pub

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Historic Stories




Que diria se – com o passar do tempo relativamente a um evento – mais e mais dados fossem conhecidos de forma a que, em vez de o evento ter sido descrito ou sequer conhecido inicialmente com alguma definição, tivesse sido (RE)CONSTRUÍDO gradualmente?
Que a recordação fosse mais clara do que a experiência?...

Este é o processo que leva à criação de um mito, de uma lenda, de uma história forjada (como a Terra Média de Tolkien – que se foi expandindo desde os seus esboços iniciais, muitas vezes confusos e gerais, até se tornarem num vasto mundo de complexos entramados, bem definidos e com lógica sequencial mas existindo apenas na mente de um homem e na imaginação dos seus fãs… ou não?).

A nossa história – tal como a tal “Terra Média”, começa num determinado ponto a ser (re)construída e – com o passar do tempo, torna-se mais complexa, interrelacionada, definida e divulgada… da ignorância do momento presente (no passado) passamos para o conhecimento do momento passado (no presente).

Pode parecer-lhe estranho, mas – apenas desde a Renascença tardia – mais concretamente com I. Scaliger (1540-1609) e, finalmente com D. Petavius (1583-1652), é que uma certa cronologia com eventos globais pôde ser reconstruída e se tornou mais ou menos aceite.

Até ao séc. XVI-XVII, os manuscritos e fragmentos de “história” não se encontravam datados, usavam sistemas de datação desconhecidos ou arcaicos e – muitas vezes – apenas referiam uma sucessão de eventos localizada no tempo, circunscritos a uma certa região ou país e sem relação com um enquadramento mais amplo.
Devemos frisar que – a maioria dos documentos históricos disponíveis actualmente e relativos a tempos da “antiguidade” ou à época “medieval” não são originais – são cópias realizadas em tempo indefinido, muitas vezes sob circunstâncias dúbias (um exercício curioso acerca deste tema das "falsas aparências" da história encontra-se no “Códex 632” de José Rodrigues dos Santos).

Ao contrário do que aprendemos – rápida e pouco criticamente – nem todos os especialistas estão (ou estiveram) de acordo com o sistema cronológico actualmente utilizado.
No mesmo momento da elaboração da cronologia de Scaliger/ Petavius - actualmente utilizada - muitos investigadores levantaram objecções;
D. Arcilla – Universidade de Salamanca em Espanha – referia que a história antiga tinha resultado de uma fabricação do final da idade média;
Jean Hardouin – director da Biblioteca Real Francesa, declarava que as antiguidades e textos antigos haviam sido criados (ou falsificados) após o séc. XII…

O mais famoso cientista contemporâneo à criação da cronologia actual – Sir Isaac Newton – mostrou-se também em contra da cronologia de Scaliger e Petavius.
Newton publicou uma monografia “Cronologia dos Reinos Antigos Corrigida”, na que apresentava muitos dos maiores eventos da antiguidade deslocando-os vários séculos para a frente…

Cientistas, filólogos, historiadores e juristas levantaram a voz contra o sistema de datação que terminaria por ser globalmente introduzido. Actualmente as vozes discordantes mantêm-se vivas.

Nicolai A. Morozov (1854-1946), proeminente cientista Russo – publicou uma monografia que, usando métodos de análise matemático aplicados às descobertas de foro da astronomia, linguística, filologia e geologia, implicava os eventos tidos como do “mundo antigo” como apenas possíveis a partir do séc. III da Era Comum (E.C) actual.

A partir de 1970 – na Universidade Estatual de Moscovo – Anatoly A. Fomenko em conjunto com graduados em matemática desenvolveu as teorias de Morozov.
Com uma precisão sistemática – modelos sequenciais de genealogias e governantes do mundo antigo foram analisados e contrastadas com os da era moderna.

Destes – sacamos uma conclusão curiosa.
Através de análise estatística, Fomenko revelou “coincidências” nas dinastias de regentes que levavam a duplicados – mudando apenas o nome, época cronológica e/ou localização geográfica…

Estas coincidências – que são estatísticamente quase impossíveis se tomarmos em conta apenas sequências de 10 elementos – tornam-se uma evidente prova de construção artificial na história visto que Fomenko analisou dinastias de até 15 elementos, adaptando até os possíveis erros de interpretação com +- x anos relativamente ao factual histórico registado e continuou a encontrar as ditas "artificialidades"…

Outro dado curioso acerca das sequências – as coincidências dinásticas apenas se davam até ao início de dinastias bem documentadas – ou seja – elas cessavam a partir do séc. XVI…

Como exemplo ficam as dinastias comparadas do Sacro Império Romano-Germánico (séc. X-XIII E.C) e uma outra dos Reis Judeus de acordo com a bíblia (séc IX-V A.E.C).
No gráfico que se segue mostram-se ambas as dinastias, começando num ano “0” – que não é um início de acordo com alguma era, mas sim o início da dinastia em questão.








Há mais paralelos semelhantes. Como outro exemplo, o primeiro período do Episcopado Romano (141-314 E.C) e o segundo período do Episcopado Romano ( 314-532 E.C):






Os paralelismos encontrados ao longo de múltiplas ocorrências do mundo antigo sugerem que se trata de múltiplas versões de um mesmo acontecimento espalhadas em várias localizações geográficas ao longo de várias épocas cronológicas.

A análise de dados astronómicos apenas confirma os dados que Morozov e Fomenko (entre outros) têm vindo a analisar e questionar.

Se Scaliger tomou grandes eventos (como a batalha do Peloponeso, a fundação de Roma, a guerra de Tróia) como referências para organizar a sua sucessão de eventos, de forma a construir uma progressão global e sistemática à que pudéssemos chamar cronologia, os dados astronómicos constantes em documentação atribuível à época situam a batalha do Peloponeso (antiga Grécia) não no séc. VI A.E.C, mas sim no séc. XI E.C…
Ou a documentação disponível terá sido forjada em datas muitíssimo posteriores aos possíveis acontecimentos registados ou os acontecimentos registados ocorreram em data muitíssimo posterior a aquilo que cremos na nossa cronologia actual, ou…

Poderíamos dizer que – métodos como o carbono 14 interfeririam com esta tese e dariam uma aura de credibilidade aos achados e sua contribuição para a cronologia tal como a conhecemos mas – realmente – ditos métodos de datação química necessitam de um objecto contemporâneo (ao achado) para realizar o contraste da datação… ou seja – se a referência cronológica é a que está adulterada, a datação por método químico dará um dado consentâneo… adulterado.
Já agora - num futuro - será impossível usar este método de datação para objectos ou restos a partir de 1940... a invenção da radioactividade controlada torna este método variável (imagine-se se alguém andou a brincar com radioctividade no passado... o tempo ou destempo que teremos em cima !).

Artigos Relacionados:

O Xadrez da História…

O famoso jogador de xadrez – Garry Kasparov – pertence ao grupo de notáveis que, actualmente, dá voz à contestação de muitas das premissas internacionalmente tidas como correctas cerca da história e da cronologia.

Tendo uma grande capacidade analítica e uma memória portentosa – dedica o seu tempo livre a analisar a história e a procurar enquadra-la dentro de moldes sistemáticos.
Neste seu “hobbie” – como se de uma partida de xadrez se tratasse – muitas das jogadas do seu rival aparecem descontextualizadas, sem nexo, fora de uma linha de continuidade…

Numa incursão através do que actualmente é o (aparentemente) bem conhecido Império Romano e suas origens e - antes de analisar algum outro aspecto em pormenor - o autor refere que – na vastidão do império no seu auge – resulta complexo imaginar como se organizavam os serviços e a gestão sem mapas geográficos, sem sistema bancário; como o exército romano (de quem o império dependia para se prolongar no tempo e no espaço) foi incapaz de realizar incrementos e inovação nas suas armas e técnicas militares durante nove séculos de guerras contínuas…

Vamos agora aos números e à matemática.

Usemos para a análise em questão o trabalho monumental “Declínio e queda do Império Romano” – do historiador e erudito inglês Edward Gibbon (1737-1794), que marcou cânone e estabeleceu as bases da análise do mundo romano tal como o conhecemos hoje em dia.

Maravilhemo-nos em como as contradições e falta de sentido dos dados que – como os referidos – não levantaram questões ou nunca desafiaram o mais leigo de entre os leitores (para não falar dos eruditos) a questionar a autenticidade e a natureza das elaborações que – actualmente – conhecemos como “história” ou "cronologia”.

Se estas contradições, omissões, impossibilidades existiram nos momentos “iniciais” da “redescoberta” do mundo antigo é certo que – à medida que foram evidenciados – tiveram uns retoques de forma a eliminar possíveis arestas demasiado bicudas para que não pudessem caber numa visão holística do mundo que deve mais à teimosia em a perpetuar do que à sagacidade em a questionar…

Assim, E Gibbon descreve em pormenor o exército romano, a sua organização, números, materiais e tácticas.

A muito conhecida “legião” era composta de 10 coortes (a primeira coorte composta por 1105 soldados as nove restantes por 555 cada uma; a totalidade da infantaria legionária seria de 6100 homens).
A cavalaria seria dividida em 10 tropas ou esquadrões – o primeiro com 132 homens, enquanto os outros 9 eram compostos por 66 cada um – ou seja, um total de 726 homens montados ligadas à sua legião.
Um total de 6826 militares aos que teríamos de juntar os seus auxiliares, o que seria um total aproximado de uns 12 500 homens.
A paz estabelecida por Adriano e seus sucessores estava garantida por - nada mais nada menos - do que 30 Legiões… o que formaria um conjunto de 375000 homens – em tempos de paz… este era um exército muito maior do que o disponível por Napoleão no séc. XIX! (frisar aqui questões estatísticas de relação populacional entre as duas épocas para que se entenda o ponto exclamativo).

Para abastecer um exército de tal envergadura – seria necessária uma indústria de armamento extremamente desenvolvida.
E Gibbon explicita armas de ferro (e mesmo de aço):
“Para além da sua lança ligeira, o legionário agarrava na sua mão direita o Pilum, cujo comprimento total era de uns seis pés (uns 182.88 cm) e que terminava numa massiva ponta triangular de aço de umas 18 polegadas (45.72 cm). Noutro local refere o uso de “…maças e lanças de ferro…”.

É crença comum que a extracção de ferro dos resíduos mineiros era prática habitual no Império Romano.
No entanto, para derreter ferro puro, necessita-se de uma temperatura de 1539ºC – que não se pode obter apenas através da queima de madeira ou carvão - sem o afluxo de ar que só as modernas fornalhas inventadas mais de 1000 anos depois podem fornecer…

Mesmo em pleno século XV, o ferro produzido era de uma qualidade relativamente pobre devido a que grandes quantidades de carbono deviam ser absorvidas de forma a baixar a temperatura de fusão até aos 1150ºC.

Temos ainda o impedimento da escassez de recursos – as fornalhas de explosão do séc. XVI requeriam grandes quantidades de madeira para produzir carvão – um método caro e sujo que conduziu à desflorestação de grande parte da Europa…

Como teria conseguido suster a Roma antiga, uma tal produção de ferro de qualidade em escala suficiente para suprir os milhares de toneladas de armas e equipamentos do seu vasto exército?...

Apenas pelo tamanho do exército, poderíamos concluir que a população do Império Romano de Oriente e Occidente no séc. II E.C seria de – pelo menos – 20 milhões de pessoas, podendo ter chegado aos 40-50 milhões.

E.Gibbon fala de 1197 cidades na península Itálica.
A cidade de Roma – só por sí – possuía mais de 500.000 habitantes, havendo no entanto outras grandes metrópoles ao longo do Império.
Todas estas cidades estavam ligadas por vastas redes de vias públicas pavimentadas ("auto estradas" ou "avenidas" no caso da ligação entre cidades) – com o seu comprimento combinado superando os 6420 km!
Isto apenas seria possível numa sociedade tecnologicamente avançada…

Segundo J.C Russell - no séc. IV E.C – a população do Império de Occidente era de aproximadamente 22 milhões de pessoas (incluindo 750.000 pessoas na actual Inglaterra e 5.000.000 na actual França) e a de Oriente de aproximadamente 34 milhões.

Não é muito difícil notar que há um sério problema com estes números…

Na Inglaterra, a população de 4 milhões de habitantes no séc. XV subiu para 62 milhões no séc. XX.
Da mesma forma na França, uma população de 20 milhões no séc. XVII (reinado de Luís XIV) cresceu para 60 milhões no séc. XX.

Este crescimento ocorreu mesmo tendo em conta as perdas devidas a numerosos conflitos atrozes.
Sabemos pelos registos históricos que – nas guerras Napoleónicas – cerca de 3 milhões de pessoas pereceram, na sua grande maioria homens jovens.
Mas também temos a revolução Francesa, as guerras do séc. XVIII, a primeira guerra mundial…
Assumindo um crescimento populacional contínuo, é fácil calcular que a população da Inglaterra duplicou em cada 120 anos enquanto que a da França duplicou em cada 190 anos no período de tempo em causa.


De acordo com as projecções – os habitantes da Inglaterra em pleno Império (séc. IV e V) teriam de ser uns 10-15.000 enquanto os da França seriam uns 170-250.000… No entanto, de acordo com a estimativa com base nesses tais “documentos históricos”, o número teria de ser de milhões, não de milhares!


Explicações lógicas para a estagnação ou decréscimo populacional no início do séc. V falham… falta de higiene, epidemias, menor tempo de vida - simplesmente esmorecem se tomarmos em conta que desde o séc. V até ao séc. XVIII não conhecemos nenhuma melhoria significativa das condições sanitárias na Europa Ocidental.
Aliás – a introdução de armas de fogo no séc. XV - resultou num incremento no número de vítimas de guerra…

De acordo com os serviços demográficos da UNESCO – é necessário um acréscimo de 0.2% anual na população como forma de manter um crescimento demográfico sustentado.
Um decréscimo – ainda que de apenas 0.02% anual - seria tido como uma catástrofe demográfica.

Não há evidências de uma tal hecatombe na história da raça humana.
Assim – não há razões para assumir que o crescimento populacional nos tempos da antiguidade diferiria significativamente do crescimento populacional em épocas posteriores. Como justificar este total desfasamento entre as fontes “históricas” e os dados demográficos?...

Mas há mais discrepâncias.

Note-se que o conhecimento e tecnologia tradicionalmente associados com o mundo antigo presumivelmente desaparecem durante a “Idade das Trevas”, ressurgindo apenas no séc. XV com o início da Renascença.

A história da matemática promove uma análise desta situação bizarra, usando-se como referência os grandes triunfos do pensamento tal como preconizados – desde a aritmética e geometria gregas até à invenção do cálculo por I. Newton (1643-1727) e G.W. Leibnitz (1646-1716) contemplamos um vazio de 1000 anos separando a antiguidade da era moderna.
E que dizer sobre a astronomia, química (alquimia), medicina, biologia e física?

Actualmente somos incapazes de construir objectos simples criados na antiguidade emulando a forma como – supostamente - foram trabalhados na altura!
Isto, neste tempo no que a tecnologia produziu o vaivém espacial e a ciência está prestes a clonar o corpo humano!
Será deveras improdutivo manter a culpa destas incapacidades nos segredos perdidos do passado ou até na destruição da livraria de Alexandria…

Parece a muitos que a cronologia da tecnologia e desenvolvimento científico deveria ser estudada mais a fundo – e não apenas por historiadores - mas por equipas das áreas do saber que são abrangidas por esta revolução do pensamento e da forma de se pensar na nossa cronologia e história como espécie.

Produção dos monólitos do Egipto em plena idade do bronze, cálculos astronómicos precisos sem auxílio de relógios mecânicos, objectos de vidro e espelhos de há mais de 5.000 anos… tudo contradições que não se sustentam no modelo cronológico actual…

Mas – voltemos à matemática e à suposta Roma antiga.
O sistema numeral romano simplesmente desencorajaria qualquer cálculo sério.



Como poderiam os romanos construir pontes, templos, e aquedutos sem um método de cálculo preciso e elaborado?

O principal problema dos numerais romanos é que resultam completamente obsoletos para realizar a mais simples das operações (como a soma), já para não falar da multiplicação ou divisão.

Nas primeiras universidades Europeias, os algoritmos para multiplicar utilizando numerais romanos eram tema para teses de doutoramento na área da pesquisa.
É absolutamente impossível utilizar os mal acabados números romanos em operações de estágios múltiplos consecutivos.
O sistema Romano não comportava o numeral “zero”.
Mesmo as operações decimais mais simples eram impossíveis utilizando numerais romanos (procure somar utilizando os valores romanos):

MCDXXV+MCMLXV22

(ou multiplicar):

DCLIII ×
CXCIX23

Melhor ainda – cultive o ócio (deixe de ver telenovelas e tal…) e procure construir uma tábua de multiplicar utilizando números Romanos.
E fracções?
E – operações com fracções?...



Apesar destes rombos enormes – é suposto o sistema romano ter-se mantido como a principal representação de numerais na cultura Europeia até ao séc. XIV…

Como teriam os Romanos sucesso nos seus cálculos e na sua complexa contagem astronómica?

Mais desconexões…

É suposto que o matemático Grego Diofanto (200/214 - 284/298?) conseguiu solucionar o seguinte sistema de equações (diofânticas em sua memória):

x31 + x2 = y3
x1 + x2 = y

De acordo com a nossa cronologia e segundo os historiadores, no tempo de Diofanto, só se usava uma incógnita em equações, o símbolo de adição não existia nem o símbolo para “zero”.

Como poderiam as equações Diofânticas ter sido resolvidas usando numerais gregos ou romanos?...
Podemos reproduzir essas soluções com o material supostamente disponível na altura?...
Estaremos a lidar com mais um dos “mistérios” da antiguidade que tanto pão dão a cartomantes, revistas sensacionalistas e aos próprios média?...

Meus caros – o próprio Leonardo DaVinci - no início do século XVI – tinha problemas na resolução de potencias fraccionais.
É interessante notar que – nos trabalhos de DaVinci - não há tampouco rastos de “zero” e que usava 22/7 como aproximação de Pi (provavelmente seria esta a melhor aproximação de Pi disponível na altura…).

Mais um dado para pensar – a invenção dos logaritmos (o logaritmo de um número X – de base 10 – expressa o número de dígitos da representação decimal de X) está directamente ligada à ideia de posicionamento do sistema numérico – ergo – os numerais Romanos nunca poderiam ter desencadeado a sua descoberta…

“A prison that you can’t smell or taste or touch… a prison for your mind”

segunda-feira, janeiro 09, 2006

The Constant Gardner





The Constant Gardner

Vi agora este filme “O Fiel Jardineiro”.
O realizador – Meirelles – dá uma imagem que não deixa em nada atrás a sua anterior “Cidade de Deus”.

http://www.apple.com/trailers/focus_features/the_constant_gardener.html

A mim – particularmente – tocou-me.

Toca-me por estar dentro do “sistema” de saúde – sobretudo daquele que nos tem invadido desde a adesão europeia e que se predestina como uma cópia modelada do liberal americano; toca-me por já ter estado ligado a uma dita “ONG” em serviço num “país em vias de desenvolvimento” (nova taxionomia do termo antigo “País de Terceiro Mundo”).

O primeiro – o sistema de saúde – seria melhor chamado de “Sistema de Doença”.
Meus caros – funciona – e, porque funciona, bancos (cada entidade bancária é dona do seu sistema privatizado de saúde – “Medis” e Ca limitada) e empresas o tornam negócio e a põem a render.
Funciona porque dá lucro – e o que dá lucro não é a saúde mas sim a doença…

É doentio – mas certo – as empreitadas particulares atingiram escalas completamente descabidas.
Desde o retalhista particular que vende enfermagem ou medicina porta a porta (mas o não faz – regra geral – no serviço público), farmácia e afins – até às empreitadas de cooperativa ou os “holding” locais e as todo-poderosas multinacionais.

Nesta anedota do humor mais negro, os valores (sim – os tais Hipócrates e Nightingales e seus respectivos juramentos que mais ninguém recorda a não ser para o dia da nomeação em cerimónia a condizer) foram pelo cano do poder económico.

Hoje na saúde – não dou o melhor – dou o mais equilibrado a olhos de um economista (gestor – ainda que seja amador, como permitiram os decretos de lei bizarros que deixaram áreas como a gestão de equipas de Enfermagem em centros de saúde ou a grande escala em unidades hospitalares a leigos que fossem do gosto dos órgãos de planificação politicamente instituídos – veja-se exemplo do antigo CHAM de Viana do Castelo ou de alguns Centros de Saúde da mesma zona entre outros).

Hoje dou 3 preservativos x semana x utente em planeamento familiar…
Dou injecções intradérmicas (sim – os BCGs ao vossos recém nascidos) com agulhas sub-cutâneas…
Dou injecções intramusculares com calibre de 8x40 e 9x40 porque não há de 7x40 (que são muito mais finas – mas suponho que o traseiro das públicas deve ser mais resistente que o das privadas – onde se cobra o material e a mão de obra – como se estivéssemos na oficina de montagem de um qualquer mecânico)…
Chego ao cúmulo de necessitar preencher um requerimento (uma folha de papel) para ter uma folha de papel…
Vocês, da zona de Viana do Castelo, que têm o novo esquema de vacinação, vão levar os vossos bebés a uma sessão de tortura por agulha. Isto porque – ao contrário do preconizado – não houve distribuição de vacinas “penta” (Com, hemophilus, Difteria “a”, Tosse Convulsa, Tetânica, Polio inactivada) e – assim – vamos dar 3-4 injecções a distribuir pelas coxas de bebés de 2 a 6 meses…
A opção “económica” deixou a “penta” de fora…

E – o mais curioso – é que, as tais “ordens”, para além de contribuírem para a soberba de quem já é dr (com letra piquinina – mas dr carago!) nem se manifestam.
Quando é suposto – caso da ordem à que pertenço – zelarem pela qualidade dos cuidados de Enfermagem prestados… enfim.
O que me pedem – não é a qualidade do atendimento (ninguém vê o que escrevo nos registos, nem se tenho tempo para o fazer). O que conta são os tracinhos (sim – aqui, cada atendimento corresponde a um tracinho numa folha – como na mercearia) que é o que vai para os organismos centrais.
Esta é uma saúde de tracinhos para pauzinhos…

Isto uma pequena amostra da anedota que – actualmente – é o tal ideal da saúde.

A nível internacional - a letra muda – a música é amesma...

Tal como uma das personagens do filme aponta – todos: multinacionais (são as que “cedem” medicação e equipamentos e realizam investigação no terreno), governos (matérias primas, controle geo-estratégico, aculturação) e ONGs (idem ao anterior pois -se virem os financiadores de projectos nas tais “Organizações Não Governamentais” vão ver – no caso português em Timor – o IPAD (Instituto Português de Ajuda ao Desenvolvimento – vulgo Ministério dos NEGÓCIOS Estrangeiros Português), a ECHO (a Organização Humanitária da Comissão Europeia) e mesmo a USAID (Prima das duas anteriores mas do ministério dos nossos amigos dos States).

Meus caros – os projectos são planificados em mesa de capital europeia, ou americana – à rebeldia muitas das vezes dos próprios governos locais e das equipas no terreno.

Temos o caso dos tais jipes UN que passeiam por entre as barracas de Timor, as festas nas casas privadas (casarões se comparados aos de lá e aos de cá) dos elementos de staff local, os salários da plebe das UN e da maioria das ONGs (que – de voluntários não temos nada – pois recebemos salários e ajudas de custo no terreno – no caso das UN – um mínimo de 2500 $US per capita…).

Temos o uso e abuso de causas locais (como foi o celeuma da educação moral em Timor e a sua evolução para tentativa de deposição de governo – lembrem que, governo de esquerda declarada, não é benéfico a olhos de republicanos de ultra mar – sobretudo se querem instalar lá bases militares e os tais “timorensezinhos” – afinal – têm mais bolas do que outras nações “world wide” que se abriram de pernas há muito e venderam pedaços de terreno para estarem protegidos do lobo mau… hoje não há lobo mau, mas as bases lá permanecem).

Temos as jantaradas no hotel de 5 *, as compras em supermercados australianos (que Timorense só pisa se lá trabalha), os carros de importação com preço de bujiganga para expatriados com 3 anos de escola… vidinha dura – mas não a nossa…

Os tais medicamentos de primeira linha que são vertidos como água e que abrem as portas a que – quando a comercialização lá se abater – sejam os de 3ª ou 4ª geração que tenham de ser comprados pelo governo (se algum dia tiver fundos próprios para além das esmolas do petróleo que os Australianos e Japoneses lhes possam ir dando).

Não é necessário ir tão longe como a experimentação de medicação em seres humanos de 2ª a olhos das nações ditas “desenvolvidas”.
Temos casos bem mais óbvios e tolerados nas nossas relações laborais - estilo empresarial - actuais… quem não encolhe as orelhas face a um contrato precário e faz o que os “boss” mandam ainda que vá contra a sua dignidade profissional ou mesmo pessoal?...

Mas – se querem encontrar os responsáveis – há uma técnica infalível, a saber:

Apaguem as luzes e vão até ao quarto. Façam isto à noite…

Procurem o maior espelho que tiverem lá… e coloquem-se na sua frente.

Tenham um candeeiro à mão…

Agora – meditem…

Quando compro a gasolina para o meu carro – quantas guerras por petróleo paguei?...

Quando calo ao me roubarem os meus direitos civis (a minha educação, saúde e justiça – em igualdade de circunstâncias – e gratuita)…

Quando dou o meu poder de decisão a um papel que – me empurra – a escolher entre 5 ou 6 produtos de campanha eleitoral e máquina partidária – mas que, nem falam a mesma linguagem que eu, nem passam as mesmas dificuldades a fim de mês, nem vivem como o tal povo que dizem representar – a culpa é deles?...

Quando os produtos vêem parar a minha casa, a minha dispensa, ao meu armário – penso nas vidas de quem as produziu, de quem as elaborou?...
Na qualidade de vida que têm os que produzem materiais a preço de nada, nas matérias-primas retiradas dos países de origem a troco de contas de vidro ou cargos de governo?...

Quando compro um bilhete de cinema para um block buster de tantos “0” que até nem conto, ou quando compro bilhete de bancada num jogo onde o tal Mourinho recebe – num mês - mais que qualquer homem ou mulher de classe média numa vida (sem contar direitos de imagem e afins)…

Quando o tal governo escolhido à força de não haver mais nada, vai para guerras fantasma contra países que nunca nos fizeram nada (ir para a guerra não é só mandar gente com armas – mas apoiar quem as manda) e mostra sem pudor – as lajes de terras de Lusíadas compradas a preço de dólar – enfeitadas para a palhaçada internacional…

Ao fim destas perguntas – e mais algumas que lhe possam aparecer enquanto se responde – pense se tem a coragem de acender a luz…

Ao contrário do que possa parecer – eu não tenho dúvidas.

A responsabilidade de coisas como as do filme – não vem dos políticos, das multinacionais, dos sistemas de saúde, da liberalização, da cultura global, dos média sensacionalistas, das novelas, dos jogos de computador, dos filmes de holliwood, dos shopping center ou outras formas de anestesiar a consciência de responsabilidade que possamos ter…

Não dá para apontar o dedo sem encontrar um telhado de vidro – nos exemplos acima referidos sou eu quem recebe a pedrada, não os outros. É o meu silêncio que grita…

Baixo múltiplas desculpas, temos escondido a falta de razão para não fazermos nada.

Acende a luz – olha-te no espelho.

A responsabilidade – é minha, é tua…

Vou, vais fazer algo?
Ou vou – vais - continuar a ver filmes e a apontar desculpas mais do que a ter uma razão?...

Esta é a pergunta que me faço e que optei por partilhar com quem quiser ler…

sexta-feira, novembro 18, 2005

Demanda...















Mariamne foi – primeira – esposa e mártir por uma causa de milénios perdida…
Sangue de esfinges - Mãe, Glaphyra
Pai com nome Selêucida e filho de reis rebeldes…

Nascido num ano antergo… anterior a mim…
De um massacre de inocentes – pai contra meu pai…
Nu nascido, logo ungido… rei

Visitado por aliados antigos…
Vaticinado como herdeiro do que lutou contra Deus
Oculto, fugido, para terras da minha mãe…

Regressei…
Abraçado pelos que esperavam mudança
Temido pelos que se investiram de poder
Dos escolásticos nada esperei… debates, análises, estudos…

Mas – entre as seitas, clãs e castas
Apenas discórdia seguiu meu nome

Marchei…
Como Novo Judas,
E Limpei – o que ímpios mancharam

Com punho de ferro entrei
Aclamado, folhas de vitória pisei…
Emulando os fados…

Retirei efígies dos deuses pagãos
Expulsei usurpadores, soldados e vendilhões…
Icei as bandeiras silenciosas do meu povo
Para que o meu povo soubesse que era eu rei…


Preparei-me…

Um vendaval da Síria se abateria
De Cesareia o fogo choveria…

Mas eu mantive-me sobre o rochedo
Sem arredar pé, sem vacilar…
Arreda Satanás – a mim não me tentas…

Os eruditos ainda debatiam…
Seus medos e ignorância remexiam…
Mais uma vez… o povo beijará teu chão…

E eu soube

Preparei um final
Mandei perguntar ao povo o que queria
Se uma vida de escravos – mas vida
Se uma morte como homens livres… na luta

Vim trazer a espada… disse eu

Mas – os que mandam nos servos - assim falaram:

“Mais vale um homem que morra pelo povo
Do que um povo morto pela espada…”

Um homem para os unir
Um homem para os entrelaçar
Um homem para a todos juntar na terra dos que se erguem
Dos que lutam e ganham seu nome
Terra de homens e não terra de réus…

Mas falou assim o conselho,
Assim quiseram os pobres:
Que tudo o que vim para unir se quebrasse
Para que os pobres e doentes assim ficassem

Meu fiel me entrega
Verdadeira Ágape, ósculo imaculado
Nas portas de muralhas vazias
Perante estandartes púrpura e efígies estranhas

Caminhamos – não vim só…
Mais quiseram não vergar…

Vejo, nos confins do horizonte
Um tempo no que eles se erguem
Eles que hesitaram,
Desta vez, já sem duvidas,
Os encaram - de frente
Essas águias que desgarram até à morte

Massada… meu espírito sobre ti…
Judas, em seus muros, suicídio em vez de escravatura…
Foste melhor do que eu…

Caminho – para o prefeito…
Caminho – para o meu fim…

Vozes de caveiras em milhares
Sacrifícios milenares
Ao deus tirano que prende o Deus em ti

Madeiros plantados no Golgotá…
Pinheiros viventes, seiva vermelha
Penhor de Morlock, geena maldita…

Olho no alto, olho no longe…
Vejo o deus da ira
Rebento de Novo, ceptro florido…
Paredes quebradas, gente estilhaçada… shekinah errante…

Grito…
…entendo o meu pranto…
…mais vale quebrar que vergar!

Brisa ao de leve…
Luz que se expande…
Esquecimento…

Contem esta história…
Digam que me entregaram
30 moedas de prata
Filósofo que – desta - pagou…
E recebeu…

Na destra
Na sinistra
Filhos de um trovão, nunca mais silenciados

Caminhamos para a eternidade…
Passado ecoando no tempo…

Tantos outros…
Subjugados…
No jugo da águia que te rasga o ventre
E consome teu poder… mestre

Gálias

Bretanhas antergas

Lusitanias

Tantos outros que não cederam…

Preferiram partir… indo livres
Asas de vento…
A ter de ficar
Presos do tempo

Eu criei a lenda
De vergar o tirano
Em tirano me tornei…

quinta-feira, novembro 17, 2005

Santa Luzia















Que vemos, nós que vagamos, no horizonte dos sonhos... tão tentador, tão puro em essência?...

Que procuramos, nós que erramos, nas curvas da vida... tão vago, tão esquivo, tão subtil e sublime?

Que lembramos, nós que aprendemos, nas horas que passam; nos olhares que se afastam...

tão efémero,
tão súbito,

tão intenso que nos trespassa,

tão brilhante que cega e nos faz esquecer fronteiras, destruir barreiras...

Que sentimos, que nos faz voar; que poder nos devolve as asas, que força nos levanta do lodo, que esperança no ergue o olhar?...

Que será o que faz de nós crianças:
Que se divertem com as rimas de letras sem graça
Que se esquecem das horas, do tempo que passa
Que se enrolam sem medo, pudor ou lembranças?...

Que será?...

quinta-feira, novembro 10, 2005


Queda:

Pureza que mergulha no vaso petreo da vida;
Limpidez que se mescla com o po do caminhar;
Lama que te envolve e em barro te transforma;
Ate que marchas como soldado das colunas dormentes,
Longe do eco dos sonhos que já tiveste;

Perto dos mitos que filtram estes veus de confusão
Que nos vemos obrigados a engolir em cada instante de tempo
Perdido na marcha desalinhada de inocentes sem destino
Enredado nas colunas cegas dos que se perdem nas neblinas
Dos tempos que ja mais não voltam.

Espelho:

De reflexos cristalinos, ecos de um mundo antergo e perdido...
De tempos de inocência, de imagens límpidas, de olhares transparentes;

Agora mostras as marcas das garras que dilaceram;
da passagem das eras por entre o brilho falso de ouro frio,
da decadência da carne derretida no fogo velho que já não renova.

Secreto:

Como esta vontade de ir em frente que não me larga;
Como a esperança de "algo" novo que me arrasta?...

Com a mente perdida neste lugar sem tempo
Mergulho no dia de "chuva dissolvente", procurando-te!

Tu - resposta às perguntas gravadas a ferro e fogo em cada milímetro desta pele caduca
Tu - asas de anjo caído em busca do seu  redentor?...

Longe:

Da rotina que corrói a vontade de algo novo...
Do hábito de vergar e dizer sim ao que causa repulsa;

Do amor dos Homens, da vida das gentes;
Do calor da pertença, do vigor de quem se sabe querido...

Só o Sol me dá calor, só o cantar das águas dá vida aos momentos;
Sá a rocha me incute o seu sólido vigor, só esta natureza viva me fala de amor...

The Return of the Ring



Aqui - nas montanhas - começam os meus domínios...

Nelas - perdido de tudo e de todos - tem pairado o meu espírito dormente... em busca de cura e luz para um regresso a terras de sombra e dôr;

Não há graal que sare esta certeza de algo que não encontro, de algo que aqui não está...

Exilado de outras paragéns, procuro alívio para a dôr da perda nas árvores verdes, nas pedras imensas, nas águas cristalinas...

Vem pois - para que te mostre o meu pequeno reino. O meu segredo encravado na montanha...

Passearemos juntos por terras veladas, lugares que apenas viram alguns mortais...

terça-feira, junho 14, 2005

Ponte de Vida

Hoje pensei em voltar a ti que lês, que vês o que vai por dentro e que transparece cá para fora.

Pensei em falar do caminho de Santiago - de como o comecei e onde...

Com ele vai um poema que já tem catorze anos, pelo que merece respeito pela sua velhice...(não - não vou virar para o fleumático, é só uma mania de agora e com termo certo)


No fundo, um pouco do que fui e pelo que decidi pôr-me em caminho.

Espero que gostes...

Vida

Só quando o sono me vence confesso a verdade;

Só quando a dor me esquece confesso a saudade

do tempo que já passou, do sentimento que ficou.

Só quando a minha alma chora,

Quando o único que quero é ir-me embora,

Só aí pressinto… conheço a razão:

de ser assim, de aqui estar, de em ti morar.

Pois sou um naufrago do verso,

Que por entre as linhas disfarça seu pesar,

Um ser confuso, submerso,

Que a si mesmo quer matar.

Vago no hoje e perco-me no amanhã,

O sentido da vida desconheço já;

E o horizonte deixa de ser uma linha,

Torna-se no destino que me persegue,

Na lâmina de um verdugo,

A salvação mais triste e covarde

para alguém que - até agora - estragou tudo.

Quero perder e triunfar, viver e acabar;

Quero desistir e começar, estar só e amar;

Quero sonhar e acordar, estar preso e voar,

Viver sem descansar, subir sem saltar;

Quero ser e estar, contigo e em ti,

Amar-te até estourar, odiar-te até ao fim.


E - quando olhas atrás - com o caminho todo trilhado - és capaz de entregar um sorriso, mesmo com o anjo negro já a teu lado...

Vós crianças de Domingo, tradição de pilares de pedra... famílias sorridentes e gentes de fato sempre novo - mas tu segues... tu segues

Em praças cêntricas, vais encontrando gentes que falam de si, dos outros, do tempo, do trabalho, das gentes de moda, das políticas de sempre... senta-te um pouco; ouve, discursa - paga, levanta-te e segue caminho - Santiago espera!

Nos teus devaneios, constróis castelos de sonho. Estes, ou se transformam em nuvens ou se desmoronam em pó... mas sonhar deves sempre - "...o sonho comanda a vida".

Por cantos e encruzilhadas inesperadas, avanças no sentido do desconhecido que se anseia...

Deixando atrás o velho, o que se senta e fossiliza, o que se quer sempre igual e teme a mudança - assim, caminhando - ousas entrar no que ainda não é... mas que poderá vir a ser.

Panta Rhei, tudo flui como dizia Heraclito, como o anunciou o Siddartha de Hesse...

Terra régia - Ponte de Lima - a ponte sobre o letes (rio de esquecimento para os Romanos), traz consigo o dom que lhe atribuiam de outrora; mal cruzas a ponte e inicias o caminho, o teu passado fica atrás - velado pelas águas de um esquecimento que - ao mesmo tempo - traz a promessa do novo em troca do velho que se deixa ir... este é o caminho de Santiago - via láctea da vida...

Este foi o ponto - onde Michael guarda a entrada da cidade - no que comecei o meu primeiro caminho de Santiago. O "Semelhante a Deus" ouviu a minha oração e - desde então - não parei neste caminho de busca, neste caminho de vida...

sexta-feira, maio 13, 2005

Depois do perto... a distância

Depois do perto, vem a distância…

Estive lá em corpo… continuo lá em alma.

Pelas suas gentes, pela humanidade dessas gentes…

Pela vida simples, pela verdade dessa mesma vida…

Pelo sentido de pertença – à terra, à família, à tradição…

Por todas as pessoas – livres e ousadas – que por lá ficaram…

Porque, no Tétum, os tempos verbais estão sempre no agora.
Porque, nas famílias de Timor, tudo se partilha – nada é de um só…

Agora, depois de caminhar nas névoas – muito densas e frias – das terras de Sua Majestade, regresso a terras Lusas (que já o foram mas não o são mais)…

A partir daqui, darei ao blog lembranças, pedaços que comigo trouxe da outra margem.

Darei presenças daqui – os ecos do caminho de Santiago, as pedras de granito das fortalezas e lugares antigos do meu Minho familiar.

Vozes de Lisboa, pois lá estarei nuns dias…

E – depois – espero voltar a levantar voo e voar – para onde - ainda não sei.

Mas, como o Régio “… não sei para onde vou, não sei para onde vou – mas sei que não vou por ai!!”.

Terra colonizada, invadida. Vietnam para os internacionais, onde o povo luta uma guerra de guerrilha - silenciosa mas constante - com aqueles que lhes roubam o país às postas, debaixo sempre das boas intenções de quem parece procurar apenas o bem estar e desenvolvimento de quem é “menos desenvolvido” ou “civilizado”. Aqui, um Timorense senta-se em frente do “terreno proibido” da entrada de um supermercado que - como é costume - é de propriedade Australiana e - com preços privativos para qualquer local - apenas serve os Malae…

Onde a fé é vivida “twenty four seven” e não apenas aos Domingos entre as nove e as onze da matina. Onde os padres são também revolucionários e os Bispos presidentes de coração. Com base animista, esta gente não poderá viver vidas fraccionadas, onde se é alguém das 9 às 17 e outrem até à noitinha. Religiosidade é una e faz parte de toda a vida do povo. Animista nas montanhas, mistura nas aldeias de Oe-Cusse, aparentemente católica na capital…

Onde o tempo passa, entre cartas, tabuleiros de xadrez onde se jogam damas e “pools” espalhadas um pouco por aqui e além, numa cidade que quer viver ao seu ritmo pacato mas que se vê constantemente empurrada a entrar no frenesim “Malae”. A maldição do petróleo e a desgraça de ser ponto estratégico entre os novos vermelhos e os das barras e estrelas roubam a independência a qualquer um… enfim.

Onde as crianças são mimadas o tempo todo (nem imaginam como é difícil retira-las desta veste “canguru” para as pesar e medir nas consultas - elas berram e estrebucham se ficam longe dos pais). Onde o pai, irmão e outras crianças passam tempo infinito a cuidar e brincar com os mais pequenos (sem necessidade de leis de protecção à paternidade e coisas afins). Onde brincar com uma criança nas ruas de pó e pedra não levanta as suspeitas dos vizinhos e onde não se vive o medo de que as crianças sejam abusadas ou maltratadas, como temos vivido nós nestes tempos de doidos nos que - olhar crianças na rua - já começa a ser um perigo e pode descambar numa caça às bruxas. Enfim… saudades da vida simples, digo eu!

Saudades… de um lugar onde a moralidade das gentes ainda é bela o suficiente para não restringir a beleza humana em toda a sua ternura e afectividade. Onde todos são “mano” ou “mana” de alguém e onde os mais maduros são “tio” ou “tia” de toda a gente. Onde homens e mulheres andam de mão dada com os seus congéneres e onde abraços são sempre recebidos com um sorriso mais do que um olhar de reprovação. Ainda me rio só de pensar da primeira vez que encontrei um director de posto de saúde que me passeou pelas instalações e me deu o discurso de boas vindas de mão dada comigo o tempo todo… he, he - e eu sem jeito a tentar sentir-me à vontade. Enfim - memórias lindas.

As faces de Isis…
Por coincidência, esta jovem de Timor tem “Isis” na sua lapela. A sua consola “play station” ou boneca “Barbie” se resume aos elásticos com os que se inventam milhares de brincadeiras junto das outras crianças de Bandudato - distrito de Aileu - ao teclado do meu novo “lap top” já tenho saudades desta vida verdadeira, deste tempo simples…

quarta-feira, maio 11, 2005


Manchester - cidade industrial, com montes de gente universitária - supreende nos recantos das ruas com arquitectura ousada e muitos, muitos espectáculos e variedades.Este edifício é um mercado "indoors"...
Dia seguinte estou novamente no campo... desta vez "country side" a 45 minutos de comboio de Manchester. A Emma - amiga do caminho de Santiago de à dois anos atrás - enquadra o cenário presidido pelas ovelhinhas lanzudas aqui da zona. Amigos - está um frio de rachar! Saudade da temperatura de terras de Timor!...

A parte mais agradável de Covent Garden - a esplanada de café onde se pode apreciar música classica e ópera ao vivo. Arte, turismo e "laisser faire, laisser passer" - hot trick!

Do outro lado do mercado - saltimbancos fazem o seu espectáculo para que as multidões lhes atribuam algum mérito traduzido em moedas mais do que aplausos... "money makes the world go' round"

O mercado das maçãs - onde se compra desde joias a pinturas. Um mundo de cores, cheiros e texturas...

Covent Garden de frente - com o nosso artista aberto de pernas para o dinheiro, bem a coberto da igreja de St. Paul...

Covent Garden... o meu lugar de predilecção. Montes de gente acotovelam-se para ver um artista de rua em acção. Por detras o corpo do mercado e um dos varios Pubs que adornam o local...

Leicester Square - o local das estreias de cinema, dos tapetes vermelhos, das óperas e teatros... fica-se com os olhos estrelados de tanta estrela em cartaz...

Aqui o "Je" perto da "Tower Bridge". Não confundir com a ponte de Londres - que é um pedaço de cimento armado sem valor histórico.Tava a chegar de uma viagem de 27 horas - nada mal heim?...

Ok - o cartaz diz tudo. A Torre de Londres era o lugar onde os nobres choravam tanto como os pobres... justiça emaranhada que tinha "beef-eaters" como guardas. Ha muito la dentro, incluindo joias de coroas que fazem os sonhos de mil e uma noites de muitos. Pergunto-me onde está a simplicidade da minha montanha... ai - saudade!

St. Paul's cathedral - um símbolo da II guerra mundial - entre o fumo dos bombardeiros Nazis a cúpula da catedral ergueu-se incólume. Na entrada, uma enorme porta rotativa deixa ler em letras enormes "This is the house of God and THIS is the gate to Heaven". Um par de metros mais à frente um cartaz adverte - entrada: adultos - 8 libras; desempregados - entrada gratuita... afinal o sermão da montanha sempre era verdade e - os pobres - vão herdar o reino dos céus - ainda que, com a rainha Victoria de ceptro dourado na mão, ninguém diria que a igreja - protestante ou não - seja muito dos pobres... enfim.

Trafalgar Square - onde o homem que vence Napoleon admira a paisagem guardado por enormes leões de bronze e dando as costas ao museu de artes pictóricas. Montes de autocarros vermelhos cruzam a rua e eu lá sigo o meu devaneio de início de manhã - procurando por toda a parte as minhas gentes simples e a vida pacata de outrora sabendo que - agora - ela já mais não volta...

Westminster... bem ao lado das casas do parlamento. Os manifestantes já aqui estão desde - pelo menos - Março do ano passado (quando aqui estive da última vez). Hoje, as bandeiras da commonwealth não estão presentes. Ao lado direito, uma estátua de Churchill contempla o cenário, enquanto três "bobbies" passeiam entre miriades de turistas que sobem e descem dos típicos autocarros de dois andares descapotáveis... mesmo complexo para este "alienígena" de terras Lorosae.

O BigBen e as casas do parlamento - uma vista sobre o rio Tamisa. Imaginam a minha desorientação?... Umas horas antes, o maior edificio do meu universo tinha dois andares. Agora...

terça-feira, maio 03, 2005


Chegou o final - O Josh (bom amigo Timorense) - O Ruben (estagiario de Enfermagem em terras Maubere com a AMI) - A Xenia (proxima chefe de equipa em Timor) e eu dizemos "ate breve"! Que a espera seja curta...

Policia local de um lado, santos e populares do outro. No estrado padres resistentes, Ramos Horta e Xanana falam ao povo, procurando solucionar uma situacao que ninguem entende mas que marca estes ultimos dias. Policias da U.N, observadores militares vao-se misturando entre a multidao... que vai ser de ti Timor, se te viras contra ti mesmo? Quem te quer assim dividir?...

Che que apareces mesmo em contraste com quem parece estar a ajudar o povo...

Gente onde o Che se faz notar e luta - na alma da gente - entre os simples e contra o opressor que vem de cima...

Rostos com luz no olhar, maos dadas em doce proximidade...

Rostos que falam por si...

Rostos - sorrisos e olhares que me acompanharao sempre...

Como estas gentes no caminho para Aileu, tambem eu me atiro para o nevoeiro, esperando que - detras da curva do caminho - algo de novo e de melhor espere os meus passos...

Como neste Catua de Bandudato - Distrito de Aileu - ficam gravados a ferro e fogo os momentos e as gentes das terras Maubere - na minha pele e no meu intimo...

O Adeus

Que posso dizer?...

O tempo chegou ao seu fim.

Nas ruas – mesmo sendo uma da manha – musicas varias entrelacam-se com canticos religiosos enquanto a “manif” - teoricamente suportada pela igreja local - segue na sua “teimosia” de nao abandonar as ruas enquanto reivindicacoes imprecisas nao forem respondidas...

Temos outra vez arame farpado nas ruas, temos de novo ameacas sobre as multidoes... mas desta vez sao Timorenses frente a Timorenses – a de o mundo ser redondo algum dia ou estaremos num planeta de seres e ideologias quadrados?...

Deixo esta terra sem quase tempo de respirar (e tambem eu rezo para que – amanha – nao se confirmem os receios de confusao e possa recolher o meu visto e passaporte no ministerio do interior local). Mas – em cinco minutos de tempo para respirar - senti um vazio e uma saudade tamanha... so de pensar em partir daqui, em regressar para la...

Daqui levo as raizes deste povo. A admiracao por quem sabe ser quem e, onde pertence e – sobretudo – o que e a independencia (e nao falo de politicas ou paises, mas a independencia, o orgulho e ousadia de se ser ainda humano).

Daqui levo sorrisos de crianca como nunca vi, liberdade como nunca vivi. Levo o ter estado longe dos grilhoes de um dia a dia conhecido durante o tempo suficiente para ter entendido que ainda existem seres humanos livres...

Agora resta o conformar-se com a ideia do regresso a Portugal e ir acarinhando o sonho de voltar aqui.

Talvez algum dia... talvez.