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terça-feira, maio 03, 2005


Como neste Catua de Bandudato - Distrito de Aileu - ficam gravados a ferro e fogo os momentos e as gentes das terras Maubere - na minha pele e no meu intimo...

O Adeus

Que posso dizer?...

O tempo chegou ao seu fim.

Nas ruas – mesmo sendo uma da manha – musicas varias entrelacam-se com canticos religiosos enquanto a “manif” - teoricamente suportada pela igreja local - segue na sua “teimosia” de nao abandonar as ruas enquanto reivindicacoes imprecisas nao forem respondidas...

Temos outra vez arame farpado nas ruas, temos de novo ameacas sobre as multidoes... mas desta vez sao Timorenses frente a Timorenses – a de o mundo ser redondo algum dia ou estaremos num planeta de seres e ideologias quadrados?...

Deixo esta terra sem quase tempo de respirar (e tambem eu rezo para que – amanha – nao se confirmem os receios de confusao e possa recolher o meu visto e passaporte no ministerio do interior local). Mas – em cinco minutos de tempo para respirar - senti um vazio e uma saudade tamanha... so de pensar em partir daqui, em regressar para la...

Daqui levo as raizes deste povo. A admiracao por quem sabe ser quem e, onde pertence e – sobretudo – o que e a independencia (e nao falo de politicas ou paises, mas a independencia, o orgulho e ousadia de se ser ainda humano).

Daqui levo sorrisos de crianca como nunca vi, liberdade como nunca vivi. Levo o ter estado longe dos grilhoes de um dia a dia conhecido durante o tempo suficiente para ter entendido que ainda existem seres humanos livres...

Agora resta o conformar-se com a ideia do regresso a Portugal e ir acarinhando o sonho de voltar aqui.

Talvez algum dia... talvez.

domingo, março 27, 2005


Este guerreiro em Aileu, tipico das zonas de influencia Indonesia (representando o cortar dos grilhoes da escravatura) ficou - ironicamente - atado pela ilusao optica dos cabos electricos de fundo. Cortas-te as correntes da escravatura, escravizaste-te nos fios do desenvolvimento meu rapaz!...

Um catua tomava conta de um galo e de um mundo de criacas que - entretanto - se atiram avidamente ao lixo em busca de coisas interessantes. Num dos bairros perifericos de Dili com uma curiosa inscricao no degrau - junto ao bone do amigo catua - que chamou bastante a minha atencao, nao fosse o humor negro da situacao - "Death Me"...

Na entrada da embaixada portuguesa, com o guarda da Caixa Geral de Depositos e da Timor Telecom sentado ao fundo, encontro este "pobre adormecido"... mais um dos contrastes bizarros nesta terra em contraste.

No servico de cuidados intensivos do Hospital, um catua moribundo - sempre acompanhado da familia - recebe uma das suas ultimas fotos. Ao lado, alguem com asma (no coments) vai recebendo os cuidados da familia que - aqui - esta sempre com o doente, mesmo na UCI. Cuidados "personalizados" a falta de maquinas, medicacao e materiais...

Em pleno gabinete do ministerio das financas, na quarta tentativa para solucionar a isencao de taxas de alfandega de medicacao para doar, enquanto faco sessao de "acampada" esperando que - desta - a questao fique solucionada, nao pude evitar sacar uma foto a estes milhentos "post-sticks" que - com lembretes ate perder de vista - quase subterravam o computador do ministerio. Podem cobrir de aspecto tecnologico a capital da nacao e os seus servicos, mas a forma de pensar e agir - essa...

Numa loja da Xerox - em pleno Dili - olho para o lado e vejo aqui o amigo catua, entre impressoras, fotocopiadoras, computadores... enfim, estamos num vortex temporal no qual - passado, presente e futuro convergem e culturas se encontram como em choque de placas tectonicas...

quarta-feira, março 09, 2005

Ernesto!

Para os que pensem, que as gentes daqui não sabem das coisas, nem como elas se tecem e entretecem desde as comunidades que os teem colonizado e continuam a colonizar, aqui fica a situação curiosa desta criança que encontrei encostada a um jipe U.N com uma T-Shirt do Che...

Saio porta fora da viatura – olho o puto recostado – pronto a meter conversa (como so os daqui sabem fazer, com gesto meigo e palavras ousadas) e, vendo as suas vestes exclamo “ Uau! Che Guevara!”.

O criançolo, de suas poucas primaveras – logo me corrigiu:

‘ERNESTO “Che” Guevara!’

O povo sabe, o povo sente, e tem uma forma muito sub-reptícia de se resistir as colonizações – quer sejam as das regras que vem de fora, as da corrupção militar ou as das falinhas mansas e dentes branqueados vindos de todos os lados de alem mar...

O povo sabe...

Bem - necessito dizer algo mais? Acho que - desta - a foto fala bem por mim. Estou a sair do jipe, para ir comprar mantimentos para a missao num supermercado aqui perto (que - obviamente - e so para Malae, pois nao ha que pague os precos de la tendo ingressos locais) e tenho este Che mesmo colado a minha porta, encostado ao jipe de marca conhecida, e fazendo a ronda pra ver se crava uns trocos...

Contra um portao fechado, apanhei este Che em plena passagem pela cas da missao. Dei-lhe ordem de "alto"!, encostei-o ao muro e trespasseio-o com os meus fotogramas...

Agrilhoados ao "safar-se" com o cartao de telemóvel para vender ao Malae e o Jornal Semanário local, tenta-se sobreviver como se pode numa cidade de loucos. As revoluçoes - desgraçadamente - só ajudam a reforçar o sistema contra o que se erguem. A única revolta que parece valer a pena está na frase de Crishna num dos diálogos do Bahavat Ghita - "...o guerreiro que se conquista a si mesmo..."

De Che ao peito, jovens passeiam a sua vontade de reviravolta num tempo e num lugar onde nao parece haver saída para o labirinto que torna as gentes um "franchising" internacional...

É claro que o Che tem casa - tem casa em muitos dos lares Timorenses, em muitos coraçoes descontentes, em muitos que lutaram e se sentem frustrados na sua fome de independencia, em muitos que olham de lado a presença da ocupaçao Malae...

É de pequenino, que os Chezinhos aprendem da mama o seu gesto guerreiro, a sua furia incontida - aqui um futuro Che, no campo, a ser perseguido pelo nosso traductor e pelo carro da AMI...

segunda-feira, março 07, 2005

Água da Vida

Sim! Começou a chuva e – com ela – a vida renasce com efusividade... A vida que começa e recomeça, numa espiral contínua, num final de capitulo do “Siddartha” de Hesse – onde todos os rostos se fazem um no fluir dos tempos. Aqui estamos em pleno surto de Dengue – chega a água e – para além de tudo o bom que a ela associamos – chegam também os mosquitos com a Malária, a Filariose e o Dengue. Mas – para compensar tudo isto – chegam as manifestações ancestrais de alegria. As pessoas atiram-se às ruas, exultam com a chegada do renovador vital. Enquanto o Malae assiste perplexo dentro da sua viatura, ou no interior de um café, os Timorenses passeiam nas ruas – grupos imensos – como se de um solarengo final de tarde de Verão se tratasse. Falam, riem. Outros literalmente ocupam as estradas – saltam, brincam, riem. Ha muitos que ocupam a rotunda do aeroporto de Dili – jogam à bola, namoram, riem. Este povo – que a nós Malae nos deixa tão sem jeito - é algo de singular. Todo um privilégio o poder sentir-se perto da sua alegria incontida, das suas raízes bem profundas, do seu jeito à flor da pele...

Quando chove, a maioria das ruas de Dili ficam autenticas piscinas. Esta é a rua do porto e - os barcos - deviam prestar seriço também deste lado da margem...

Seja namoro moderno, surf à Timorense ou banhoca de Inverno, o facto e que estes dois dao uma ideia da magnifica singularidade destas gentes... vai nessa irmao!

Esta é a rotunda do aeroporto de Dili. Estava a chover a potes enquanto avançava vindo de um dos Centros de Saúde da Periferia Urbana quando tiv de parar a viatura para ver toda esta gente - baixo chuva torrencial - a passear como se de um Domingo à tarde no paruqe se tratasse. Gente formidável!...

Começam as chuvas - tarde e pouco. Imaginam as pessoas a fugir das chuvas torrenciais, correndo pelas ruas para se abrigar?... Pois, imaginam mal. Centenas de jovens saem à rua e festejam a agua da vida; correm, jogam à bola, namoram... Deitados no asfalto, ocupando as rotundas, estendidos nos escoadouros. Toda uma efusividade para olhos occidentais!...