras de baldio… parando ocasionalmente baixo sombras agrestes – em momentos fugazes, vemos paisagens desde as colinas elevadas onde nenhum rebanho costuma pascer…

Quando vencidos pela “normalidade” dos números, rodopiamos em espirais - teatrais – de estertores lívidos; cobiçamos veladamente os finais mais bizarros para uma obra cuja partitura – para nós – não existe…

Incapazes de cair na cadência extática – formalmente disseminada pelo grande grupo – namoramos mortes simbólicas em opiáceas fugas que nos projectem para lá deste lodo de construções fictícias… passamos os dias – conscientes - em mundos de faz de conta para não permanecer – inertes – num sonho de uma noite de Verão



Caminante no hay camino… se hace camino al andar…

quarta-feira, março 15, 2006

Sal da Terra

"Vós sois o sal da terra! Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.

Vós sois a luz do mundo: Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do velador, e assim alumia a todos os que estão em casa. Brilhe a vossa luz diante dos homens…" - Sermão da Montanha segundo Mateus

Senhor Enfermeiro”… nunca lhe ganhei grande estima ao título, não me sinto apegado a ele, preferia as pessoas…

De cartão ao peito – com o meu nome cerceado – primeiro e último apenas… mas, temos tantos nomes… temos diminutivos para quem nos quer bem (Dani suponho) e temos reducionismos para os que nos querem minimizar (… zinho), temos o da tropa (Pinto, I guess), temos o das autoridades (Sr. Daniel), temos o dos que desprezam (Oh Pá! Deve ser), temos o profissional (Daniel Pinto no caso) – devemos ter mais.

Nome em último, neste cartão - “marca dos ferros” em gado socializado – primeiro aparece um cunho de propriedade: uma figura estilizada de verde e vermelho (já se esqueceriam do sangue e da liberdade que as cores implicavam?); depois um cargo (ou função neste caso – Enfermeiro); uma foto de quando ainda acreditava nesta coisa toda e – por detrás… sempre por detrás e em letra miudinha - os “deve” que o tal implica…

Um cartão de Ordem…

Uma assinatura mensal na revista das novidades baças, uma quota-parte de responsabilidade nos nadas que são tudo na vida desse colectivo.
Mereceriam Mateus, 23 – com todo o peso, justeza e medida…

Um diploma…

Que me habilitou a prestar cuidados de Enfermagem geral…

Uns anos a sofrer o processo de transformar um leigo num iniciado dos meandros do ser (se) humano em toda a sua enorme pequenez e enlevada profundidade.
Um especialista de substituição de mãos que cuidem… pois agora só há mãos que trabalhem…

O amor à “camisola” (neste caso à bata)…

Que nos leva a cerrar fileiras contra o estado, os médicos, os familiares, as condições, a não dignificação, a falta de estatuto… com um pouco de sorte também contra os administrativos, os auxiliares e os próprios doentes que são mais rezingões e exigentes do que o costumeiro cordeiro de matadouro que não dá muito de sí… se tivesse tirado outro curso lutaria no outro bando, talvez…

As competências técnicas, científicas… humanas;

Talvez… se por isto entender a capacidade de um ser humano no seu todo, de abrir espaço entre o vazio e construir bem estar…para si e para os outros…

Mais do que um operário “high tech”, uma ferramenta plena de recursos estratégicos e de conhecimentos transbordantes, com sede de saber imparável e dinamismo desenfreado – eu creio em humanidade…

Pode parecer simples de mais – mas creio ser a chave que abre a essência do que vejo… humanidade.



Cuidar…

Dar Atenção” – hoje é mais fácil de definir pela negativa, pela sua falta…

Para que isto de cuidar aconteça – quem cuida deveria, primeiro – ser capaz de cuidar de si mas...

Horários de loucos, horas extras por tabela e cifrão, cada vez mais louca a sua quantidade - abraçada por ambos: os que as cumprem e os que as exigem.
Tempo reduzido a sobras…

Desígnios de cuidar ditados por orçamentistas, cuidadores de estatísticas, operários de cadeias de montagem em série onde tudo vale para cumprir os objectivos da produção estipulados para o mês… o ano…

Seria tão simples… como ter tempo...

Tão directo como olhar nos olhos e sentir compaixão… com paixão… de se ver do outro lado do espelho e de se sentir dorido…

Tão fácil como tocar, sorrir, confortar… tão franco como ser-se igual a si mesmo…

Tão honesto como servir, tão alto como ser-se para outro tanto como para si mesmo…

Hoje lamento vender tudo isto.


Hoje choro ser maquina, dar apenas uma ou outra vez das muitíssimas vezes que podia ter dado…

Hoje lamento cada desculpa, cada contornar das falhas – de materiais, de pessoal, de paciência – com silêncios…

Hoje estou de luto por todos os momentos de vida mortos no turbilhão das estatísticas, das políticas, dos cifrões, das massas inertes que fazem - do número de consultas - uma melhoria da saúde…

Até quando… até onde?

Já vendemos o cuidar – tanto e tantas vezes – que são os próprios carentes que se viciaram em o comprar… e funciona!

Os bancos inventam seguros de saúde e nós sentimos que somos melhores, que tudo vai bem!
Alguém ganhará com isso - de certo que sim… mas nós perdemos todos.

Se necessitamos pagar para ter humanidade – vamos todos à prostituta, fora de horas, e paguemos o que não podemos ter de graça… humanidade.

Dito isto – obrigado por todos os que não permitem que haja condições, por não quererem ou não quererem saber…

Obrigado por todos os que sabem que o sistema público deve falhar para que entremos na Europa por direito – como modelo de país industrializado e moderno, a imagem dos outros tantos que conhecemos - livre comércio de tudo e de todos…

Obrigado por todas as empreitadas que permitem o crescimento empresarial com base nos despojos alheios…

Obrigado por todos os que se esqueceram da sua imagem ao espelho de tanto serem chamados Sr. Enfermeiro… terminamos mesmo crendo que somos alguém.

Obrigado… a tudo isto… para sobreviver na selva social.


Nota:

Só para lembrar o que anda esquecido…



“(1820 -1910) Florence Nightingale é considerada a fundadora da enfermagem moderna.

A sua família considerava a enfermagem algo inapropriado para uma dama de boa estirpe, por isso, começou seus estudos após os 31 anos, num curso na Alemanha.

Na Inglaterra, Florence abriu o primeiro curso de treino em Enfermagem, em 1860.

Florence não conhecia o conceito de contato por microorganismos, uma vez que este ainda não tinha sido descoberto, porém já acreditava em um meticuloso cuidado quanto à limpeza do ambiente e pessoal, ar fresco e boa iluminação, calor adequado, boa nutrição e repouso, com manutenção do vigor do paciente para a cura.

Ao longo de toda a Guerra da Criméia, Florence conseguiu reduzir as taxas de mortalidade entre os soldados britânicos, através de seus esforços como enfermeira e, provando a eficiência das enfermeiras treinadas para a recuperação da saúde.

Até o momento, só homens e mulheres religiosos podiam cuidar dos soldados no exército.

Nas suas escolas,Florence baseava sua filosofia em quatro idéias-chave:

1.O dinheiro público deveria manter o treino de enfermeiras e este, deveria ser considerado tão importante quanto qualquer outra forma de ensino.

2.Deveria existir uma estreita associação entre hospitais e escolas de treino em enfermagem, sem estas dependerem financeira e administrativamente.

3.O ensino de enfermagem deveria ser feito por enfermeiras profissionais, e não por qualquer pessoa não envolvida com a enfermagem.

4.Deveria ser oferecida às estudantes, durante todo o período de treino, residência com ambiente confortável e agradável, próximo ao local.

As primeiras escolas de treino Nightingale ministravam cursos de 1 ano, que, com o tempo, passaram a ser de 2 anos.

Florence deu origem às prescrições médicas por escrito e, também, exigia que suas enfermeiras acompanhassem os médicos em suas visitas aos pacientes "para prevenirem erros, diretivas mal compreendidas e instruções esquecidas ou ignoradas" (Palmer,1983 apud Atkinson).

A seu ver, para a melhoria do estado de saúde do país, o ensino da Enfermagem era uma grande responsabilidade das enfermeiras. Preconizava a ideia de que a saúde era não apenas estar bem, mas ser capaz de usar toda a nossa capacidade.

Florence julgava que o propósito da enfermagem era"colocar-nos na melhor condição possível para que a natureza possa restaurar ou preservar a saúde, prevenir ou curar as doenças"(Palmer,1983 apud Atkinson).
(lamparina de Florence)

segunda-feira, março 06, 2006

Una Rosa...


“Quise cortar la flor
mas tierna del rosal
pensando que de amor
no me podria pinchar
y mientras me pinchaba
me enseño una cosa
que una rosa es una rosa es una rosa...

Y cuando abri la mano
y la deje caer
rompieron a sangrar
las llagas en mi piel
y con sus petalos
me la curo mimosa
que una rosa es una rosa es una rosa...

Pero cuanto mas me cura
al ratito mas me escuece
porque amar es el empiece
de la palabra amargura

Una mentira y un credo
por cada espina del tallo
que injertandose en los dedos
una rosa es un rosário”

Mecano – “Una Rosa Es Una Rosa”- refrão – J. Cano – baseado numa frase de Gertrude Stein

Escrevo enquanto a minha orelha ainda lateja, enquanto a minha mandíbula ainda dói… foi ontem – mas dói.
Não doeu na altura, na altura nem tive tempo para racionalizar a coisa… por isso, agora quero guardar isto, para me lembrar…

Sai à noite, era Sábado.
Decidi sair do meu claustro auto-imposto e falar, ver e sentir gente em vez de estar nos meus mundos virtuais.
E fui…

Encontrei um par de colegas… e logo estabeleci pontes de conversa.
Nós os humanos produzimos endorfinas pela interacção social… o cérebro “excita-se” com os outros – sobretudo com a conversa e o riso que dela advém – e, o seu “orgasmo” são substâncias químicas que se ligam às células, nos mesmos receptores que os opiáceos… logo – somos viciados nos outros, naquilo que obtemos deles e que alquimicamente geramos em conjunto… esse é o sumo sagrado, que provém das profundezas e meandros, daquela que pensamos ser a mais complexa máquina cogitante do Universo…

Em frente.
O pub onde estava – em Valença, aquilo está tudo junto, não há muito para onde ir – estava praguejado de tabaco, pelo que vim respirar um pouco cá para fora - de forma a subsistir aos vários “rounds” contra o tabaco que ainda tinha pela frente, e obter a minha “dose” de endorfinas da semana…

Cá fora estava alguma confusão.
Todos (umas 20 pessoas) olhavam – algures entre o divertido e o desconfiado – para um pequeno grupo de gente, em barafunda aparente.
Um deles lá se contorcia, agarrado por dois colegas – prometendo partir e desfazer tudo, camisa ao penduro de tanto puxarem pelo moço.

Por mim passou um tipo miúdo (de altura, não em idade – depois vi que o conhecia dos tempos de infância, de aterrorizar as minhas aventuras solitárias pelas muralhas da Vila – sempre tive esta tendência de passear sozinho… he he; suponho que o caminho de Santiago já começou pelos meus 4-5 anos, quando deambulava maravilhado por aqueles aglomerados de pedras ecoantes de história).

Anyway – o sujeito passou – “arrebolando” comigo e mais metade da plateia.
A noite estava de gelo (eu tava de casaca no pub) mas o homem “miúdo” lá levava apenas uma T-shirt em cima.
Passou pelo grupo dos que agarravam o “descamisado”, saltou uma pequena cerca, foi até ao campo e agarrou uma pedra… depois olhou em volta – meio desorientado – e puxou rua acima – para lá da minha linha de visão – com mais três sujeitos.

Não sei o que me deu – sinceramente nunca fui de heroísmos – mas saltei e fui atrás.

Olhei pela rua acima e estava um grupo de 3 raparigas e dois rapazes lá ao fundo. Os sujeitos dirigiam-se a eles… eu atrás como uma criança perseguindo o flautista de Hamelin… tenho cada coisa…

Passou um carro da polícia – que ficou deveras entretido com o “desfraldado” (agora já estava assim), quem continuava a prometer hecatombes a tudo e a todos agarrado pelos dois amigos e com 20 pessoas a assistir.

Ninguém tentara ver o que faria o da pedra, ninguém se mexeu das bancadas…
Parece uma cena do “gladiator” – Russel Crowe gemendo: “are you entertained?”… só não havia espada para lançar ao público de forma a despejar os copos cheios e as bandejas do lugar de privilégio nas tribunas imaginárias…

Agora penso assim – na altura não pensava nada.

Ia (como a tal criança enfeitiçada), atrás da pedra e da camisa de manga curta na noite gelada.

Passei pelo carro da GNR enquanto subia – debrucei-me na janela “olhem que o problema vai ser ali em cima”… apontei… mas já começara a confusão…

Um dos GNR saiu do carro, sacou o cacete e correu comigo.
Um dos rapazes que ia com as miúdas estava com dois dos tipos que subiram.
O da T-shirt estava no campo – a dar murros, que eu sabia serem murros de pedra em mão.
O quarto dos perseguidores, olhava.
As miúdas berravam.
O polícia avançou para os três embrulhados no chão – eu saltei o muro e meti-me no campo.

Não pensava – fiquei grande parte da noite a meditar neste vazio.
Não havia banda sonora estridente, música a elevar-se gradualmente à medida que a acção atingia o seu auge… não pensava.
Sentia.
Sentia-me uma mãe (se é que poderei sentir-me assim alguma vez), sentia-me escudo, queria estender-me e amparar o que levava com a pedra e o que dava.



Medito sobre isto e sinto-me confuso.

Não queria agredir o agressor …

Não tinha pensamentos de maior – só queria proteger… os dois… estranho.

Proteger o agredido – que mal se defendia; não sei se nada fazia por estar alcoolizado; se – como vim a saber depois – era por ser estrangeiro ilegal e não querer problemas; se por estar com a cabeça aberta e a “sangrar pela pedra”.

Agarrei os dois… e era mãe de ambos…


Não queria que um agredisse a sua humanidade na pessoa de outro… isto pensei depois acerca do que sentira então… sinceramente – estava e estou ainda nublado pela situação.

Não veio ninguém.
Tentei não agarrar nenhum em particular para negar oportunidade ao outro de agredir o agarrado… distância – o da T-shirt e pedra reparou que havia polícia e afastou-se ligeiramente.
Agarrei o da cabeça a sangrar e levei-o para o seu grupo.

O polícia ainda esboçou um gesto para parar o da pedra – mas logo os amigos o rodearam, falando de forma vigorosa para o polícia, afastando o agente dali.

O tipo voltaria ao Pub depois – a resmungar qualquer coisa como “Todos me batem, eu não me meti com ninguém”… Tshirt (que tiraria a meio da rua) ensanguentada… mas voltou… voltam sempre, com uma razão para ser vítimas… e são… mas de outra maneira bem mais violenta e destrutora… são vítimas da sua predação na humanidade colectiva… vítimas todos… sem opções… de opções abortadas… abortos… humanos abortados… opções humanas sem nascer… não sei.


Um tipo urinava desde a rampa de subida para o pub, directamente para a rua por onde a gente da noite passava …

O guarda desapareceu (o outro descamisado e desfraldado ainda prometia que “partia aquela merda toda”, agarrado pelos eternos dois amigos e com a atenção de umas quantas garinas novas e moços sorridentes).

Eu voltei para o Pub.
O estrangeiro (soube então que era Brasileiro) foi para o Centro de Saúde para ser consultado… eu no meio do ambiente de barulho abafado, da música misturada no tabaco e nas vozes de mil conversas estranhas de um pub no Sábado à noite…

Fiquei a meditar no que sentira e no estranho da situação…

Não pensara em nada – branco – só fui.
Queria parar aquilo e fui…

Ninguém mais veio, ninguém mais quês saber… e o Brasileiro ilegal a levar com uma pedra na cabeça enquanto a namorada berrava e o polícia separava os outros três, um desfraldado prometia quebrar o mundo, gente ria, alguém mijava pra rua cheia inundando tudo de despropósito… e eu naufragava naquilo tudo…

Sai dali com um amigo – fomos para o pub número #2 do calvário de Sábado noite.

O polícia multava condutores que passavam… o de T-shirt branca passou por eles já de casaca da mesma cor a tapar o sangue alheio… ou seria o próprio, sem ele e mais ninguém saber?...

Eu meditava – dá-me isto amiúde.

O mundo passa a câmara lenta e eu vejo os pormenores… adoro pormenores…
Via os polícias nas multas, o da T-shir ensanguentada mas coberta de branco debaixo da casaca, o Brasileiro a caminho das urgências nos braços da namorada que antes berrava… e eu passava pelo meio…

No outro pub dancei um pouco – passeei as minhas penas abertas no meio da freguesia dos pavões e sentei novamente.


Copo ao lado, meditava no ambiente – sete ou oito gajos “velhadas”, pais de família já entrados em idade - estavam a um canto apreciando as miúdas já entradas em álcool… Contorcendo-se em gestos de cabaret para todos os que as apreciavam – eles sabiam que eram as filhas com outros rostos, elas que eram os pais com outra idade… todos entrelaçando-se naquela espiral estranha… eu e tudo… de novo o barulho surdo dos flashes, da música no tabaco, da bebida na mão, do amigo encostado à coluna a pensar nas suas pinturas que ele desenha a carvão…

Chegou alguém e – literalmente – abalroou o assento onde estava.
Contra a barra e meio acordado deste sonho de noite de verão, afastei o peso de cima de mim.

Lembro que não o fiz de forma violenta – hoje estava tudo menos violento depois de fazer a pesquisa para o texto anterior; toda a barbárie dos documentários, das testemunhas, dos textos descritivos, das fotos… tudo me roubara a vontade de estar violento… de o querer estar alguma vez…

Agarrei aquele peso, amparei-o na sua queda sobre mim, e repus o estado de verticalidade que perdera…

“A mim não me empurras – tas a ouvir?!”…

Disse-me uma cara a dois centímetros da minha com uma voz meio arrastada mas vigorosa… eu nem me apercebera do sentido agressivo – estava tão a leste disso – estava naquele barulho surdo, naquela festa de “sem sentidos”, naquela dança de juventudes entrelaçadas para os pais que olhavam ávidos de juventude perdida, naquele carnaval da alma…

Comecei a explicar que estava em cima de mim e que…

“POUMP”… soou baço, distante… suponho que, por estar habituado a pancadas nestes treze anos de Kung-Fú, nem me chateou muito.
Foi na orelha e na mandíbula – bem no ângulo – onde dói e onde é mais perigoso – como sabemos no combate.
Os K.O dão-se assim… apanhando este ponto…

Eu seguia (e ainda sigo neste estranho estado) e perguntei ao tal porque me tinha batido.

Ainda estou incrédulo – não por que me batera – compreendo que estava frustrado, bêbado, com toda aquela agressividade que se destila no ambiente da noite … que se transforma em desejo, em raiva, em fome e sede… essa ancestralidade induzida pelas luzes, pelo ritmo constante… pelas bebidas inibidoras da inibição, pela frustração diária - por tudo e por nada - contida nos hábitos sociais… isso eu compreendo…

Fiquei (e fico) incrédulo com a minha reacção.

Genuinamente eu queria compreender o porquê, queria mergulhar na razão…procurei-a no seu olhar.

Bem fundo – olhos nos olhos – sem medo, sem mãos levantadas que me defendessem do próximo golpe… procurei um porquê…


Via-me ao espelho e queria saber porque me batia, porque me agredia, porque me procurava destruir assim, porquê odiava a minha sombra, porque desejava estilhaçar a sua projecção no espelho humano… era dois… via ambos… e estava distante… procurando entender…

Alguém o agarrou por detrás… ele cara incrédula também… talvez por não receber retaliação… perdendo-se entre a tentação de destruir o que não se defende e abismado pelo que não contrarresta…

Estupidificados ambos… arrastaram-no para fora… o amigo veio ter comigo e desculpou-se… eu perguntei - “Porquê?”…

Ele não entendeu… começou a dizer “Opa, bebeu – sabes como é”… “Eu conheço-te, tenho-te visto, desculpa lá, ele não está bem”…

Eu perguntara porquê se desculpava… nada havia a desculpar…

A vítima éramos ambos…

Desfilaram pela minha consciência imagens dos documentais de guerra, das testemunhas do holocausto, do filme que vira nessa tarde “La vida secreta de las Palabras” – da produtora de almodôvar – uma obra de arte (novamente) que me tocou até ao mais profundo…


Um a um, colegas passavam… queriam saber que se passara… sempre fora o pacífico… nunca havia agredido ou sido agredido na minha vida… assim tão repentina… violenta… gratuitamente…

Chorei… sem vergonha… chorei…


Por ele, por mim… por tudo…

Sabem à quanto não chorava?
A sério que me tenho esforçado por isso… mas só chorava nos filmes da “Lassie” quando era “kinininho”… chorei…

À frente das raparigas, à frente dos mais velhos que as desejavam, à frente dos meus amigos, à frente da empregada do bar… não continha as lágrimas… chorei…

Disseram-me que ele chorava lá fora… eu chorava com ele… estranha sintonia…

Chorei por tudo… chorei por nada…



Quanto mais escrevia sobre a guerra e a sua loucura mais me enchi de dor, de piedade pela minha própria humanidade perdida… chorava por Kosovo, pelos Bósnios, pelos Muçulmanos, pelos Sérvios, pelos Alemães, pelos Judeus, pelos Americanos, pelos Palestinos, pelos terroristas e pelos aterorizados - sentia que uns já foram os outros antes e que os outros o seriam por sua vez depois… a não ser que todos chorássemos…

Chorei porque me agarrava à minha humanidade com tudo o que podia… porque ter parado aquela mão (técnicamente aquilo era um circular à cara – a coisa mais fácil de parar com bloqueio - se não for antecedido de algum golpe recto rápido e curto que desmanche uma guarda) seria ter cooperado na vertigem da canibalização própria pela destruição alheia…

Chorei… “caguei” para a minha pose de pavão, para as minhas roupas bem alinhadas e o meu ar seguro tão arduamente construído ao longo dos anos… chorei…

Tanto combate para aquilo? Pergunta uma parte de mim pragmática...

Sim… finalmente me senti – pela primeira vez – cinto negro…

Escolhi – reparem bem – escolhi levar, escolhi não reagir… agi, não reagi… naquele segundo escolhi olhar nos olhos em vez de fazer um bloqueio com murro simultâneo, um agarre rápido ao pescoço, uma luxação ao braço de ataque e uma imobilização no chão com a cara a lamber os vidros… isso era automático – nem precisava de pensar muito porque treinara tantas vezes que estava escrito em cada músculo… mas levei, levei, levei, levei… e olhei nos olhos enquanto o fazia…

Que vi? Perguntarás tu que lês…

Que vi nesses milisegundos nos que tudo era câmara lenta, nos que o mundo “freezed” e as bailarinas se contorciam num eterno esgar de prazer, olhos de luxúria as contemplando na sua inocência provocadora, na sua intenção velada manifesta, espirais do fumo se entrelaçando com a mão que avançava pelo rebordo da minha visão… vi cegueira

Vi que não me viam, porque quem eu via estava ali… era eu naqueles olhos vidrados… eu estava lá dentro… não ali – sentado – prestes a ser badalado com um sonoro “bang” de igreja adventista do juízo final… eu estava lá dentro… dele… vi-me a mim…

Se Siddharta viu o rio e as faces e o um.. eu vi a ele, a mim e tudo num só…

Vi antes, vi durante, vi depois… e - estranho – fiquei unido a aquele rapaz.

O meu pranto e o dele tornaram-se um.
Lavamos com as mesmas lágrimas salgadas do mar interior – desse mar “imanso”, profundo, sem fim – lavamos a dor da loucura desse momento, lavamos a dor das loucuras de outros momentos, lavamos a dor de outros eus por ai fora – antes, durante, depois… sempre

Um mar que desfaz a pedra das aparências, a pedra dos ódios pela nossa própria humanidade encarcerada em animal…

Agrediu o ódio pela sua prisão, pela limitação de sofrer as cadeias de estar assim – pequeno, impotente, frustrado…

Agrediu o desejo não concretizado, a incompreensão da rotina sem sentido, da injustiça diária, da falta de perspectivas para amanhã que não fossem as de ontem…

Chorou tudo – desde a criança que nasce e vai morrer, até ao “amo-te” que desejava mas nunca disse… chorou.. chorei…

Ainda dói… por isso escrevo – se não, esquecia… ou não?

O ter procurado entre tanto ódio, tantas aberrações, tanta crueldade… despertou isto… este algo que me agarrou as mãos atrás das costas, rasgou as minhas vestes e me atirou com peito aberto para os espinhos…

Uma rosa – que languidesce… uma rosa… de pétalas delicadas, de embriagante aroma… de espinhos profundos e feridas amargas… de dor e embelezamento… uma rosa…

A palavra Amar começa Amargura… mas tem o tal, o Mar… esse que vertemos os dois eus alheios, esse que derramamos para lavar tudo, para nos redimir… choremos… irmão… choremos…

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Historic Stories




Que diria se – com o passar do tempo relativamente a um evento – mais e mais dados fossem conhecidos de forma a que, em vez de o evento ter sido descrito ou sequer conhecido inicialmente com alguma definição, tivesse sido (RE)CONSTRUÍDO gradualmente?
Que a recordação fosse mais clara do que a experiência?...

Este é o processo que leva à criação de um mito, de uma lenda, de uma história forjada (como a Terra Média de Tolkien – que se foi expandindo desde os seus esboços iniciais, muitas vezes confusos e gerais, até se tornarem num vasto mundo de complexos entramados, bem definidos e com lógica sequencial mas existindo apenas na mente de um homem e na imaginação dos seus fãs… ou não?).

A nossa história – tal como a tal “Terra Média”, começa num determinado ponto a ser (re)construída e – com o passar do tempo, torna-se mais complexa, interrelacionada, definida e divulgada… da ignorância do momento presente (no passado) passamos para o conhecimento do momento passado (no presente).

Pode parecer-lhe estranho, mas – apenas desde a Renascença tardia – mais concretamente com I. Scaliger (1540-1609) e, finalmente com D. Petavius (1583-1652), é que uma certa cronologia com eventos globais pôde ser reconstruída e se tornou mais ou menos aceite.

Até ao séc. XVI-XVII, os manuscritos e fragmentos de “história” não se encontravam datados, usavam sistemas de datação desconhecidos ou arcaicos e – muitas vezes – apenas referiam uma sucessão de eventos localizada no tempo, circunscritos a uma certa região ou país e sem relação com um enquadramento mais amplo.
Devemos frisar que – a maioria dos documentos históricos disponíveis actualmente e relativos a tempos da “antiguidade” ou à época “medieval” não são originais – são cópias realizadas em tempo indefinido, muitas vezes sob circunstâncias dúbias (um exercício curioso acerca deste tema das "falsas aparências" da história encontra-se no “Códex 632” de José Rodrigues dos Santos).

Ao contrário do que aprendemos – rápida e pouco criticamente – nem todos os especialistas estão (ou estiveram) de acordo com o sistema cronológico actualmente utilizado.
No mesmo momento da elaboração da cronologia de Scaliger/ Petavius - actualmente utilizada - muitos investigadores levantaram objecções;
D. Arcilla – Universidade de Salamanca em Espanha – referia que a história antiga tinha resultado de uma fabricação do final da idade média;
Jean Hardouin – director da Biblioteca Real Francesa, declarava que as antiguidades e textos antigos haviam sido criados (ou falsificados) após o séc. XII…

O mais famoso cientista contemporâneo à criação da cronologia actual – Sir Isaac Newton – mostrou-se também em contra da cronologia de Scaliger e Petavius.
Newton publicou uma monografia “Cronologia dos Reinos Antigos Corrigida”, na que apresentava muitos dos maiores eventos da antiguidade deslocando-os vários séculos para a frente…

Cientistas, filólogos, historiadores e juristas levantaram a voz contra o sistema de datação que terminaria por ser globalmente introduzido. Actualmente as vozes discordantes mantêm-se vivas.

Nicolai A. Morozov (1854-1946), proeminente cientista Russo – publicou uma monografia que, usando métodos de análise matemático aplicados às descobertas de foro da astronomia, linguística, filologia e geologia, implicava os eventos tidos como do “mundo antigo” como apenas possíveis a partir do séc. III da Era Comum (E.C) actual.

A partir de 1970 – na Universidade Estatual de Moscovo – Anatoly A. Fomenko em conjunto com graduados em matemática desenvolveu as teorias de Morozov.
Com uma precisão sistemática – modelos sequenciais de genealogias e governantes do mundo antigo foram analisados e contrastadas com os da era moderna.

Destes – sacamos uma conclusão curiosa.
Através de análise estatística, Fomenko revelou “coincidências” nas dinastias de regentes que levavam a duplicados – mudando apenas o nome, época cronológica e/ou localização geográfica…

Estas coincidências – que são estatísticamente quase impossíveis se tomarmos em conta apenas sequências de 10 elementos – tornam-se uma evidente prova de construção artificial na história visto que Fomenko analisou dinastias de até 15 elementos, adaptando até os possíveis erros de interpretação com +- x anos relativamente ao factual histórico registado e continuou a encontrar as ditas "artificialidades"…

Outro dado curioso acerca das sequências – as coincidências dinásticas apenas se davam até ao início de dinastias bem documentadas – ou seja – elas cessavam a partir do séc. XVI…

Como exemplo ficam as dinastias comparadas do Sacro Império Romano-Germánico (séc. X-XIII E.C) e uma outra dos Reis Judeus de acordo com a bíblia (séc IX-V A.E.C).
No gráfico que se segue mostram-se ambas as dinastias, começando num ano “0” – que não é um início de acordo com alguma era, mas sim o início da dinastia em questão.








Há mais paralelos semelhantes. Como outro exemplo, o primeiro período do Episcopado Romano (141-314 E.C) e o segundo período do Episcopado Romano ( 314-532 E.C):






Os paralelismos encontrados ao longo de múltiplas ocorrências do mundo antigo sugerem que se trata de múltiplas versões de um mesmo acontecimento espalhadas em várias localizações geográficas ao longo de várias épocas cronológicas.

A análise de dados astronómicos apenas confirma os dados que Morozov e Fomenko (entre outros) têm vindo a analisar e questionar.

Se Scaliger tomou grandes eventos (como a batalha do Peloponeso, a fundação de Roma, a guerra de Tróia) como referências para organizar a sua sucessão de eventos, de forma a construir uma progressão global e sistemática à que pudéssemos chamar cronologia, os dados astronómicos constantes em documentação atribuível à época situam a batalha do Peloponeso (antiga Grécia) não no séc. VI A.E.C, mas sim no séc. XI E.C…
Ou a documentação disponível terá sido forjada em datas muitíssimo posteriores aos possíveis acontecimentos registados ou os acontecimentos registados ocorreram em data muitíssimo posterior a aquilo que cremos na nossa cronologia actual, ou…

Poderíamos dizer que – métodos como o carbono 14 interfeririam com esta tese e dariam uma aura de credibilidade aos achados e sua contribuição para a cronologia tal como a conhecemos mas – realmente – ditos métodos de datação química necessitam de um objecto contemporâneo (ao achado) para realizar o contraste da datação… ou seja – se a referência cronológica é a que está adulterada, a datação por método químico dará um dado consentâneo… adulterado.
Já agora - num futuro - será impossível usar este método de datação para objectos ou restos a partir de 1940... a invenção da radioactividade controlada torna este método variável (imagine-se se alguém andou a brincar com radioctividade no passado... o tempo ou destempo que teremos em cima !).

Artigos Relacionados:

O Xadrez da História…

O famoso jogador de xadrez – Garry Kasparov – pertence ao grupo de notáveis que, actualmente, dá voz à contestação de muitas das premissas internacionalmente tidas como correctas cerca da história e da cronologia.

Tendo uma grande capacidade analítica e uma memória portentosa – dedica o seu tempo livre a analisar a história e a procurar enquadra-la dentro de moldes sistemáticos.
Neste seu “hobbie” – como se de uma partida de xadrez se tratasse – muitas das jogadas do seu rival aparecem descontextualizadas, sem nexo, fora de uma linha de continuidade…

Numa incursão através do que actualmente é o (aparentemente) bem conhecido Império Romano e suas origens e - antes de analisar algum outro aspecto em pormenor - o autor refere que – na vastidão do império no seu auge – resulta complexo imaginar como se organizavam os serviços e a gestão sem mapas geográficos, sem sistema bancário; como o exército romano (de quem o império dependia para se prolongar no tempo e no espaço) foi incapaz de realizar incrementos e inovação nas suas armas e técnicas militares durante nove séculos de guerras contínuas

Vamos agora aos números e à matemática.

Usemos para a análise em questão o trabalho monumental “Declínio e queda do Império Romano” – do historiador e erudito inglês Edward Gibbon (1737-1794), que marcou cânone e estabeleceu as bases da análise do mundo romano tal como o conhecemos hoje em dia.

Maravilhemo-nos em como as contradições e falta de sentido dos dados que – como os referidos – não levantaram questões ou nunca desafiaram o mais leigo de entre os leitores (para não falar dos eruditos) a questionar a autenticidade e a natureza das elaborações que – actualmente – conhecemos como “história” ou "cronologia”.

Se estas contradições, omissões, impossibilidades existiram nos momentos “iniciais” da “redescoberta” do mundo antigo é certo que – à medida que foram evidenciados – tiveram uns retoques de forma a eliminar possíveis arestas demasiado bicudas para que não pudessem caber numa visão holística do mundo que deve mais à teimosia em a perpetuar do que à sagacidade em a questionar

Assim, E Gibbon descreve em pormenor o exército romano, a sua organização, números, materiais e tácticas.

A muito conhecida “legião” era composta de 10 coortes (a primeira coorte composta por 1105 soldados as nove restantes por 555 cada uma; a totalidade da infantaria legionária seria de 6100 homens).
A cavalaria seria dividida em 10 tropas ou esquadrões – o primeiro com 132 homens, enquanto os outros 9 eram compostos por 66 cada um – ou seja, um total de 726 homens montados ligadas à sua legião.
Um total de 6826 militares aos que teríamos de juntar os seus auxiliares, o que seria um total aproximado de uns 12 500 homens.
A paz estabelecida por Adriano e seus sucessores estava garantida por - nada mais nada menos - do que 30 Legiões… o que formaria um conjunto de 375000 homens – em tempos de paz… este era um exército muito maior do que o disponível por Napoleão no séc. XIX! (frisar aqui questões estatísticas de relação populacional entre as duas épocas para que se entenda o ponto exclamativo).

Para abastecer um exército de tal envergadura – seria necessária uma indústria de armamento extremamente desenvolvida.
E Gibbon explicita armas de ferro (e mesmo de aço):
“Para além da sua lança ligeira, o legionário agarrava na sua mão direita o Pilum, cujo comprimento total era de uns seis pés (uns 182.88 cm) e que terminava numa massiva ponta triangular de aço de umas 18 polegadas (45.72 cm). Noutro local refere o uso de “…maças e lanças de ferro…”.

É crença comum que a extracção de ferro dos resíduos mineiros era prática habitual no Império Romano.
No entanto, para derreter ferro puro, necessita-se de uma temperatura de 1539ºC – que não se pode obter apenas através da queima de madeira ou carvão - sem o afluxo de ar que só as modernas fornalhas inventadas mais de 1000 anos depois podem fornecer

Mesmo em pleno século XV, o ferro produzido era de uma qualidade relativamente pobre devido a que grandes quantidades de carbono deviam ser absorvidas de forma a baixar a temperatura de fusão até aos 1150ºC.

Temos ainda o impedimento da escassez de recursos – as fornalhas de explosão do séc. XVI requeriam grandes quantidades de madeira para produzir carvão – um método caro e sujo que conduziu à desflorestação de grande parte da Europa

Como teria conseguido suster a Roma antiga, uma tal produção de ferro de qualidade em escala suficiente para suprir os milhares de toneladas de armas e equipamentos do seu vasto exército?...

Apenas pelo tamanho do exército, poderíamos concluir que a população do Império Romano de Oriente e Occidente no séc. II E.C seria de – pelo menos – 20 milhões de pessoas, podendo ter chegado aos 40-50 milhões.

E.Gibbon fala de 1197 cidades na península Itálica.
A cidade de Roma – só por sí – possuía mais de 500.000 habitantes, havendo no entanto outras grandes metrópoles ao longo do Império.
Todas estas cidades estavam ligadas por vastas redes de vias públicas pavimentadas ("auto estradas" ou "avenidas" no caso da ligação entre cidades) – com o seu comprimento combinado superando os 6420 km!
Isto apenas seria possível numa sociedade tecnologicamente avançada…

Segundo J.C Russell - no séc. IV E.C – a população do Império de Occidente era de aproximadamente 22 milhões de pessoas (incluindo 750.000 pessoas na actual Inglaterra e 5.000.000 na actual França) e a de Oriente de aproximadamente 34 milhões.

Não é muito difícil notar que há um sério problema com estes números…

Na Inglaterra, a população de 4 milhões de habitantes no séc. XV subiu para 62 milhões no séc. XX.
Da mesma forma na França, uma população de 20 milhões no séc. XVII (reinado de Luís XIV) cresceu para 60 milhões no séc. XX.

Este crescimento ocorreu mesmo tendo em conta as perdas devidas a numerosos conflitos atrozes.
Sabemos pelos registos históricos que – nas guerras Napoleónicas – cerca de 3 milhões de pessoas pereceram, na sua grande maioria homens jovens.
Mas também temos a revolução Francesa, as guerras do séc. XVIII, a primeira guerra mundial…
Assumindo um crescimento populacional contínuo, é fácil calcular que a população da Inglaterra duplicou em cada 120 anos enquanto que a da França duplicou em cada 190 anos no período de tempo em causa.


De acordo com as projecções – os habitantes da Inglaterra em pleno Império (séc. IV e V) teriam de ser uns 10-15.000 enquanto os da França seriam uns 170-250.000… No entanto, de acordo com a estimativa com base nesses tais “documentos históricos”, o número teria de ser de milhões, não de milhares!


Explicações lógicas para a estagnação ou decréscimo populacional no início do séc. V falham… falta de higiene, epidemias, menor tempo de vida - simplesmente esmorecem se tomarmos em conta que desde o séc. V até ao séc. XVIII não conhecemos nenhuma melhoria significativa das condições sanitárias na Europa Ocidental.
Aliás – a introdução de armas de fogo no séc. XV - resultou num incremento no número de vítimas de guerra…

De acordo com os serviços demográficos da UNESCO – é necessário um acréscimo de 0.2% anual na população como forma de manter um crescimento demográfico sustentado.
Um decréscimo – ainda que de apenas 0.02% anual - seria tido como uma catástrofe demográfica.

Não há evidências de uma tal hecatombe na história da raça humana.
Assim – não há razões para assumir que o crescimento populacional nos tempos da antiguidade diferiria significativamente do crescimento populacional em épocas posteriores. Como justificar este total desfasamento entre as fontes “históricas” e os dados demográficos?...

Mas há mais discrepâncias.

Note-se que o conhecimento e tecnologia tradicionalmente associados com o mundo antigo presumivelmente desaparecem durante a “Idade das Trevas”, ressurgindo apenas no séc. XV com o início da Renascença.

A história da matemática promove uma análise desta situação bizarra, usando-se como referência os grandes triunfos do pensamento tal como preconizados – desde a aritmética e geometria gregas até à invenção do cálculo por I. Newton (1643-1727) e G.W. Leibnitz (1646-1716) contemplamos um vazio de 1000 anos separando a antiguidade da era moderna.
E que dizer sobre a astronomia, química (alquimia), medicina, biologia e física?

Actualmente somos incapazes de construir objectos simples criados na antiguidade emulando a forma como – supostamente - foram trabalhados na altura!
Isto, neste tempo no que a tecnologia produziu o vaivém espacial e a ciência está prestes a clonar o corpo humano!
Será deveras improdutivo manter a culpa destas incapacidades nos segredos perdidos do passado ou até na destruição da livraria de Alexandria…

Parece a muitos que a cronologia da tecnologia e desenvolvimento científico deveria ser estudada mais a fundo – e não apenas por historiadores - mas por equipas das áreas do saber que são abrangidas por esta revolução do pensamento e da forma de se pensar na nossa cronologia e história como espécie.

Produção dos monólitos do Egipto em plena idade do bronze, cálculos astronómicos precisos sem auxílio de relógios mecânicos, objectos de vidro e espelhos de há mais de 5.000 anos… tudo contradições que não se sustentam no modelo cronológico actual

Mas – voltemos à matemática e à suposta Roma antiga.
O sistema numeral romano simplesmente desencorajaria qualquer cálculo sério.



Como poderiam os romanos construir pontes, templos, e aquedutos sem um método de cálculo preciso e elaborado?

O principal problema dos numerais romanos é que resultam completamente obsoletos para realizar a mais simples das operações (como a soma), já para não falar da multiplicação ou divisão.

Nas primeiras universidades Europeias, os algoritmos para multiplicar utilizando numerais romanos eram tema para teses de doutoramento na área da pesquisa.
É absolutamente impossível utilizar os mal acabados números romanos em operações de estágios múltiplos consecutivos.
O sistema Romano não comportava o numeral “zero”.
Mesmo as operações decimais mais simples eram impossíveis utilizando numerais romanos (procure somar utilizando os valores romanos):

MCDXXV+MCMLXV22

(ou multiplicar):

DCLIII ×
CXCIX23

Melhor ainda – cultive o ócio (deixe de ver telenovelas e tal…) e procure construir uma tábua de multiplicar utilizando números Romanos.
E fracções?
E – operações com fracções?...



Apesar destes rombos enormes – é suposto o sistema romano ter-se mantido como a principal representação de numerais na cultura Europeia até ao séc. XIV

Como teriam os Romanos sucesso nos seus cálculos e na sua complexa contagem astronómica?

Mais desconexões…

É suposto que o matemático Grego Diofanto (200/214 - 284/298?) conseguiu solucionar o seguinte sistema de equações (diofânticas em sua memória):

x31 + x2 = y3
x1 + x2 = y

De acordo com a nossa cronologia e segundo os historiadores, no tempo de Diofanto, só se usava uma incógnita em equações, o símbolo de adição não existia nem o símbolo para “zero”.

Como poderiam as equações Diofânticas ter sido resolvidas usando numerais gregos ou romanos?...
Podemos reproduzir essas soluções com o material supostamente disponível na altura?...
Estaremos a lidar com mais um dos “mistérios” da antiguidade que tanto pão dão a cartomantes, revistas sensacionalistas e aos próprios média?...

Meus caros – o próprio Leonardo DaVinci - no início do século XVI – tinha problemas na resolução de potencias fraccionais.
É interessante notar que – nos trabalhos de DaVinci - não há tampouco rastos de “zero” e que usava 22/7 como aproximação de Pi (provavelmente seria esta a melhor aproximação de Pi disponível na altura…).

Mais um dado para pensar – a invenção dos logaritmos (o logaritmo de um número X – de base 10 – expressa o número de dígitos da representação decimal de X) está directamente ligada à ideia de posicionamento do sistema numérico – ergo – os numerais Romanos nunca poderiam ter desencadeado a sua descoberta

A prison that you can’t smell or taste or touch… a prison for your mind

segunda-feira, janeiro 09, 2006

The Constant Gardner





The Constant Gardner

Vi agora este filme “O Fiel Jardineiro”.
O realizador – Meirelles – dá uma imagem que não deixa em nada atrás a sua anterior “Cidade de Deus”.

http://www.apple.com/trailers/focus_features/the_constant_gardener.html

A mim – particularmente – tocou-me.

Toca-me por estar dentro do “sistema” de saúde – sobretudo daquele que nos tem invadido desde a adesão europeia e que se predestina como uma cópia modelada do liberal americano; toca-me por já ter estado ligado a uma dita “ONG” em serviço num “país em vias de desenvolvimento” (nova taxionomia do termo antigo “País de Terceiro Mundo”).

O primeiro – o sistema de saúde – seria melhor chamado de “Sistema de Doença”.
Meus caros – funciona – e, porque funciona, bancos (cada entidade bancária é dona do seu sistema privatizado de saúde – “Medis” e Ca limitada) e empresas o tornam negócio e a põem a render.
Funciona porque dá lucro – e o que dá lucro não é a saúde mas sim a doença…

É doentio – mas certo – as empreitadas particulares atingiram escalas completamente descabidas.
Desde o retalhista particular que vende enfermagem ou medicina porta a porta (mas o não faz – regra geral – no serviço público), farmácia e afins – até às empreitadas de cooperativa ou os “holding” locais e as todo-poderosas multinacionais.

Nesta anedota do humor mais negro, os valores (sim – os tais Hipócrates e Nightingales e seus respectivos juramentos que mais ninguém recorda a não ser para o dia da nomeação em cerimónia a condizer) foram pelo cano do poder económico.

Hoje na saúde – não dou o melhor – dou o mais equilibrado a olhos de um economista (gestor – ainda que seja amador, como permitiram os decretos de lei bizarros que deixaram áreas como a gestão de equipas de Enfermagem em centros de saúde ou a grande escala em unidades hospitalares a leigos que fossem do gosto dos órgãos de planificação politicamente instituídos – veja-se exemplo do antigo CHAM de Viana do Castelo ou de alguns Centros de Saúde da mesma zona entre outros).

Hoje dou 3 preservativos x semana x utente em planeamento familiar…
Dou injecções intradérmicas (sim – os BCGs ao vossos recém nascidos) com agulhas sub-cutâneas…
Dou injecções intramusculares com calibre de 8x40 e 9x40 porque não há de 7x40 (que são muito mais finas – mas suponho que o traseiro das públicas deve ser mais resistente que o das privadas – onde se cobra o material e a mão de obra – como se estivéssemos na oficina de montagem de um qualquer mecânico)…
Chego ao cúmulo de necessitar preencher um requerimento (uma folha de papel) para ter uma folha de papel…
Vocês, da zona de Viana do Castelo, que têm o novo esquema de vacinação, vão levar os vossos bebés a uma sessão de tortura por agulha. Isto porque – ao contrário do preconizado – não houve distribuição de vacinas “penta” (Com, hemophilus, Difteria “a”, Tosse Convulsa, Tetânica, Polio inactivada) e – assim – vamos dar 3-4 injecções a distribuir pelas coxas de bebés de 2 a 6 meses…
A opção “económica” deixou a “penta” de fora…

E – o mais curioso – é que, as tais “ordens”, para além de contribuírem para a soberba de quem já é dr (com letra piquinina – mas dr carago!) nem se manifestam.
Quando é suposto – caso da ordem à que pertenço – zelarem pela qualidade dos cuidados de Enfermagem prestados… enfim.
O que me pedem – não é a qualidade do atendimento (ninguém vê o que escrevo nos registos, nem se tenho tempo para o fazer). O que conta são os tracinhos (sim – aqui, cada atendimento corresponde a um tracinho numa folha – como na mercearia) que é o que vai para os organismos centrais.
Esta é uma saúde de tracinhos para pauzinhos…

Isto uma pequena amostra da anedota que – actualmente – é o tal ideal da saúde.

A nível internacional - a letra muda – a música é amesma...

Tal como uma das personagens do filme aponta – todos: multinacionais (são as que “cedem” medicação e equipamentos e realizam investigação no terreno), governos (matérias primas, controle geo-estratégico, aculturação) e ONGs (idem ao anterior pois -se virem os financiadores de projectos nas tais “Organizações Não Governamentais” vão ver – no caso português em Timor – o IPAD (Instituto Português de Ajuda ao Desenvolvimento – vulgo Ministério dos NEGÓCIOS Estrangeiros Português), a ECHO (a Organização Humanitária da Comissão Europeia) e mesmo a USAID (Prima das duas anteriores mas do ministério dos nossos amigos dos States).

Meus caros – os projectos são planificados em mesa de capital europeia, ou americana – à rebeldia muitas das vezes dos próprios governos locais e das equipas no terreno.

Temos o caso dos tais jipes UN que passeiam por entre as barracas de Timor, as festas nas casas privadas (casarões se comparados aos de lá e aos de cá) dos elementos de staff local, os salários da plebe das UN e da maioria das ONGs (que – de voluntários não temos nada – pois recebemos salários e ajudas de custo no terreno – no caso das UN – um mínimo de 2500 $US per capita…).

Temos o uso e abuso de causas locais (como foi o celeuma da educação moral em Timor e a sua evolução para tentativa de deposição de governo – lembrem que, governo de esquerda declarada, não é benéfico a olhos de republicanos de ultra mar – sobretudo se querem instalar lá bases militares e os tais “timorensezinhos” – afinal – têm mais bolas do que outras nações “world wide” que se abriram de pernas há muito e venderam pedaços de terreno para estarem protegidos do lobo mau… hoje não há lobo mau, mas as bases lá permanecem).

Temos as jantaradas no hotel de 5 *, as compras em supermercados australianos (que Timorense só pisa se lá trabalha), os carros de importação com preço de bujiganga para expatriados com 3 anos de escola… vidinha dura – mas não a nossa…

Os tais medicamentos de primeira linha que são vertidos como água e que abrem as portas a que – quando a comercialização lá se abater – sejam os de 3ª ou 4ª geração que tenham de ser comprados pelo governo (se algum dia tiver fundos próprios para além das esmolas do petróleo que os Australianos e Japoneses lhes possam ir dando).

Não é necessário ir tão longe como a experimentação de medicação em seres humanos de 2ª a olhos das nações ditas “desenvolvidas”.
Temos casos bem mais óbvios e tolerados nas nossas relações laborais - estilo empresarial - actuais… quem não encolhe as orelhas face a um contrato precário e faz o que os “boss” mandam ainda que vá contra a sua dignidade profissional ou mesmo pessoal?...

Mas – se querem encontrar os responsáveis – há uma técnica infalível, a saber:

Apaguem as luzes e vão até ao quarto. Façam isto à noite…

Procurem o maior espelho que tiverem lá… e coloquem-se na sua frente.

Tenham um candeeiro à mão…

Agora – meditem…

Quando compro a gasolina para o meu carro – quantas guerras por petróleo paguei?...

Quando calo ao me roubarem os meus direitos civis (a minha educação, saúde e justiça – em igualdade de circunstâncias – e gratuita)…

Quando dou o meu poder de decisão a um papel que – me empurra – a escolher entre 5 ou 6 produtos de campanha eleitoral e máquina partidária – mas que, nem falam a mesma linguagem que eu, nem passam as mesmas dificuldades a fim de mês, nem vivem como o tal povo que dizem representar – a culpa é deles?...

Quando os produtos vêem parar a minha casa, a minha dispensa, ao meu armário – penso nas vidas de quem as produziu, de quem as elaborou?...
Na qualidade de vida que têm os que produzem materiais a preço de nada, nas matérias-primas retiradas dos países de origem a troco de contas de vidro ou cargos de governo?...

Quando compro um bilhete de cinema para um block buster de tantos “0” que até nem conto, ou quando compro bilhete de bancada num jogo onde o tal Mourinho recebe – num mês - mais que qualquer homem ou mulher de classe média numa vida (sem contar direitos de imagem e afins)…

Quando o tal governo escolhido à força de não haver mais nada, vai para guerras fantasma contra países que nunca nos fizeram nada (ir para a guerra não é só mandar gente com armas – mas apoiar quem as manda) e mostra sem pudor – as lajes de terras de Lusíadas compradas a preço de dólar – enfeitadas para a palhaçada internacional…

Ao fim destas perguntas – e mais algumas que lhe possam aparecer enquanto se responde – pense se tem a coragem de acender a luz…

Ao contrário do que possa parecer – eu não tenho dúvidas.

A responsabilidade de coisas como as do filme – não vem dos políticos, das multinacionais, dos sistemas de saúde, da liberalização, da cultura global, dos média sensacionalistas, das novelas, dos jogos de computador, dos filmes de holliwood, dos shopping center ou outras formas de anestesiar a consciência de responsabilidade que possamos ter…

Não dá para apontar o dedo sem encontrar um telhado de vidro – nos exemplos acima referidos sou eu quem recebe a pedrada, não os outros. É o meu silêncio que grita…

Baixo múltiplas desculpas, temos escondido a falta de razão para não fazermos nada.

Acende a luz – olha-te no espelho.

A responsabilidade – é minha, é tua…

Vou, vais fazer algo?
Ou vou – vais - continuar a ver filmes e a apontar desculpas mais do que a ter uma razão?...

Esta é a pergunta que me faço e que optei por partilhar com quem quiser ler…

sexta-feira, novembro 18, 2005

Demanda...















Mariamne foi – primeira – esposa e mártir por uma causa de milénios perdida…
Sangue de esfinges - Mãe, Glaphyra
Pai com nome Selêucida e filho de reis rebeldes…

Nascido num ano antergo… anterior a mim…
De um massacre de inocentes – pai contra meu pai…
Nu nascido, logo ungido… rei

Visitado por aliados antigos…
Vaticinado como herdeiro do que lutou contra Deus
Oculto, fugido, para terras da minha mãe…

Regressei…
Abraçado pelos que esperavam mudança
Temido pelos que se investiram de poder
Dos escolásticos nada esperei… debates, análises, estudos…

Mas – entre as seitas, clãs e castas
Apenas discórdia seguiu meu nome

Marchei…
Como Novo Judas,
E Limpei – o que ímpios mancharam

Com punho de ferro entrei
Aclamado, folhas de vitória pisei…
Emulando os fados…

Retirei efígies dos deuses pagãos
Expulsei usurpadores, soldados e vendilhões…
Icei as bandeiras silenciosas do meu povo
Para que o meu povo soubesse que era eu rei…


Preparei-me…

Um vendaval da Síria se abateria
De Cesareia o fogo choveria…

Mas eu mantive-me sobre o rochedo
Sem arredar pé, sem vacilar…
Arreda Satanás – a mim não me tentas…

Os eruditos ainda debatiam…
Seus medos e ignorância remexiam…
Mais uma vez… o povo beijará teu chão…

E eu soube

Preparei um final
Mandei perguntar ao povo o que queria
Se uma vida de escravos – mas vida
Se uma morte como homens livres… na luta

Vim trazer a espada… disse eu

Mas – os que mandam nos servos - assim falaram:

“Mais vale um homem que morra pelo povo
Do que um povo morto pela espada…”

Um homem para os unir
Um homem para os entrelaçar
Um homem para a todos juntar na terra dos que se erguem
Dos que lutam e ganham seu nome
Terra de homens e não terra de réus…

Mas falou assim o conselho,
Assim quiseram os pobres:
Que tudo o que vim para unir se quebrasse
Para que os pobres e doentes assim ficassem

Meu fiel me entrega
Verdadeira Ágape, ósculo imaculado
Nas portas de muralhas vazias
Perante estandartes púrpura e efígies estranhas

Caminhamos – não vim só…
Mais quiseram não vergar…

Vejo, nos confins do horizonte
Um tempo no que eles se erguem
Eles que hesitaram,
Desta vez, já sem duvidas,
Os encaram - de frente
Essas águias que desgarram até à morte

Massada… meu espírito sobre ti…
Judas, em seus muros, suicídio em vez de escravatura…
Foste melhor do que eu…

Caminho – para o prefeito…
Caminho – para o meu fim…

Vozes de caveiras em milhares
Sacrifícios milenares
Ao deus tirano que prende o Deus em ti

Madeiros plantados no Golgotá…
Pinheiros viventes, seiva vermelha
Penhor de Morlock, geena maldita…

Olho no alto, olho no longe…
Vejo o deus da ira
Rebento de Novo, ceptro florido…
Paredes quebradas, gente estilhaçada… shekinah errante…

Grito…
…entendo o meu pranto…
…mais vale quebrar que vergar!

Brisa ao de leve…
Luz que se expande…
Esquecimento…

Contem esta história…
Digam que me entregaram
30 moedas de prata
Filósofo que – desta - pagou…
E recebeu…

Na destra
Na sinistra
Filhos de um trovão, nunca mais silenciados

Caminhamos para a eternidade…
Passado ecoando no tempo…

Tantos outros…
Subjugados…
No jugo da águia que te rasga o ventre
E consome teu poder… mestre

Gálias

Bretanhas antergas

Lusitanias

Tantos outros que não cederam…

Preferiram partir… indo livres
Asas de vento…
A ter de ficar
Presos do tempo

Eu criei a lenda
De vergar o tirano
Em tirano me tornei…

quinta-feira, novembro 17, 2005

Santa Luzia















Que vemos, nós que vagamos, no horizonte dos sonhos... tão tentador, tão puro em essência?...

Que procuramos, nós que erramos, nas curvas da vida... tão vago, tão esquivo, tão subtil e sublime?

Que lembramos, nós que aprendemos, nas horas que passam; nos olhares que se afastam...

tão efémero,
tão súbito,

tão intenso que nos trespassa,

tão brilhante que cega e nos faz esquecer fronteiras, destruir barreiras...

Que sentimos, que nos faz voar; que poder nos devolve as asas, que força nos levanta do lodo, que esperança no ergue o olhar?...

Que será o que faz de nós crianças:
Que se divertem com as rimas de letras sem graça
Que se esquecem das horas, do tempo que passa
Que se enrolam sem medo, pudor ou lembranças?...

Que será?...

quinta-feira, novembro 10, 2005


Queda:

Pureza que mergulha no vaso petreo da vida;
Limpidez que se mescla com o po do caminhar;
Lama que te envolve e em barro te transforma;
Ate que marchas como soldado das colunas dormentes,
Longe do eco dos sonhos que já tiveste;

Perto dos mitos que filtram estes veus de confusão
Que nos vemos obrigados a engolir em cada instante de tempo
Perdido na marcha desalinhada de inocentes sem destino
Enredado nas colunas cegas dos que se perdem nas neblinas
Dos tempos que ja mais não voltam.

Espelho:

De reflexos cristalinos, ecos de um mundo antergo e perdido...
De tempos de inocência, de imagens límpidas, de olhares transparentes;

Agora mostras as marcas das garras que dilaceram;
da passagem das eras por entre o brilho falso de ouro frio,
da decadência da carne derretida no fogo velho que já não renova.

Secreto:

Como esta vontade de ir em frente que não me larga;
Como a esperança de "algo" novo que me arrasta?...

Com a mente perdida neste lugar sem tempo
Mergulho no dia de "chuva dissolvente", procurando-te!

Tu - resposta às perguntas gravadas a ferro e fogo em cada milímetro desta pele caduca
Tu - asas de anjo caído em busca do seu  redentor?...

Longe:

Da rotina que corrói a vontade de algo novo...
Do hábito de vergar e dizer sim ao que causa repulsa;

Do amor dos Homens, da vida das gentes;
Do calor da pertença, do vigor de quem se sabe querido...

Só o Sol me dá calor, só o cantar das águas dá vida aos momentos;
Sá a rocha me incute o seu sólido vigor, só esta natureza viva me fala de amor...

The Return of the Ring



Aqui - nas montanhas - começam os meus domínios...

Nelas - perdido de tudo e de todos - tem pairado o meu espírito dormente... em busca de cura e luz para um regresso a terras de sombra e dôr;

Não há graal que sare esta certeza de algo que não encontro, de algo que aqui não está...

Exilado de outras paragéns, procuro alívio para a dôr da perda nas árvores verdes, nas pedras imensas, nas águas cristalinas...

Vem pois - para que te mostre o meu pequeno reino. O meu segredo encravado na montanha...

Passearemos juntos por terras veladas, lugares que apenas viram alguns mortais...