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terça-feira, fevereiro 27, 2007

Música para pensar... e sentir IV


Talvez a responsabilidade seja da Margarida Pinto... obrigada a ti pelo "Diário da Tua Ausência", tem-me feito tão bem.


Talvez seja responsabilidade da Ana que mo emprestou e sublinhou... obrigada por deixares bem presente aquilo que eu tenho sido bem cego para ver.


Talvez porque a solidão mostre como o medo e a desconfiança, o orgulho e a vaidade, a imaturidade ou a revolta podem deixar tanto de parte no conteúdo da alma...


Talvez tenham sido as orações enviadas em corrente e que, finalmente, me tenho decidido a reenviar... contra toda a lógica, o bom senso ou a desconfiança reinante nestes dias de final de Inverno...


Cá vai uma música que tem ritmo e letra para falar disto... espaços vazios que apenas se preenchem por dentro... lá fora está o vazio à espera de que algo de calor humano lhe dê sentido... talvez por isso andemos por cá... não uma praga como alguns dizem - mas uma benção para encher este mundo de sentir.


Vou tentar fazer melhor do que até agora.


Obrigada.

http://www.youtube.com/watch?v=KSpcaEjSYBo

(devido a questões de propriedades de ideias - como se tudo pudesse ser capitalizável... enfim - o excelente video clip foi retirado das bancas públicas... fica aqui a versão "aborrecida")

http://www.youtube.com/watch?v=zxXwIIBlSgw

O "Chasing Cars", dos Snow Patrol, ficou com este "tag" no "YouTube":
This video is not available in your country. Skipped to the next available video.

E ainda dizem que há liberdade de expressão...

(cá fica mais um link alternativo: Snow Patrol - Chasing Cars)

(e aqui a famosa versão americana do vídeo: Chasing Cars vesão U.S)

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Música para pensar... e sentir III


Entre o antes e o depois... uma visão da memória acerca aqueles que nos precederam. Possam os nossos passos trazer luz onde antes havia sombras.

Música para pensar... e sentir II


Para sentir o espaço daqueles que realmente importam. Ás vezes não há maior cruzada para salvar o mundo que amar quem está à frente dos olhos... antes de que já não os vejamos mais.

"Everybody's Changing" - Keane

Música para pensar... e sentir - I


Para sentir a responsabilidade de se construir um mundo melhor através de afectividade saudável...

"Because of You" - Kelly Clarkson

sábado, fevereiro 17, 2007

Como?...

Temos dois caminhos à nossa frente…

Num deles, pé ante pé, espreita-se entre as sombras… procurando, com medo, aquela besta que nos persegue; o ser tenebroso que nos assombra e que se reflecte no olhar do desconhecido que passa, do “outro” sempre distante…

Diferente é o trilho no que evocamos a criança que queria abraçar o mundo e as gentes, quando rimos com o “tudo” ou o “nada”; um chão suave onde corremos com passo leve pousando pés descalços sem olhar.

Neste tempo sente-se o zunir destes dois mundos em tensão… estática no ar que vibra com ambas as saídas possíveis, potenciais…

Atenção consciente necessita da escolha de uma vontade esclarecida: que mundo pretendo ajudar a construir com a minha visão das coisas, com as minhas pequenas escolhas diárias… que mundo?

Um pequeno gesto vai mudar completamente a sucessão dos acontecimentos do resto do dia… consequentemente, de toda a tua vida!

O mundo é tão interactivo que responde às nossas escolhas… grandes benesses são o fruto de coisinhas insignificantes que se acumularam e formaram caminho de luz. O simétrico parece que também é verdadeiro...

Quantas vezes a dádiva foi mais forte que o medo?
Quantas vezes a disponibilidade foi mais intensa do que a fuga?...

Até agora houve sempre um terceiro que arcou com a responsabilidade alheia…
Foi Deus, o Rei, os políticos, a igreja, os ricos ou nobres, os pais…
Foram os terroristas, as multinacionais, o gajo aproveitador ou a gaja matreira…

E nós? Que fizemos nós das nossas escolhas e do tempo que nos é dado?...
Que posso fazer logo, daqui a nada, agora?
Procurar o silêncio onde havia uma palavra rancorosa… ouvir.
Esboçar um sorriso onde havia um olhar ausente… aconchegar.

Marca-se a diferença: salva-se o planeta, as minorias étnicas, as crianças maltratadas, a economia… começando com um pequeno gesto… a dádiva mais simples… a dádiva de nós mesmos num momento concreto…

Depois faz-se “cut & paste” e é só voltar a começar…

Se a coisa não funcionou num determinado momento – não te zangues contigo mesmo! O facto de ainda estar por aqui, implica que te será dada nova ocasião para procurar o caminho.

Não há política, líder, religião ou filosofia que te possa substituir…
Crê em ti. Dá-TE… todo e qualquer pedacinho que for verdadeiro salva o mundo…

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Onde está a questão?



Nestes tempos não se fala de outra coisa – referendo.
Para dissipar desde já qualquer dúvida: este texto não pretende ser a apologia de nenhuma corrente pró “Sim” ou “Não”.

Quanto mais falo com pessoas, expondo a minha visão das coisas e ouvindo a sua, noto que tanto os que defendem o “Sim” como o “Não” pretendem o mesmo.
Dito de outro modo: os partidários do “Sim” não pretendem que a vida em termos legislativos seja posta em causa e os partidários do “Não” não pretendem o castigo das mulheres que recorreram ao aborto…

Então, onde estará o atrito?...

Vamos por partes.
Uma primeira questão relaciona-se com aquilo que se considera “desenvolvimento”. Isto porque, de forma mais ou menos constante, invocam-se as estatísticas, dados e observações subjectivas acerca dos “países desenvolvidos” para qualificar e inflacionar o nosso “atraso”.


É um orgulho estar num país onde não se exige pena de morte, contemplando alguma esperança no ser humano em vez de lhe atribuir uma sentença de castigo que o impeça de poder aprender dos seus erros. Acho esta uma das características do “desenvolvimento” do povo português em claro contraste com outros estados “não desenvolvidos” e sem liberdade, por muito grandes que sejam as estátuas em nome da dita cuja.
É bom sentir que ainda há muito do “Portugal profundo”, onde os familiares cuidam dos seus idosos com qualidade em vez de os internar em instituições próprias. É bom ser-se assim de desenvolvido.
Lembro um distrito de uma das nações mais desenvolvidas do mundo - Timor Leste – onde, em plena montanha isolada as pessoas me davam o bom dia, sorriam, convidavam-me para entrar na cabana de folhas de palma e a comer arroz branco e comparo-os com um pais com fraco desenvolvimento onde se pode olhar os portões do palácio de Buckingham mas não o ser olhado nos olhos entre a multidão que passa, sem um sorriso, sem um “Olá”, muito menos ser convidado nem que seja a uma tosta...
É bom ver o que "desenvolvido" significa.

Sendo nós um dos países mais "desenvolvidos", poderíamos recorrer à originalidade que nos caracteriza e, em vez do carreirismo a que nos condenam os líderes que a democracia impõe, exigirmos algo de responsabilidade e trabalho a sério para representar os reais interesses dos portugueses.

Desde o último referendo, o único que mudou foi a letra da pergunta que compõe o mesmo.
Não se viu a famosa educação sexual nos estabelecimentos de ensino, vimos recortes nos programas de planeamento familiar, assistimos ao descambar do serviço público de saúde, notamos o “alto” investimento no apoio à mulher e criança (sobretudo as de risco), vimos estratégias sólidas de suporte a uma saúde sexual e reprodutiva com qualidade…

Sinceramente… sejamos responsáveis!
Se eles não fazem nada, nós pelo menos não devíamos de encarrilar tão depressa pelas soluções fáceis sem ter garantias de que tudo o resto está a ser feito.

Mais do que um voto, mais do que um papelzinho na caixinha da desresponsabilização, o que precisávamos era de pedir aos senhores da política - que mudam de poleiro como quem muda de camisa - que trabalhem.
Que, em vez de zelar pelas percentagens de voto, pela sua figura mediática, pelos interesses do partido, zelem mas é pelo bem estar dos portugueses.
Quem, em vez de procurar lavar as mãos de decisões polémicas que possam perder votos da maioria conservadora deste país ou em vez de teimarem nas soluções simplistas, se esforcem por uma verdadeira promoção da qualidade de vida.

Atacar estes ou aqueles, alinhando nesta ou naquela posição, apenas divide os portugueses.
No fundo, todos pretendemos o mesmo.
A questão é que, as circunstâncias são-nos apresentadas de forma a que tenhamos que escolher ou boi ou vaca… mas não aquilo que todos queremos.

Eu não quero pôr em causa a vida.
Eu não quero condenar mulheres.
Eu não quero votar nem “sim” nem “não”.



Quero verdadeira educação sexual nas escolas.



Gostava de ver espaços de partilha nos meios de comunicação social, nos quais se convidasse os pais a serem os meios privilegiados de suporte à formação escolar na área da sexualidade.



Quero um sistema de saúde que sirva a todos em termos de ginecologia, obstetrícia e urologia – sem necessidade de encaminhamentos privados para os que podem e clandestinidade para os que não.
Quero um sistema de cuidados de saúde primários que promova a saúde mais do que servir de homocherifado para receituário que engorda laboratórios e deixa milhares de portugueses de bolsos vazios com despesas em medicação e exames.
Quero um planeamento familiar com qualidade e verdadeiramente virado para os utentes, não para os interesses das instituições.



Quero equipas específicas de atendimento a jovens em cada comunidade local, e quero ver as escolas, as associações de pais, os centros de saúde, hospitais de referência, assistência social e parceiros a colaborar para fazer isto funcionar; e que não seja só aqui ou acolá porque há dois ou três carolas que dão o litro para que funcione – quero legislação que faça recolha de situações problema, tenha metas e objectivos, trace estratégias, desenvolva acções, seja avaliada e forneça os meios humanos, económicos e materiais para ser eficaz.



Quero ver equipas de protecção de menores com horários dignos, com especificidade, com critérios e mecanismos de acção claramente definidos e válidos.



Quero ver verbas reais, instituições públicas reais e de qualidade para apoio a mães solteiras… que não sejam os da caridade a fazer o que o estado podia fazer melhor.



Gostava de ver que as pessoas se mobilizam fora dos tempos de referendos com a mesma força que os média lhes impingem sempre que se atira a culpa e a vergonha para homens e mulheres a quem a sorte não sorriu e não apenas nestes momentos nos que canções soam e pessoas famosas vêm dizer palavras bonitas decoradas de livro minutos antes da câmara acender.



Quero que se pare com a farsa, que não me digam que é necessário tudo isto quando defendem o “não” ou o “sim” e depois adormeçam oito anos para voltar com a mesma lenga lenga de ontem para adormecer a gente… já chega!

Depois disto e de muito mais, senhores da política e senhores votantes, depois disto, ai talvez pudéssemos falar de referendos.

Agora, vir de referendo em punho tendo todas estas disciplinas pendentes… ai é muita teimosia e pouca ciência.

Que ganhe a abstenção, para que os senhores de fato e gravata se sintam chumbados e comecem a trabalhar. De outra forma, sentam-se à sombra da bananeira por outros oito ou nove anos até tirar da cartola outro referendo para ocultar a sua inutilidade.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Desde o fundo do coração...


Tenho assistido, com algum cepticismo, ao desmoronar dos valores ditos “clássicos” e ao dealbar de uma “nova era”.
Tenho ouvido os discursos retóricos que anunciam todas as vantagens e benesses que esta “era dourada” implantará.
Tenho visto as convulsões que acompanham o arrancar de raiz do velho mundo – em prol dos ideais de igualdade, liberdade e fraternidade.
Tenho observado como se pintam os derrotados de negro e se tingem as vitórias sangrentas em tons rosa.

Compreendo os argumentos apologistas da compaixão sobre quem é inculpado de crimes, apresentando-se à sociedade como vítimas de injustiça social por parte de uma legislação tirana e “bota de elástico” e que raramente alguém ousa já cumprir.
Assim sendo – mude-se a lei…

Enquanto estes argumentos velhos vão sendo relembrados, observo os mil e um casos publicitados de abandono, maus tratos, confusões de paternidade e afins, antes e durante um processo que é suposto ser isento e que apela à consciência de cada um.
Os mass-média servem um senhor bem ardiloso, o marketing é o seu negócio e o subliminal a sua arte.

Conheço as razões políticas que geram referendos, tal como sei como havia quem lavasse as mãos para ditar sentenças – como se isso levasse a responsabilidade das decisões e poupasse votos a estes ou aqueles; votos oriundos de camadas ditas mais “conservadoras”, mas ainda bastante numerosos numa cultura “enquistada” em valores “à antiga”.

A Lei e os Homens… qual dos pilares será pintado para se adequar às formas estilizadas do novo templo?

Senhores, por muito que compreenda a decisão pessoal de cada indivíduo face à sua própria soberania e identidade.
Por muito que entenda a miséria e a dor de se nascer humano.
Não compreendo que a lei se desfaça do seu pendor de guia para cobrir a falha e transformá-la em dom. Dito de outra forma, se erramos, não é disfarçando o erro através da mudança do termo que o define, que vamos terminar com o erro em questão.
“Mea Culpa” aqui.



Era época passada na que outros dispunham da vida alheia para sacrifícios e rituais, para satisfazer deuses e deusas, para tudo e algo mais.

Certo é que, actualmente, apenas mudamos os nomes das coisas.
Uns são vítimas de terrorismo e outros danos colaterais.
Talvez a pressão económica seja tanta que já estejamos no ponto de dar e vender o corpo e o sangue em troca de melhorias no estatuto, de forma a que a riqueza flua profusa - como nesses outros tantos países que tão incansavelmente se citam como exemplos de coisas civilizadas, desenvolvidas, industrializadas ou sei lá bem o quê… como se isto classificasse humanidade.

Uns invocam o seu saber para dizer que vida é assim ou assado, uma coisa ou um ser, que a personalidade se forma a partir de tal ou qual semana. Vaidade e ignorância a dançar alegremente a dança do desalinho…

As leis existem não para penalizar – mas para orientar, proteger ou até redimir talvez.
Se não, teríamos castigo mais do que justiça. Certo.
Fomos mudando o código básico e criando um alternativo, mais à medida. Vamos ver.
Nesta viagem de tentativa e erro, talvez estejamos a pisar linhas demasiado vitais para serem abolidas ou simplesmente ignoradas.

Penetrando o contexto da linguagem sibilina da pergunta do referendo de Fevereiro, pensemos:

Se o “Sim” ganha, demorará o mesmo período de tempo a ser desenvolvido um novo referendo para ver se as pessoas querem um “Não” novamente? Deixem que ponha as minhas dúvidas
Se o “Sim” ganha, haverá nova recontagem de tempo para aumentar as 10 semanas… digamos que para 12, 15, 20? Talvez a ciência dê uma ajudinha e cheguemos lá.

Pergunto-me também sobre quanto tempo passará até uma nova proposta de referendo em caso de haver vitória do “Não”.



Agora, sejamos francos.
O referendo é aleatório; é a consciência de cada um, assim como os valores que norteiam a nossa existência que estão em causa.
Enquanto uns polarizam a questão para um lado e outros para o outro: entre feministas e católicos com políticas oportunistas de entremeio – a pergunta é para o teu ser, não para a lei.

Podemos mudar a lei a qualquer momento (fazemos isso constantemente), como podemos mudar o nome de algo (como embrião e feto) e pensar que se atinge um qualquer descanso existencial com trocadalhos do carilho.

A questão é mais – quem és, em que crês, que valores trazes no teu coração?

Sabemos quando erramos – e todos erramos; por isso estamos aqui, diariamente lutando para dar e fazer o melhor, errando e novamente procurando levantar.

No entanto, algo ameaça a consciência do erro; algo ameaça quebrar as linhas orientadoras que nos levam a caminhar numa direcção e sentido. Por muito indefinidos que estes pareçam à mente embriagada de si mesma.

Lenta e imperceptivelmente, caminhamos para a apatia total, para uma anestesia de seres máquina desempenhando tarefas, desprovidos de consciência e valores.

Algo ameaça com apossar-se de tudo – terminando na própria vida.

Por muito que compreenda as opções pessoais de cada um, se me questionam acerca da legislação e se esta deve ser omissa relativamente à defesa da vida – respondo “Não”. Por muito hábil, subtil e amenizadora de consciências que a letra possa parecer.


Agora, já sei que cada pessoa fará as suas opções, cometerá os seus erros ou encontrará o seu centro ao caminhar.


De certo que nos países “liberalizados” existem os mesmos dramas relativamente a crianças nascidas em meios sociais depravados, abandonadas; mulheres oprimidas e homens irresponsáveis… e também existirão todos os casos simétricos aos descritos. Aqui não mora a questão, apenas os fogos de artifício.

A questão aqui são os valores que cada um traz dentro e de que forma lutará para os fazer valer. A questão aqui é saber quais são esses mesmos valores e de que forma queremos que sejam representados para o bem comum.

Se um só ser humano tem o poder de julgar sobre a vida e a morte… então estamos numa idade estranha…

quinta-feira, novembro 16, 2006

Partilhar


Pergunto-me continuamente acerca da ostentação que se encontra para além do entusiasmo de se partilhar aquilo que se encontra e que parece fazer sentido (eu procuro o sentido mais do que a coisa em sí).

O que fica para além do entusiasmo e da partilha será talvez a ostentação... a repetição do encontrado outrora uma e outra vez - até o que era novo ficar tão vincado que se torna velho… e me faz velho.

Penso em cada palavra, cada grito de “Estou aqui!”, cada afirmação de identidade como prova da dúvida sobre a identidade própria… penso e revejo o quanto uma palavra traz de sí mesma a contradição.

Eu, palavra de poema intemporal, nota que procura o seu acorde numa melodia universal… tu: que lês e te deleitas no eco das minhas palavras, através do som da tua voz silenciosa entre as colunas da tua mente alerta.

Sabes… pondero em cada passo o valor, a validade dos reclamos de “aqui!”, “assim!”, “é!”… pondero as cobertas e descobertas, as veladas revelações…

Encontro cómica extravagância no verbo em si, mas eco vivo na causa que o gera.

Por isso me tenho recolhido no silêncio, por sentir o quanto os meus urros perturbam as ondas do rio tranquilo.

Hermann Hesse no seu "Siddhartha" disse-o tão bem e de forma tão sublime… suspiro e procuro aprender entre tanta teimosia.

No fundo ainda não encontrei o fundamento da verdade – se a partilha implica ofensa por ser incompleto o ser que se entrega (sendo incompleta a doação) ou se é no partilhar que reside uma das características do estadio humano.

Sendo o humano incompleto e incompleta a sua partilha será o doado factor de desestabilização mais do que de harmonia?

Partilho e pondero, pondero e partilho...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Para os Distraídos...

Lembrar apenas que o dia 7 de Novembro se realizam eleições para a Câmara dos Representantes e Senado na que (pelos vistos) é considerada a capital dos Estados Unidos do Mundo sedeada no continente Americano.

Assim sendo, não se espanta ninguém (pelos vistos) de que haja uma reportagem muito bem intencionada e totalmente isenta de conteúdo político (…) sobre um tema no que a política não joga papel algum. “Uma Verdade Inconveniente”, com o Senhor Al Gore.

Não se espanta ninguém (pelos vistos) de que haja três películas a flutuar no imaginário colectivo e que duas se candidatarão ao Óscar na categoria de Fantasia Épica (pretendem arrancar o único galardão concedido ao género na figura do “Senhor dos Anéis” por Peter Jackson).

Estas sagas são “Flight 93”, “World Trade Center” e “United 93”, todas do ano 2006, tendo sido precedidas pela “Canção do Silêncio Cinematográfico Mundial” que durou cinco anos por via do “Luto Nacional” que era imperativo estender aos países do Oriente Médio.

No meio – os tais “neutrais” que querem “esclarecer” as coisas com pedaços de informação sacados da T.V, Revistas e Internet… muitos apenas expandem o clima de desinformação e dessensibilização de massas – o que ajuda a Oligarquia a rir-se dos comuns.

No entanto, para estes (com poucos meios fazendo trabalho meritório, suportando a chacota das massas ao ser catalogados de adeptos da “Teoria da Conspiração”) vai o mérito de utilizar imagens que todos viram e mostrar-nos como estamos absolutamente com a cabeça enfiada no traseiro quando coisas estranhas - envolvendo vidas, alterações legislativas severas, conflitos militares e afins (e nós temos a nossa quota parte – Lajes) – se passam, passam na T.V e em directo, passam-se dos limites e nós contemplamos como se fosse mais uma sessão de Big Brother ou a Banda a passar, para depois voltar à pasmaceira da vida diária e deixar a coisa andar.

Este é o detalhe mais chocante… a nossa indiferença e cumplicidade – e eu não sou menos por muito que escreva.

Fiquei chocado com a simplicidade dos argumentos que permitem descartar as explicações oficiais, fico chocado com o pouco que nós fazemos para impedir que Oligarquias persistam em moldar um mundo de acordo com um plano que não o das maiorias… afinal a Democracia é o governo de uns poucos sobre os muitos e a reprodução do tratamento de excepção sobre o tratamento da multidão.

As nossas mãos estão manchadas de sangue por persistir em manter a cabeça enfiada na areia… e não parece que haja muita vontade ou recursos para mudar – isto assusta ainda mais…

sábado, setembro 30, 2006

Pensamentos

Penso na consciência colectiva, penso em Carl Jung e nos seus arquétipos, penso no número crescente de humanos encarnados cultivando o feminino e penso na instituição dos valores de beleza e sensibilidade como predominantes, penso na nova era que se avizinha, penso…

Penso em Eva – que significa “Vida” – e em Adam (uma tipo específico de barro avermelhado que eu associo sempre a “Forma”).
Como arquétipos implicariam o feminino como conteúdo ou substrato e o masculino como forma, definição.
Veria na semente da Humanidade um todo que anuncia um germinar no qual o masculino representaria a casca e o feminino a sêmea.

Um - o lógico linear - o outro - o intuitivo; um o criativo o outro o definidor.
Ambos um sistema com tendência para procurar harmonia entre as suas partes constituintes numa correlação sincrética.

Vejo o hemisfério direito e esquerdo do cérebro procurando uma cooperação perfeita. Vejo o Este e o Oeste do Paraíso convergindo para unificar na ilha das macieiras um todo unificado com a vida e a ciência do bem e do mal já não mais em conflito, contraste ou desconhecimento da sua comunhão.
Vejo uma explosão e luz no trono – na sela turca do corpo físico – enquanto pituitária e pineal se mesclam num tom próximo…

Uma semente de casca grossa morre abafada pela opressão da sua própria estrutura que não deixa rebentar a planta a nascer.
Uma semente de casca fina esmorece e se esvai pela ausência de estrutura antes de se madurar em plenitude.

Já se matou o touro, já se sacrificou o cordeiro, já se pescaram os peixes… agora devemos encontrar a harmonia das águas que se juntam numa era dourada – num equilíbrio sem opressão ou desleixo entre a forma e o conteúdo.


Acreditaremos na elaboração do hermafrodita, na ancoragem das energias masculina e feminina em medida dourada, envolvendo os receptores físicos com capacidades de sintonizarem as cristas e cavas do “comprimento de onda” criador?...

É um desafio que vai transcender a força dos números… bem vistas as coisas, a maioria de nós - com outros corpos e outros egos – está em fase dormente e adora o jogo de contrastes que nos brinda a ignorância da nossa fonte.
É legítimo - e por isso é admirado - o estadio “humano”: pela capacidade de se “esquecer” da sua essência intrínseca - consoante com o resto do Cosmos - e viver num estado de "esquizofrenia" com seis biliões de sub-personalidades.

Mas – crendo em conceitos como “Massa Crítica de Consciência” (ver livro interessante “A Profecia Celestina” – de James Redfield), sentimos que a vivência da vibração comum a masculino e feminino em harmonia - por um número eficaz de indivíduos - expandirá a consciência colectiva para além da identificação com a fracção e o ser egoico.
Permite-se assim uma vivência que inclua os corpos físico, mental e emocional - com os que nos identificamos tendencialmente nesta era das regras e definições exógenas – e a continuidade na escada de Jacob para o intuitivo e a sua correspondente proximidade ao Todo relativamente ao plano actual.

Expandindo-se a consciência do ser e a capacidade vibratória da “aparelhagem receptora”, a consciência da ligação ao “Todo” - ao Cosmos - será imprimida em grau mais ou menos generalizado sobre a humanidade a título particular, e sobre a Terra a título geral.

Se a estação emissora mantém um sinal constante e perfeito, a capacidade do aparelho receptor determina se apenas captamos imagens a “preto e branco” com som “mono” e sem “teletexto” ou se fazemos “upgrade” ao modelo de “televisor” e começamos a receber algo mais do comprimento de onda da emissão eterna.


Os riscos das transições são conhecidos do passado: a identificação com o esquema existencial prévio, a resistência à transição, o agarrar-se às “roupas velhas” apenas procurando remendos em vez de se vestir as “roupas novas” para o “banquete”… estes factores provocam cisão, sofrimento por se “rasgar” a crisálida a “contra gosto” e sem entrega do ego para a sua morte como lagarta e (re)nascimento como borboleta.

Não se assustem – “Apocalipse” apenas implica “Revelação” ou “Visão de Futuro” - não o negrume que se tem espalhado.
Lembrar também que – semear medo, dúvida ou descrença é arte de Maquiavel. Plantar esperança, fé e amor é outro tipo de Arte bem diferente.

A decisão está na mão dos alguns que sentem como o palpitar do grande Ser - que é nossa essência - se vai alterando à medida que nos aproximamos da transição.

A nossa capacidade de entrega incondicional dita de forma directa a forma como a consciência colectiva se eleva na sua nova fasquia, expandindo a consciência individual para um patamar acima neste seu caminho de despertar como Um, ou “Todo”.


Para uma melhor compreensão do que implica o limiar de massa crítica de consciência e a sua importância no processo de transição para a "revelação" do futuro, procure-se “The Hundreth Monkey” de Ken Keys.

domingo, setembro 17, 2006

Um Lugar ao Sol

Há um lugar que é teu... que foi sempre teu.

Esse lugar é a tua terra prometida, esse lugar é o teu pedaço de pertença… esse lugar existe – e vais ter de o lutar…

Vais ter de deixar atrás todas as desculpas que te deste para estares noutro lugar que não o teu lugar.

Vais ter de ousar desagradar a muita gente – inclusive a ti próprio – até descobrires quem és realmente e quanto de ti são colagens de outro lugar;

Vais arriscar ser feliz – e olha que isso custa - quando te habituas à desculpa de qualquer coisa para te aferrares à infelicidade que te define como quem não és, obrigando-te a estar onde não queres estar;

Vais arriscar ser e ter prazer – à tua maneira – para além das convenções e das regras, até sentires bem, até te sentires bem... o teu lugar;

Vais experimentar caminhos fáceis, vais falhar, vais levantar outra vez, e voltar a cair… e de novo recomeçar, não compreendendo o que te motiva a erguer, o que te motiva a andar... mas sabes que existe... o teu lugar.

Vais-te perder e re-encontrar - tantas vezes que vais começar a sentir-te louco… isso é bom – estás mais perto do teu lugar e de ti mesmo e mais longe de todos os outros lugares que – ainda belos e soleados – são lugares de outros, não são o teu lugar.

E vais curtir – as tuas fadigas e cansaços – os teus dias de sol e de paz… e uns e outros terão um mesmo valor – não mais te vais queixar da carga quando sentes que a carga te faz avançar… te impede parar… te obriga a lutar… porque há um lugar...


Vais encontrar um lugar…

quarta-feira, setembro 13, 2006

The Four Loves


Alguém me enviou palavra sobre os amores, sobre Deus e sobre C.S. Lewis.

Ainda não li… hoje estou doente, a cabeça está latejante – por isso talvez seja um dia bom para “entender” o amor…

Ficou uma frase comparativa sobre o Amor e a tal Presença constante…

We cannot see light, though by light we can see things

Fico a meditar nesta frase de Lewis… eu que sou cego…

D or D existir


alma inerte o amor já não toca … pele fria o desejo não toma… Pã se funde em dimensões semelhantes… pintura imitando uma tela em branco se definha…

Conta-se ao velho ofegante em estertores lívidos o segredo de longa data - eternamente ansiado - que sempre repousara (desapercebido) baixo o seu olhar… um último esforço para o ver de soslaio, enquanto alento vital esvai do corpo retorcido por peso de tempo sustido sobre ombros gastos…

Nada esperar, desesperando da própria força ou vontade… inspiração fluindo como folha caída em Outono precoce – amarela e seca em águas de rio corrente… vida pálida sobre vida transparente… juntas abraçadas em direcção ao mar

Caminhando entre urros roncos na batalha encarniçada, a criança resvala – qual sombra pálida – olhar fixo num nada distante… sangue escorre, feridas abrem… ela se esvai nas sombras indistintas, ecos de sons baços no horizonte irreal…

terça-feira, setembro 12, 2006

Tratamentos

Ela tinha prometido apresentar uma das netas… conversas casuais nas salas de tratamentos… uma entre centenas de pernas cansadas com marcas de veias inchadas rebentando pela idade…

Pensava nas perguntas que respondera momentos antes de entrar na sala de tratamentos – o tema roda à volta de quando vou ter filhos (“Não posso – a ciência não chegou lá ainda anjo” - a piada de costume para fugir a um tema não muito agradável para mim)…”Você não, a sua mulher!” (Não sou casado)… "E quando vai casar?" (Não tenho com quem)… “Ai não acredito – tão simpático e jeitosinho.. olhe tantos que prai andam sem jeito e tantas mulheres por ai tão mal”… (Pois…)

Este costuma ser o ciclo de conversas em roda da vida, sempre que pego nalgum bebé ou brinco com alguma criança no corredor… não me apetece entrar muito em detalhes acerca da minha consciência recém adquirida sobre a possibilidade de o casamento (como os sacerdócios e essas tretas) serem algo vocacional e não apenas um conceito meramente estatístico ou maneirismo mental (macho, fêmea iguala produção de vida conjunta – veja-se macho ou fêmea conforme se quiser interpretar – e criancinhas para animar a festa – como as velas sobre o bolo de chocolates variados).

Desta vez veio o marido.
Ele é um ano mais velho que ela… mas parece uns quinze anos mais novo.

“Então e a neta?”… pergunto para o típico diálogo cândido que derreta o estéril e vazio quadrado da sala de tratamentos…”Não veio”… diz ela com o olhar engraçado em contraste com a postura centrada do “respectivo”… “Bem – e fotos, trouxe?”… “Não que têm namorado”… diz ela em meio sorriso maroto…”Ah! Bem, assim então já não quero… e não há nenhuma que esteja livre?”… vou cortando a ligadura debaixo do olhar supervisor dele…”Há uma há… mas…”… ele entra no baile de coisas já não sérias: “Não é para si que você já tem ocupação”… demoro uns momentos a compreender – horas da manhã são mesmo lerdas… “He, he – não ando por ai”… “O senhor não é casado?”… (lá voltamos ao mesmo)…

Ele abre-se…

“Pois olhe – no meu tempo – até me pagavam…”; ela ri-se…

“Você está a ouvir o que ele está a dizer?”…

“É verdade… ele sempre foi assim”…
“Eu era fodido quando era novo”

Eu fico meio “abananado”… sempre é verdade, não está a brincar…

À medida que esta “confissão com humor” se desenrola com o realizar do penso, vou-me fascinando e seduzindo no à vontade e singeleza dela, no ar despreocupado, orgulhoso e livre mas igual a si mesmo do tom dele – entramos num corolário de aventuras e peripécias enquanto casados e ela vai rindo com o olhar enquanto um carinho profundo se nota muito mais forte do que qualquer coisa que se pudesse esperar…expectativas aqui não ofuscaram um caminho a dois com mais de quarenta anos… agora à separações pelo rolo de papel gasto que não vai pró caixote do lixo… confuso...

“E – a sorte dela é que tem bom pensar…”

“Ela deve ser é muito sua amiga…”

Ele não deixa escapar nada – desde a Índia até às notas de cinco contos na lapela, depois de ele sair da casa de uma amante… ela complementa – que a outra, sendo casada - ainda lhe dava a ela atum e legumes…

“Mas – que tem ele assim de especial?” pergunto … ela responde descontraída: “Nada, nunca lhe notei nada de mais, mas é assim olhe”…” Bolas – para ser assim tão concorrido devia ter qualquer coisa – não?”… o penso já está coberto, falta o adesivo…

“À volta de casa tinha três… e o resto…”, diz ela – sem pena nem agravo.

“Olhe lá – e você, nunca…?” … ele olha de soslaio, procurando manter seriedade, ela responde: “Eu? Oh, eu tinha os filhos” (foram nove – ou seja, sempre ocupada… e bem, pelo que diz).

Saem satisfeitos – ele diz que lhe vai fazer um bolo, e que vai meter muita chouriça… hoje ela faz setenta.
Rimo-nos todos enquanto abro a porta da sala.

Seco as mãos ainda a rir-me… caramba, ainda diziam que isto das relações abertas pertence aos tempos modernos… e estes nunca fizeram terapia de casal… bolas!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Luto


Foi durante a manhã: “Pode-me tirar a tensão Sr. Enfermeiro? Não me tenho sentido bem ultimamente”.

Manhã de Sexta, agitada – pensos e consultas por “milhares” – (hoje estou bem) dou um sorriso e faço uma piada para ajudar a que aguarde mais uns momentos, de forma a ter espaço para a atender: “Não – não posso – se lha tiro, você morre”.
Rio e ela ri comigo, os utentes em volta sorriem.

Minutos depois estamos na sala, pergunto se está tudo bem…

“O meu filho morreu”… “Trinta e quatro anos e foi assim, do coração”… “Você conhecia-o” (ela mostra a foto – conheço).
Há dois anos foi o namorado da minha filha – acidente de carro - você é de Valença, devia conhecer (mais uma fotografia… sim, conheço)…”

(O silêncio)

“Assim, de repente… ele nunca falou em morte… assim fica-se revoltada” (O choro – e eu olhando nesses olhos vermelhos – não há palavras)

Assim de repente… sem meias medidas… ainda há pouco tempo estávamos a rir de uma piada e agora estamos aqui, a sentir o peso da falta, o vazio que fica quando alguém que parte nos deixa…
Procuro imaginar o que será uma morte assim – repentina – de um filho.

Não consigo… não sou mulher, não sou pai… que fazer?

O silêncio é uma tal arma nestas lides e – no entanto – com o passar do tempo, fica-se tão enferrujada pela falta de ambiente para se exercitar…

Carpir a dor… chorar com quem chora.
Um toque para que se sinta presença.
Não há palavras… as palavras não são para confortar quem chora, mas para nos defender a nós do sentir bruto e exposto ao se abrir o peito para a dor da perda…

Melhor viver um pouco na cabeça, amparar a queda, pára-choques da evidência de que tudo passa, de que não ficamos… nem os que amamos…

Ensaio algo mas não me sai.
O luto é mesmo assim – não há palavras.

Ela de negro – eu de branco.
O meu braço no dela, lágrimas que resvalam em silêncio, dois olhares que se encontram.

Ela partiu, eu fiquei… negro no branco.

domingo, setembro 10, 2006

Non ti Muovere

Amores estranhos, amores impossíveis… amores bizarros… quem escreveu as linhas que limitam esse algo a que chamamos “Amor” enquanto o não sentimos? Porque – se o sentimos - nem tempo temos para lhe chamar amor, muito menos vontade de o definir, de o ver em perspectiva, de o escrever ou de sequer o procurar reduzir com circunflexões bizarras atadas a termos e restritivismos…

Um filme que dói… “Não te Mexas”…

Penélope Cruz duas vezes violada pelo pai no espaço de dois dias, em dois filmes diferentes, por realizadores diferentes, de países diferentes… não há coincidências…

Dói o impacto da dor geracional perpetuando-se em relações bizarras, em indiferença, em canibalização dos próprios filhos por pais, “Chronos” da nova era, que matam a vida e escondem o amor baixo camadas de indiferença tão pesadas que a luz até se assusta ao se achegar…

Uma história de conflitos com as aparências, de sentires desviados das ruas normais – como a casa de “Itália” (Penélope Cruz “parlando” Italiano como mulher “vulgar” de guetos citadinos) – uma casa isolada e pobre, no meio de uns blocos de apartamento em construção.

Uma história de contradições – como as mentiras e idiossincrasias de Timóteo – o Cirurgião frustrado, com raiva contida pelo pai indiferente que o abandonara no passado, caminhando para o mesmo túmulo de vida não fosse um acidente fortuito numa estrada abandonada lhe revelar o caminho para a lama onde habita o coração de espinhos de Itália… lama e sangue que, após um dos romances mais intensos, carnais, bizarros e quase a despropósito na tela das verdades meias – termina com uma apoteose de vidas misturadas numa história bem terrena (que se agradece – face a tanto sucedâneo do outro lado do mar, apenas impressionando pelos efeitos pagos a orçamento e nunca pela intensidade ou ousadia de se revelar a pele ferida baixo a máscara social).



Pelo meio ficam as outras histórias – as mentiras que se entretecem em meias verdades – como as saídas da mulher de Timóteo – sempre ausente e em visitas que parecem fictícias ao estrangeiro, as insinuações de paternidade dobrada perante uma filha que começa e termina a história e – como o nome: Ângela – termina por redimir em lágrimas quatro vidas completamente destroçadas no labirinto de sem sentido no que às vezes esta experiência de vida se torna.

Uma fita que dói, que emociona, que prende.
Porque é Italiana talvez, porque mostra o baixo e o alto da carne humana como envelope do desconhecido da alma que a veste, que contrasta tanto e tão bem tanto estilismo de além mar que aborrece como uma caixa de bombons comida e recomida até à exaustão…

sábado, setembro 09, 2006

To Really Love a Woman

Uns olhos lindos – verde claro, um sorriso magnífico e um porte esbelto – ficou-se na porta do gabinete – adornando o corredor vazio.
Não fala – raramente inicia uma conversa… fica-se por ali, como não desejando incomodar mas necessitando um olhar… e eu olho, feliz por contemplar.

Hoje estava em baixo, mas a sua beleza merece sempre um comentário – e eu não costumo poupar o belo que se vê sem o partilhar com quem assim me embeleza:

“Está linda hoje, os brincos são muito giros… novos não é?”

Não a via desde que terminara os tratamentos, mas é sempre uma brisa quando alguém simpático, interessante, de vida profunda ou beleza irradiante nos visita no gabinete dos dias… tornam o dia mais belo e beleza com beleza se paga.

“Vai à consulta? Espero que seja rotina…”
“Ando tão em baixo Sr. Enfermeiro” – Dizia ela com a sua voz nasal… hesitante.

Entra – parece mais só do costume. (Como nos sentimos em tantas ocasiões nas que um abraço curaria o mundo e a alma… nas que um silêncio sincero - de quem ouve com o coração aberto – nos faria sentir longe da solidão…)
“Sente-se, que se passa?” digo mais alto do normal pela sua falta de audição…
“Está a custar tanto…”

(Lembro que fora operada – mais um tratamento nas centenas que passaram o mês passado pela sala… que tinha sido?… algo abdominal, talvez?)

Enquanto a ouço – ouço dentro de mim algo que diz “Mea Culpa”. Neste “Ágape”, declaram-se as culpas do estereótipo masculino que a alma veste, para assim poder celebrar com dignidade… condignamente.

O cirurgião tinha-lhe dito – peremptoriamente e sem dialogar – que “aquilo” era para tirar. Que só servia para ter filhos e que ela já tinha passado dessa idade.
(É tão difícil nascer homem e ancorar a energia feminina suficiente para amar com devoção esse ser lindo que encarna o feminino no seu auge.
Braços para abraçar e mimar, proteger, dar atenção, dedicação, tempo, presença, foco – que seja ela a única mulher no nosso mundo e a mais bela, a mais luminosa, a que é para nós com certeza rotunda e absoluta
…).



“Mas – e se eu lhe tivesse dito que lhe ia tirar os testículos – será que ele estava assim tão pedra?! Se soubesse que isto me ia deixar assim”…
(O masculino – na sua versão ainda em desenvolvimento – vira-se para coisas que considera tão “práticas” - que termina por construir um mundo de aparências nas que – o tempo que é medida de qualidade mais do que quantidade – se desfaz em trivialidades.

O masculino não aberto para amparar, para ouvir, para dar tempo a detalhes que são tudo e o que verdadeiramente importa; tão longe por vezes do abraço terno que se oferece a um bebé, na devoção que se aprende ao cuidar – ao mimar a próxima refeição, ao sentir gratidão pela lição de humildade e serviço nas fraldas dos idosos acamados cuidados por saias durante centúrias - ignora o dom da entrega e o amor profundo, simples e devoto que o serviço implica. O feminino sabe…).

“Mas é tão diferente… eu amo o meu companheiro actual – ele é mais velho e está a terminar um divórcio litigioso que nos rouba tanta vitalidade.
O amor está cá dentro na minha cabeça – eu sei – mas agora o corpo não responde, não sinto desejo
…”




(Soluções… penso em soluções… tão difícil apenas sentar-se e ouvir… que arte refinada que custa tanto a engolir… fel – estar ali, exposto. Apetece falar, parar aquilo, dizer qualquer coisa: “Abra-se com o seu companheiro – diga-lhe exactamente o que me está a dizer a mim – talvez encontre o abraço que está à procura”… será que isso resulta? A prescrição óptima em palavras… o curador certeiro da alma humana…
Não – as coisas não são assim – o que torna algo importante é o tempo dedicado, a imperturbabilidade da presença que não se arreda mesmo quando dói e a profundidade da dor que se aceita partilhar
).

“E eu que fui sempre tão activa – agora não poso parar, logo gora que temos tantas dificuldades pela frente – não posso descair”

(Vês?...)

“ E disseram-me do tratamento de hormonas sim… mas disseram também que posso engordar – e eu não quero ficar gorda, logo agora que estamos no nosso primeiro ano de relação… o médico ainda disse que isso depois passa… mas ele não percebe”

(Tão lindo o feminino – quando se dá em gestos de esmero pelo belo que representa o aspecto, quando se sente agradável à vista do amor e recebe os piropos com graça e vida.
Está linda hoje, os seus olhos brilham – e são tão lindos nesse verde. - Ela gostou da nota – Hum – traz uns brincos novos hoje – ficam mesmo bem – E eu tinha dito isto mesmo antes de ela se ter confessado. Isso foi bom – fez com que se risse em tom gasto
).

“Agora já custa tanto. O meu filho mais velho deve ter a sua idade” (e tem).
“Estão sempre a brincar comigo – Arruma-te, agora já não tens idade para essas coisas.
O mais velho até dizia “Tu antes competias com qualquer uma das minhas namoradas mãe – agora
…” (Ela sabe-se bonita… agora sente-se cansada… gasta… incertezas… susceptibilidades… manter aparência forte).

“Os homens são algo distraídos… sabe… às vezes não notam o quanto os comentários em tom de brincadeira, que eles pensam que ajudam, podem ferir”. (O que elas reparam).

“Estive casada vinte e seis anos. Não que o meu marido me maltratasse, mas a indiferença dói mais do que muitas coisas…”

(Sei… o masculino tem tanta dificuldade na devoção e no alimento constante do amor. O “principezinho” era criança linda… não era adulto. Se o fosse, a Rosa nunca teria redoma, protector do vento e água todos os dias a horas certas e a primeira coisa que ele perguntaria ao aviador perdido no deserto, não seria por uma ovelha, mas sim por uma guia de estações de serviços).

No Final oferecemo-nos um abraço. Um abraço desses que tocam peito com peito – para nos lembrar apenas o como todos os corações estão entrelaçados…

Fica aqui a música que ecoou na minha mente, enquanto ela voltava para a sala de espera… é para todo o feminino que ainda não aprendi a abraçar.

"Have you Ever Really loved a Woman" - Brian Adams

To really love a woman
To understand her you gotta know her deep inside
Hear every thought, see every dream
N' give her wings when she wants to fly
Then when you find yourself lyin' helpless in her arms
You know you really love a woman


When you love a woman you tell her that she's really wanted
When you love a woman you tell her that she's the one
'Cause she needs somebody to tell her that it's gonna last forever
So tell me have you ever really really really ever loved a woman


To really love a woman
Let her hold you 'til ya know how she needs to be touched
You've gotta breathe her, really taste her
'Til you can feel her in your blood
N' when you can see your unborn children in her eyes
You know you really love a woman


When you love a woman you tell her that she's really wanted
When you love a woman you tell her that she's the one
'Cause she needs somebody to tell her that you'll always be together
So tell me have you ever really really really ever loved a woman


You got to give her some faith, hold her tight
A little tenderness, gotta treat her right
She will be there for you takin' good care of you
You really gotta love your woman


And when you find yourself lyin' helpless in her arms
You know you really love a woman


When you love a woman you tell her that she's really wanted
When you love a woman you tell her that she's the one
'Cause she needs somebody to tell her that it's gonna last forever
So tell me have you ever really really really ever loved a woman


Yeah
Just tell me have you ever really really really ever loved a woman
Oh
Just tell me have you ever really really really ever loved a woman


P.S - Hoje foi dia de Almodóvar e de "Volver" - um feminino engraçado num olhar sobre coisas bem sérias. Há femininos com rosto de Homem...

quinta-feira, setembro 07, 2006

Os Três Desejos

O génio olhava com seu ar altivo, desde o cimo da nuvem evanescente, enquanto o pobre Aladino cogitava sobre os desejos de que gostaria ver cumpridos…

Sentiu – sentiu bem fundo – e viu a sua solidão… sozinho lá na cova dos quarenta ladrões…
Sentiu – sentiu bem à flor da pele – a dor fina que se entranhava nos tecidos como agulha entre feridas laminadas curadas a álcool 97% - a necessidade de ser tocado, de ter calor, de se perder em outros braços que não aqueles que o abraçavam em noites frias até descobrir que eram os seus próprios braços que lutavam o gêlo…

“Quero uma mulher”– disse ao génio…

O tal ente riu para os seus meandros – e questionou:

“Queres realmente o que me pedes?”

Aladino disse tremendo: “-S-sim”…

“Abracadabra!”… o génio fez o seu passe de magia e desvaneceu no ar.

Em seu lugar – entre a névoa que se esvaia – foi surgindo uma imagem. Aladino olhava… entre o ansioso e o agitado – enquanto surgia… um tornezelo escanzelado, uma anca emagrecida, um ventre mirrado, um peito seco e desgastado, um cabelo fino e frágil, um olhar gasto pelo sol…

“Por Alá! Que feitiçaria é esta?”
Olhando em redor – a mulher logo reparou em Aladino – que não terminava de crer naquilo que via perante os seus olhos… como se fosse uma triste jogada do destino:

“Fome… tu ser bom para comer?...”

“B-bem… eu… s-sou… Ninguém!”

E – sentindo-se completamente perdido, Aladino desatou a correr pelas areias do deserto, até deixar atrás a entrada da sua cova e a companhia solitária dos seus quarenta Ladrões.

Procurou algo de conforto numa aldeia próxima.
Como era alguém inteligente e algo simpático, logo conseguiu emprego numa das lojas de especiarias que serviam as caravanas na sua passagem rumo a Medina.
Mas – cedo se cansou da rotina – as horas eram iguais aos dias, os dias parecidos aos meses, as gentes iguais aos anos… sempre as mesmas.

Um dia, ao entrar no seu quarto (como era parecida aquela mesma entrada à entrada que lá estava ontem, como era igual o que nela passava…), só e cansado da rotina – frustrado com a sua vida rodando em círculos - deu um pontapé num baú à beira da sua porta. Tombando no chão - suas magras pertenças expondo - esparramadas pelo chão do quarto. Entre elas, o brilho do bronze velho despertou o seu interesse…
Lá estava a lâmpada mágica, lá estava a porta para que o seu mundo mudasse…

É claro que Aladino – desde a sua última experiência com o génio – ficara descrente dos poderes da lâmpada para lhe oferecer algo que ele realmente pudesse sentir como magnífico.

Mas – nesta pasmaceira, neste túmulo de rotinas diárias que levavam ao mesmo balcão, às mesmas pessoas que levantavam às mesmas horas, faziam as mesmas coisas todos os dias e deitavam às mesmas horas, que nunca viajavam como as gentes das caravanas ou faziam algo que fosse diferente, Aladino já não se importava se o Génio lhe oferecia algo que o assustasse como o fizera outrora.

Esfregou a lâmpada e – o génio – devagarinho, lá se foi materializando.
Parecia algo contrafeito desta vez, como se desperto de um sono prazenteiro por um oportunista indesejado, mas – cumprindo o seu dever – lá se prontificou para realizar o desejo do necessitado.

“Quero uma mulher que seja interessante.”

O génio – com olhar compadecido – olhou para Aladino com um certo ar de “Oh céus – por favor – outra vez?!?!”…

“Tens a certeza que é isso que desejas?”

Aladino, tremeu e disse “Sim”…

“Seja”

O génio desmaterializou-se e – enquanto o fumo se esvaia – logo ao longe aparecia uma caravana trazendo uma carroça coberta de tecidos finos e cores garridas.

Aladino – com a “mosca atrás da orelha”, lá se ficou – braços em jarra – esperando pela comitiva.
Todos na companhia falavam em altas vozes (coisa que inquietou o nosso herói).
A que mais alto falava era uma mulher – em vestes de seda e ouros por toda a parte.

Aladino não lhe achou muito interesse de início (não fosse pelas altas gargalhadas e pelo aparente à vontade que desprendia a insólita senhora).

Ela logo se abeirou, puxando conversa. Aladino ficou sabendo dos seus múltiplos périplos por terras de aquém e além mar. Ficou extasiado com os seus romances e aventuras mil.
Xerazade (este era o nome da nossa jóia) era casada com um Sultão que – outrora – a quisera matar (sabe-se lá por que despropósito).
Agora – Xerazade viajava para ganhar experiências novas com as que entreter o seu Sultão (ainda que Aladino começava a sentir que - o que o Sultão fazia agora - era pagar para ter a tal Xerazade bem longe).

Aladino contou acerca da sua vida na cova – Xerazade achou o máximo – tão “chique” e fantástico.
Disse que era “inovador” e “ousado” (Aladino pensou que seriam termos novos para “fome” e “necessidade”, mas não a quês interromper – ainda que, mesmo que tentasse, não me parece que tivesse tido sorte).


Ela mesma conhecera um “Guru” (Aladino já se começava a perder entre tanto estrangeirismo) que habitava um “Ashram” algures nas montanhas e que fazia não sei quê Yoga e que era “Tan-“ qualquer coisa e que… (neste momento Aladino já desligara o gravador, de tanta diarreia mental que vinha a despropósito da incombustível Xerazade).

Como se a coisa não fosse a nenhures (e Aladino já começasse com o típico “Ah… bem… sim… p-parece hora de v-voltar para casa… hum… ahm… hora dos morangos com a-açúcar – s-sabes?”), Xerazade disse que um ser tão espiritual como Aladino deveria conhecer as artes “Tântricas” para melhor fluir a sua “Kundalini” e assim ouvir, sentir e ser “Nirvana” (Aladino ainda esteve para lhe perguntar se o tal Nirvana não era alguma música estranha estilo “Dervixe” – mas como era a única palavra esquisita que conhecia decidiu não arriscar, não fosse fazer figura de parvo frente a tal espavento colorido de emoções acavaladas em pensamentos).

Deitado na cama, com as pernas no lugar dos braços, e os braços no lugar das pernas, com a língua no nariz e Xerazade esparramada sobre ele – Aladino decididamente sentiu-se como o último rebuçado na vitrina da única pastelaria da aldeia das crianças…

Quando ela se levantou para ir à casa de banho – anunciando que tinha sido uma vigésima tentativa interessante e que poderiam manter os próximos meses de prática até que a “Energia” “Fluísse” sem “Miasmas”, Aladino – conforme o seu motto (esta foi do tradutor) de vida “Quanto mais rápido mais longe, quanto mais força mais rápido”, esfumou-se imitando o nosso génio da lâmpada.

Correu, correu, correu… até já não mais sentir vida no seu corpo inerte.

Quando despertou estava sobre uma rocha. O dia findava, o Sol punha-se sobre as palmeiras, havia apenas o som da brisa nas suas folhas e uma expectação contida no ar - ao mesmo tempo que o sol se aproximava do seu ocaso, da sua linha final, do seu entregar à terra para renascer outro, num outro dia diferente.

Aladino sentiu as costas aquecer na pedra, sentiu a dor dissolver no ar soprando suavemente, sentiu o seu pensamento escoar na brisa que passava, sentiu seu coração embalado no doce e morno sentir do sol que se esvaia…

Envolto – como de novo no ventre materno – por toda esta natureza foi deslizando, esquecendo ser ele, esquecendo as suas necessidades e desejos, esquecendo sequer pensar, sentir…

O Sol esvaía-se enquanto ele era felicidade.

“Isto é mais do que eu poderia desejar… isto é tudo o que eu quero” – escapou-lhe em voz calma e serena, deitado sobre a rocha morna, sentindo-se parte de tudo, tudo o que sempre sentira em falta nesse momento era nada…

“Concedido” – ouviu-se uma voz dizer.
Enquanto Aladino se virava – assustado pela voz – sua veias gelaram, sua pele endureceu, seus olhos se apagaram ao mesmo tempo que o Sol desaparecia no horizonte.

Ficou apenas uma rocha – que parecia a forma de um homem contemplando o Sol pôr…

Sempre que passam turistas, os guias explicam a história de Aladino e a sua lâmpada dos desejos.

Eu vi o génio um dia – vi o seu olhar de ironia - enquanto esculpia, na pedra fria, uma frase que lá perdura:

“Os desejos dos homens são loucuras, o fim das loucuras é sono eterno”

Vi como se levantava, como se esticava – como que remexendo uma enorme preguiça de dentro de sí.
Vi como se esvaia em névoa – sua gargalhada ecoando na pedra.

Primeiro transformado em mulher de vestes ostentosas e sedas de cores garridas, depois numa outra mirrada e seca, finalmente num espelho de prata que se ficou flutuando sobre a bruma da manhã até ser poça de água no solo árido do deserto.


Eu – que já conhecia a história – fiquei-me entre os arbustos, esperando que a próxima caravana de turistas passa-se para ver a inédita pedra de Aladino. Hoje teriam uma surpresa se olhassem de perto… ou mais, se olhassem no espelho cobiçando a água entre o deserto da vida….

quarta-feira, setembro 06, 2006

Letras de Criança

Redondas, estilizadas, com esmero, rodopiando as curvas, grandes, abertas, com tempo e deleite na sua elaboração, ecos de passado com lufadas de ar já respirado enquanto as tecia e entretecia nos postais…

Hoje – e ontem – como o serviço demandava a convocatória de crianças com vacinas em atraso – decidi parar a resistência (é uma tarefa chata e repetitiva) e procurar um ponto de originalidade que torna-se o peso em virtude, o custo em ganho.

Dei por mim a lembrar o quanto as assinaturas revelam a personalidade de quem escreve.

Olhei para a minha letra… quando era pequenote (não que tenha crescido muito – ainda estou na média) diziam as meninas (e se elas dizem – relativamente a letras – isso tem valor pois elas mantêm-na redondinha e ajeitada… regra geral) que a minha letra era muito gira.

Olhei para os gatafunhos que se estendiam nos registos de enfermagem em redor – stressados, tensos, indistintos, feitos à pressa, sem muita atenção, com palavras bem ocas, repetindo coisas já escritas, sem pinga de personalidade, sem alma… e reparei na minha dormência…

Juntando o útil ao agradável – sentei.
Puxei as resmas de postais, as listas de crianças a convocar e – desta vez sem sentir tanta dor só de pensar no tempo, paciência e outras coisas e tais que exigiria a situação… escrevi a primeira letra.

Foi um “E” maiúsculo.
Ao princípio custou.
Só faltava esticar a língua cá para fora, ladear a cabeça e sentir como no pulso faltava a destreza e leveza para traçar a letra com o seu habitual floreado, com as curvas elegantes e artísticas com as que adorava decorar cada tracinho daqueles que – unidos num papel – criavam uma mensagem, um algo que havia vindo de algures, que havia passado por mim, e que tornava nova forma na resma de papel em branco – com linhas ou quadradinhos – que se transformava em poema de re-criação.

Era assim como me sentia em criança – co-criador (esta palavra não a sabia na altura, mas como já li muitos livros - opa! - aproveito e dou uma de “erudito” pelo não dito) - perante o caderno de “deveres” pautado com linhas para enquadrar as minhas letras.
Enooormes de início – bem que levaram uma catrefada de trabalho para se “enquadrar” nos cânones (régua em latim, como as reguadas que – de quando em vez - lá caiam por assuntos disciplinares diversos).

Lentamente – um prazer enorme foi crescendo da actividade tão diáfana em aparência.



Senti que compreendia a mensagem oculta mostrada no filme “Hero”.
A cena corresponde a uma das três histórias contadas pelo protagonista.

Um ataque armado avassalador contra uma escola de letras - mestres chineses tipografam os seus caracteres em formas únicas, como uma arte ancestral, tudo em tons de vermelho contra negro, uma chuva de flechas alienadoras (do império unificador) caem matando aqui e além alunos de vermelho.
Na mesma sala – entre as flechas que furam o telhado de palha e telha - o mestre traça impassível seus caracteres. Um a um os alunos vão morrendo, enquanto o velho mantém a sua mesma atenção e devoção.
Um dos heróis do filme traça – com arte de pena que parece espada - um carácter em vermelho vivo – que será símbolo do filme… A mensagem que o imperador não compreendera: “tudo baixo um mesmo céu”, escrita em tons de sangue e devoção sem força ou imposição.

A minha mente toca as cenas enquanto comungo dos segredos mostrando o profundo em cada coisa que se faz com amor, tempo e desprendimento. Foi esta a magia das letras hoje.

Cada nova reviravolta do “A”, cada tracinho do “X”, cada traço de personalidade erguendo-se do “N” e do “R”, cada bolachuda calma do “B” e do “D”…
Cada uma que reencontrava o seu lugar antigo mostrava-me quem eu fora ao mesmo tempo que se entrevia o tal processo de “cimentação” de velocidades endiabradas, de desprendimentos bruscos, de aluimento da devoção com que traçava a minha personalidade nas linhas. Vi esse tal processo que eregeu cidades betonadas e avenidas rectilíneas nas minhas folhas brancas – sobrepondo-se ao suave declive das colinas ou ao doce fluir de rios mansos entre as palavras ondulantes…

Gostei de distinguir o tal “progresso” que se havia dado em mim. Gostei de me “revisitar” – de olhar para a criança e ver como ela julgava o adulto que aparentemente se fez baixo as linhas de fundo do caderno da vida.

Acho que ela não gostou da minha letra – e eu, sinceramente – prefiro a sua.

Talvez algum dia – pequeno Daniel – volte a traçar letras, palavras e frases com o mesmo carinho e dedicação, com o mesmo deleite e atenção, com o mesmo sentido despreocupado e generoso sobre o tempo e o espaço a preencher no caderno da vida.

Agora – tenho de escrever depressa – as agulhas dos relógios parecem mandar e os números contam mais que a vida nas letras do dia.

Mas – talvez – volte a escrever com essa mesma parcimónia que apenas uma criança sabe dar ao simples que é viver…

Bem haja pequeno Daniel – por me teres tocado na distância. Bem haja.

domingo, setembro 03, 2006

Pedra

Uma adúltera… o povo preparava-se para a apedrejar… como se, descarregando as pedras ( Cefas – ouves-me?) sobre outrem, se redimissem da sua própria falta de sentido…

Alguém se entremeia… escreve na areia… palavras que passarão… como o pó…

“Quem não tiver pecado – atire a primeira pedra”…

E assim ficou – até se ficar só…

Dois – sós…

Ela foi – se pecou ou não – nunca saberemos… são palavras no pó (pecar é latino – significa “falhar o centro” - não o livro).

O que me chamou a atenção foi – ele não atirou pedra alguma (ouviste Cefas?).

Ele não atirou pedra alguma…